Durante anos, fragrâncias em produtos de skincare foram associadas a luxo, sofisticação e bem-estar. Agora, em meio ao crescimento das rotinas minimalistas e da busca por fórmulas mais simples, consumidores e especialistas voltam a discutir uma pergunta aparentemente simples: afinal, é preciso abrir mão de aromas para cuidar bem da pele?
Sâmya Mesquita
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Poucas experiências de autocuidado são tão instantaneamente reconhecíveis quanto abrir um creme facial e sentir seu aroma característico. Seja a fragrância floral de uma máscara facial, o cheiro fresco de um hidratante ou as notas sofisticadas de um sérum de tratamento, o perfume tornou-se, ao longo das últimas décadas, parte fundamental da experiência do skincare. Mas, paralelamente ao crescimento das rotinas de autocuidado, surgiu também um movimento contrário: o de consumidores que passaram a enxergar as fragrâncias como potenciais inimigas da saúde da pele. A discussão, impulsionada por redes sociais e pelo crescimento do mercado de cosméticos “clean”, coloca em debate uma questão que exige mais avaliação individualizada do que respostas absolutas.
Para a dermatologista Fernanda Cassain, um dos principais equívocos dessa discussão é transformar fragrância em sinônimo automático de ingrediente prejudicial. “Fragrâncias representam uma causa reconhecida de dermatite de contato alérgica, mas a maioria das pessoas usa produtos perfumados sem desenvolver problemas”, explica a médica. Ao mesmo tempo, destaca que a própria indústria percebeu que o skincare deixou de ser apenas uma prática funcional para se tornar um ritual de bem-estar: “Estudos mostram que o aroma interfere inclusive na percepção de eficácia do produto e na intenção de recompra”.
A farmacêutica e esteticista Marina Martins, especialista em cosmetologia e docente universitária, observa que o aroma, a textura e a apresentação visual formam um conjunto capaz de criar vínculos emocionais duradouros entre consumidor e produto. “Essa experiência sensorial agradável pode aumentar a adesão à rotina de cuidados e tornar o autocuidado mais prazeroso”, revela.
Por trás do hype
O crescimento do discurso anti-fragrância, no entanto, não surgiu do nada. Fernanda Cassain reconhece que existe uma base científica sólida sustentando parte dessas preocupações. “Para pessoas sensibilizadas, com dermatite atópica, eczema ou pele muito reativa, evitar fragrâncias pode ser uma recomendação apropriada”, pondera. O problema, segundo ela, surge quando essa recomendação é extrapolada para toda a população: “Nem sempre existe respaldo científico para afirmar que toda fragrância deve ser evitada por qualquer pessoa”.
Essa busca pelo equilíbrio também transformou o trabalho realizado nos bastidores da indústria cosmética. “O desenvolvimento de fragrâncias hoje envolve uma combinação de criatividade e ciência. Perfumistas trabalham junto com toxicologistas, químicos e dermatologistas para selecionar ingredientes seguros, respeitando regulamentações internacionais e limites de exposição”, afirma Fernanda. Marina acrescenta que o processo envolve inúmeras etapas de controle e testes. “Os profissionais desenvolvem fragrâncias que proporcionam uma experiência agradável sem deixar de priorizar a segurança do consumidor. Existem avaliações desde o controle de qualidade inicial até testes com a formulação final destinada ao mercado”. Ambas concordam que há uma tendência crescente no desenvolvimento de fragrâncias mais leves e com menor potencial sensibilizante.
No fim das contas, a pergunta que domina as redes sociais talvez tenha uma resposta menos dramática. “A fragrância representa uma escolha sensorial legítima, amplamente utilizada para melhorar a experiência e a adesão ao tratamento. O importante é considerar as necessidades individuais e compreender que uma mesma formulação pode ser excelente para algumas pessoas e inadequada para outras”, conclui Marina. Em outras palavras, talvez não seja necessário dizer adeus ao prazer de abrir um creme perfumado, desde que a pele concorde com a experiência.


















