Nova exposição do cearense Tito Flávio ocupa o Espaço Onix Experience com pinturas que exploram memórias singulares e coletivas

A mais nova exposição do artista cearense Tito Flávio, “Topografias da Memória”, está em cartaz no Espaço Onix Experience até 31 de julho. Com curadoria de Andréa Dall’Olio Hiluy, mostra reúne 36 pinturas inéditas e propõe um encontro entre retrato, abstração e memória coletiva

Sâmya Mesquita
samyamesquita@ootimista.com.br

Tem exposições que visitamos. Tem outras que nos visitam de volta. Em Topografias da Memória, nova mostra individual de Tito Flávio, o espectador dificilmente contempla apenas os quadros. A experiência é como lembrar da própria infância, de alguém da família, de uma viagem antiga ou de uma sensação que nem sabia que ainda existia. Em cartaz até 31 de julho no Espaço Onix Experience, a exposição reúne 36 pinturas inéditas em óleo e acrílico sobre tela e investiga justamente esse território instável entre memória, imaginação e afeto.

Com curadoria de Andréa Dall’Olio Hiluy, os trabalhos aproximam retratos e paisagens em uma construção visual onde tudo parece se transformar constantemente: o rosto vira território, a mancha vira lembrança e a paisagem passa a funcionar quase como um estado emocional. “O que à distância se apresenta como corpo, de perto revela-se território. A exposição convida o olhar a atravessar a figura e perceber que toda imagem contém, em potência, outra imagem”, reflete o artista Tito Flávio.

Memórias compartilhadas
Embora a mostra dialogue diretamente com referências da história da arte e da pintura contemporânea, a origem do trabalho é profundamente íntima. Grande parte das telas nasce das memórias do artista com os pais, especialmente das experiências vividas durante a infância, entre viagens pela zona rural do Piauí, praias do Ceará e encontros marcantes que permaneceram registrados afetivamente. “Essa exposição conta a minha história, da minha infância com a minha família. Aqueles momentos que vivi com o meu pai principalmente”, diz Tito. Entre os personagens retratados está Patativa do Assaré, figura que o artista conheceu ainda criança ao lado do pai. “Os personagens têm a ver com esse momento. As paisagens também. Tudo vem dessa convivência”.

A própria construção da exposição nasceu quase intuitivamente. Segundo o artista, o tema da memória só se tornou evidente enquanto as pinturas já estavam sendo produzidas. “Quando pintei o Clint Eastwood, não sabia que ia fazer uma exposição de memórias. Estava pintando e percebi: o que eu tenho aqui na mão são memórias”, resgata Tito Flávio. O ator norte-americano, aliás, ocupa um lugar simbólico importante dentro da mostra. O primeiro retrato produzido para a exposição foi justamente inspirado em Clint Eastwood. “Me emocionei muito lembrando do meu pai, assistindo filme com ele. Não é propriamente pelo Clint Eastwood. É por aquele momento com a minha família”, relembra.

Essa dimensão emocional se amplia justamente porque as memórias apresentadas pelo artista acabam funcionando como espelhos para o público. Ao falar sobre o impacto da exposição durante a abertura, Tito percebeu que muitos visitantes começavam a revisitar suas próprias histórias diante das telas. “São memórias muito comuns. A questão da infância, da religiosidade, da zona rural, da curiosidade da criança. Quando eu converso sobre as pinturas, as pessoas começam a lembrar da própria família”. Segundo ele, esse movimento faz com que a exposição deixe de ser apenas autobiográfica e passe a operar também como memória coletiva. A curadora Andréa Dall’Olio Hiluy reforça a percepção de que “essas memórias não se apresentam como narrativa autobiográfica direta. Operam como forças latentes que atravessam a imagem e ativam um espaço onde o íntimo e o coletivo se encontram”.

Cartografia afetiva
Visualmente, Topografias da Memória também chama atenção pela forma como retratos e paisagens foram colocados lado a lado pela curadora, quase como extensões uns dos outros. Segundo Tito, essa relação nasce da própria maneira como ele constrói a pintura. “Os retratos e as paisagens têm essas duas coisas em comum: fazem parte das mesmas memórias e têm a mesma forma de pintura”, explica.

O amadurecimento técnico e conceitual de Tito também é percebido pelo próprio artista como um diferencial desta exposição em relação às anteriores. “Aqui estou mais amadurecido como artista, tanto na técnica quanto na pesquisa. Pela primeira vez, consegui enxergar um tema muito claro dentro da minha produção”, afirma Tito Flávio. Talvez por isso Topografias da Memória funcione menos como uma coleção de quadros e mais como uma espécie de cartografia afetiva. Não apenas das lembranças do artista, mas também daquilo que cada visitante carrega silenciosamente consigo.

serviço

Exposição “Topografias da Memória”
Visitação até 31 de julho, de segunda a sábado, das 9 às 12h
No Espaço Onix Experience (Rua Dr. Edmilson Barros Oliveira, 99, Tauape)
Acesso gratuito e acessível
Mais: @titoflaviogomes.art no Instagram

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