Helena Ranaldi relembra papéis icônicos da carreira e reflete sobre a arte de se reinventar

Dona de papéis marcantes, a atriz revisita memórias e fala sobre o prazer de se reinventar no palco, em entrevista exclusiva ao O Otimista. Após passar por Fortaleza com a peça “Três Mulheres Altas”, ao lado de Ana Rosa e Fernanda Nobre, a artista reflete sobre o tempo, o envelhecimento e o poder transformador da arte

Sâmya Mesquita
samyamesquita@ootimista.com.br

Helena Ranaldi é uma das presenças mais marcantes da dramaturgia brasileira. Dona de uma trajetória que une sensibilidade e rigor artístico, ela construiu, ao longo de quatro décadas, uma carreira sólida no teatro, no cinema e na televisão. A atuação elegante e contida, sempre carregada de emoção e verdade, fez dela uma das intérpretes mais respeitadas da cena nacional.

Em papéis que se tornaram emblemáticos, como a professora Raquel de “Mulheres Apaixonadas” (2003), conquistou o grande público e se firmou entre as grandes atrizes de sua geração. “Me sinto privilegiada por ter tido a oportunidade de estar em diferentes trabalhos, tão bem escritos e dirigidos”, expõe a atriz.

Mais do que uma artista de expressão refinada, Helena representa a maturidade com leveza e profundidade. Sua trajetória revela uma constante busca por desafios, pela construção de personagens complexas e por narrativas que provoquem reflexão. Nos últimos anos, a atriz tem se dedicado intensamente ao teatro, encontrando no palco o espaço ideal para revisitar temas como o envelhecimento, a memória e as transformações da vida. O projeto mais recente, “Três Mulheres Altas”, de Edward Albee, passou por Fortaleza no último mês e tem sido celebrado pelo público e pela crítica. “A direção do Fernando Philbert foi uma agradável surpresa pra mim. A maneira que ele conduziu os ensaios me permitiu criar em um estado de liberdade. Ana Rosa e Fernanda Nobre são muito generosas e isso possibilitou um processo leve”, detalha.

Em entrevista exclusiva ao O Otimista, a atriz fala sobre o processo criativo por trás da peça, o reencontro com o público, a importância das parcerias femininas no palco e as lições acumuladas ao longo da carreira, além de refletir sobre o amadurecimento artístico e pessoal, destacando como cada papel vivido foi uma nova forma de se descobrir — e de continuar transformando o tempo em arte.

O Otimista – O que te fez topar esse desafio de fazer o espetáculo “Três Mulheres Altas”?

Helena Ranaldi – Eu sempre me interessei muito pela vida. E esse texto provoca uma reflexão muito importante sobre a passagem do tempo. Sobre como nos percebemos em diferentes fases da vida. Como a vivência nos transforma e nos prepara para viver novos desafios. Acho importante refletir sobre essas questões. Esse foi um dos motivos que me fez querer entrar nesse projeto. É um texto muito bem escrito, divertido e profundo ao mesmo tempo.

O Otimista – A peça é considerada um clássico contemporâneo do teatro. Como foi para você encontrar uma leitura própria para essa obra? Qual toque seu está presente na personagem?

Helena – A criação acontece dentro de uma estrutura de coletivo. A troca com o diretor e com as minhas parceiras foi fundamental para que eu me sentisse tranquila para criar a personagem B. A direção do Fernando Philbert foi uma agradável surpresa pra mim. A maneira que ele conduziu os ensaios me permitiu criar em um estado de liberdade. Ana Rosa e Fernanda Nobre são muito generosas e isso possibilitou um processo leve. Não sei avaliar ao certo o toque que dei para essa personagem. Acho que esse ‘toque’, vai sendo construído a cada espetáculo que nos apresentamos.

O Otimista – A peça aborda envelhecimento, memórias e arrependimentos. Qual desses temas mais dialoga com você neste momento da sua vida e carreira?

Helena – Penso que as memórias estarão sempre presentes e que são e serão sempre ferramentas de aprendizado. Sobre o envelhecimento, gosto de pensar em algumas vantagens da passagem do tempo. A oportunidade de transformação, uma coragem maior para enfrentar desafios e, com certeza, mais tranquila para lidar com as adversidades da vida.

O Otimista – Sua estreia em novelas coincidiu com uma fase de ouro das novelas – da qual tive o prazer de acompanhar, de casa, todas as suas participações! Que memórias você guarda desse período e como enxerga a TV atual?

Helena – Tenho um carinho muito especial por todas as personagens que fiz na televisão. Me sinto privilegiada por ter tido a oportunidade de estar em diferentes trabalhos, tão bem escritos e dirigidos. Sinto que houve uma mudança no comportamento do telespectador. Hoje, com as ferramentas de streaming, o público tem um leque maior de possibilidades de escolha. Com isso a audiência naturalmente se transformou. Antigamente, as pessoas tinham o hábito de sentar em frente à televisão com a família e assistir às novelas. Era um programa familiar. Hoje isso acontece com menor frequência.

O Otimista – Entre suas atuações mais marcantes, podemos citar a professora Raquel de “Mulheres Apaixonadas”. Como foi lidar com a repercussão de uma personagem tão complexa? Lembro que não se falava do tema abertamente em novelas e até se fazia piadas com o enredo…

Helena – Foi bastante importante a abordagem desse tema tão sério ser exibido em uma novela. Gosto sempre de dizer que fazemos um merchandising social. Muitas mulheres se sentiram representadas e muitas delas tiveram coragem de denunciar seus agressores por influência das cenas que foram mostradas na novela.

O Otimista – Entre TV, teatro e cinema, qual dessas linguagens mais a desafia atualmente e por quê?

Helena – Tenho feito muito teatro nos últimos anos, mas acho que me sinto desafiada sempre que inicio um trabalho novo, seja no teatro, cinema ou televisão. Cada nova personagem representa um novo desafio sempre.

(Foto: Jeif Karaf)

O Otimista – Você já afirmou em entrevistas que gosta de mergulhar profundamente em seus personagens. Olhando para trás, qual foi o trabalho que mais a transformou?

Helena – Todas as personagens são desafios novos que vão provocando transformações no meu processo de trabalho. A experiência de criação de cada um transforma de maneira diferente. Acho difícil citar um em especial.

O Otimista – Existe algum papel que ainda não interpretou e que representa um desejo pessoal ou um sonho artístico?

Helena – Nenhum em especial. Mas meu sonho artístico é continuar atuando sempre. Ter capacidade de trabalhar até o final da minha existência.

O Otimista – Por fim, quais projetos estão no radar? Pode adiantar o que vem por aí?

Helena – Tenho outros projetos em teatro, mas o fator surpresa é sempre mais interessante. Prefiro falar de novos trabalhos, durante o processo de execução.

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