Júlia Lemmertz revisita a carreira e traz reflexões sobre tempo, liberdade e rumos do audiovisual brasileiro

Atriz Júlia Lemmertz revisita a carreira, com passagens marcantes pela televisão e pelo teatro, e traz reflexões sobre o tempo, a liberdade e os novos rumos do audiovisual em entrevista exclusiva

Sâmya Mesquita
samyamesquita@ootimista.com.br

Júlia Lemmertz segue consolidando seu lugar como um dos nomes mais elegantes e consistentes da dramaturgia nacional. Filha da também atriz Lílian Lemmertz (1937-1986), a primeira Helena do novelista Manoel Carlos, Júlia fechou um ciclo dessas personagens como a última Helena do autor, na trama “Em Família” (2014). Mas sua carreira vai muito além disso: do longa clássico “Um Copo de Cólera” (1999), protagonizado com o então esposo Alexandre Borges, à peça premiada “Eu Sei que Vou Te Amar” (1994), de Arnaldo Jabor. Após estrear, em Fortaleza, o espetáculo “Cora, mulher, escritora Coralina” em Fortaleza, a atriz reflete sobre uma carreira construída entre o teatro, a televisão e o cinema, sempre atravessada por escolhas que priorizam densidade artística e longevidade.

Tapis Rouge – A montagem estreou nacionalmente em Fortaleza. Que significado iniciar essa turnê justamente fora do eixo Rio-São Paulo?
Júlia Lemmertz – Eu sempre acho bonito viajar e conhecer novas plateias. Foi uma sorte vir para Fortaleza e poder trazer a Goiás de Goiás Velho, de Cora Coralina, para cá, mostrando que a poesia e a literatura não têm fronteiras. Cora é uma mulher que atravessa lugares: ela é do Brasil, é de qualquer lugar, é de todos. Então, por que não começar por Fortaleza?

Tapis Rouge – A obra de Cora Coralina dialoga com temas como tempo, maturidade e experiência feminina. Como esses elementos atravessam sua interpretação no palco – e até te tocam pessoalmente, como mulher?
Júlia – Ela observa como as mulheres eram tratadas, como as crianças eram vistas, olha para figuras marginalizadas, como a mulher prostituta, e acolhe tudo isso com humanidade. Isso é muito bonito, muito estimulante. Ler Cora é uma viagem deliciosa, e poder interpretar seus textos, dar vida a essas palavras, é algo pelo qual me sinto profundamente grata.

Tapis Rouge – Em um momento onde o etarismo ainda é uma questão na sociedade, como enxerga que a sociedade lida com o envelhecimento, especialmente de mulheres, no entretenimento?
Júlia – Essa palavra “etarismo” surgiu agora e já nasce carregada de um certo preconceito. A verdade é que o mundo ainda valoriza muito a juventude, mas não há o que fazer: todos nós, com sorte, vamos envelhecer. Esse é o movimento natural da vida. E é bonito chegar a esse momento, porque significa que vivemos. A gente precisa parar de tentar eternizar o que não é eterno. Nada é. Tudo passa, tudo é movimento. Eu acho lindo viver o tempo presente. E o próprio entretenimento precisa entender isso: há grandes atores mais velhos fazendo trabalhos incríveis. Que bom que estão envelhecendo. Que bom que estão vivendo!

Tapis Rouge – Você construiu uma trajetória marcante na televisão, especialmente em novelas. Como avalia a transformação do audiovisual com o avanço do streaming e o destaque internacional que o cinema brasileiro tem alcançado?
Júlia – O ator brasileiro sempre teve a sorte de transitar entre o teatro e uma indústria forte como a televisão, que levou as novelas a um nível de excelência e exportação internacional. Mas isso está mudando. O streaming trouxe novas possibilidades e, ao mesmo tempo, o cinema brasileiro vem ganhando força e reconhecimento no mundo. Ainda assim, é um cenário difícil. Produzimos muitos filmes por ano, mas boa parte deles não chega ao público. Existe um problema de distribuição e visibilidade. É preciso pensar isso como política cultural: investir para que nosso cinema circule mais, dentro e fora do País, porque ele fala da nossa história e merece ser visto.

Tapis Rouge – Você viveu uma das Helenas de Manoel Carlos, compartilhando com outras seletas atrizes essas personagens que marcaram gerações. Como percebe o legado dessas protagonistas e o impacto delas na sua carreira?
Júlia – Foi um momento muito especial. Minha Helena veio como uma homenagem a todas as outras, em uma fase em que a televisão já passava por transformações. O próprio Manoel Carlos estava em outro momento da vida. Ainda assim, foi uma novela feita com muito carinho e respeito. E tem um valor afetivo enorme para mim, porque minha mãe foi a primeira Helena: ela deu início a essa linhagem. Acho que o Maneco teve um papel fundamental ao construir protagonistas femininas fortes, complexas, maduras, muito diferentes das heroínas idealizadas. Ele abriu caminho para um protagonismo feminino mais interessante na televisão.

Tapis Rouge – Em um plano mais pessoal, como enxerga, hoje, a ideia de liberdade e felicidade na vida solo, especialmente após relacionamentos amorosos longos e públicos?
Júlia – Acho que liberdade e felicidade precisam existir tanto numa vida compartilhada quanto numa vida sozinha. Estar solteira não significa estar só. Antes de dividir a vida com alguém, é importante gostar da própria companhia, ter autoestima, saber viver bem consigo mesma. E, sobre a exposição, as pessoas projetam muitas coisas que nem sempre correspondem à realidade. O importante é viver a própria vida da melhor forma possível, sem se pautar pelas expectativas externas.

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