Aclamado em Cannes, ainda que tenha saído da competição sem prêmios, “Amarga Navidad”, novo filme de Pedro Almodóvar, estreia hoje (28) no Brasil. O longa traz o DNA do cineasta espanhol e propõe um dilema ético: até onde o artista pode usar a vida dos outros como inspiração para suas criações?
Émerson Maranhão
emerson@ootimista.com.br
Em “Amarga Navidad”, Almodóvar está nu. “Mas eu desperto porque tudo cala frente ao fato de que ‘Almodóvar’ é mais bonito nu”. Tomo a liberdade de citar e parafrasear o famoso compositor baiano, muito amigo do cineasta espanhol, para começar essas considerações sobre o novo filme de Pedrito.
Diferentemente da nudez do imperador, recriado pelo dinamarquês Hans Christian Andersen, no século 19, como é sabido, a de Almodóvar em seu novo filme é proposital, propositada e muito bem-vinda.
“Amarga Navidad” (Espanha, 2026), que estreia em circuito comercial no Brasil hoje (28), com o título de “Natal Amargo”, é um grande filme de Almodóvar. Arrisco dizer que um dos melhores dos últimos tempos. E, sim, isso é um artifício que me livra do compromisso – desnecessário – de lhe ranquear a produção. Recente ou não.
O fato é que é Amarga Navidad é um Almodóvar com DNA. Autêntico, potente, intenso, dramático. As famosas “cores de Almodóvar”, para o que Adriana Calcanhotto genialmente chama atenção em “Esquadros”, canção lançada em 1992 (!), estão lá. Ainda que menos gritantes, mas tão vibrantes quanto. O protagonismo feminino, também. Assim como o melodrama rasgado e clássicos de Chavela Vargas, a cantora costa-riquenha, musa do diretor. Rossy de Palma, a atriz, outra musa inequívoca de Pedrito, também faz uma participação. Pequena, é fato, mas marcante, como sói ocorrer.
Para além das digitais autorais, por certo desejadas, notadamente para os admiradores da cinematografia do espanhol, o filme é excelente. Desde a direção de arte primorosa (dá vontade de morar nas casas e apartamentos que lhe servem de cenários) aos diálogos afiadíssimos, repletos de autoironia e referências a obras anteriores do diretor e roteirista, que aqui não serão antecipadas, para não estragar o desfrute do caro leitor, quando estiver na sala de exibição.
A saber, em “Amarga Navidad”, depois de passar anos sem criar um roteiro novo nem rodar um filme, o aclamado cineasta Raúl Rossetti (Leonardo Sbaraglia) vale-se da vida de amigos ao seu redor como matéria prima de seu novo projeto, um filme chamado Amarga Navidad, escrito por seu alter ego, a cineasta Elsa (Bárbara Lennie).
Metalinguagem
Almodóvar aproveita a metalinguagem da trama, que aborda o processo criativo dos dois roteiristas e diretores de cinema, óbvios alter egos do cineasta, para questionar os limites éticos na criação de personagens e seus dramas. “Até que ponto é possível se inspirar naqueles nos cercam, e suas histórias, para criar as nossas próprias histórias ficcionais? Até que altura é correto agir assim”, pergunta Pedrito ao longo do filme.
Ao fazê-lo, “coloca-se em presença”, como costumam apregoar coaches aqui e alhures, e atrai para si, pessoa física, os olhares dos espectadores. Impossível dissociar o autor dos dois protagonistas e suas angústias (morais e amorais). Entretanto, talvez, esse seja o charme maior do longa-metragem.
O jogo de espelhos formado a partir desta situação propicia sequências deliciosas, notadamente ao mostrar os bastidores da concepção e escrita de roteiros cinematográficos. Por óbvio, os que trabalhamos profissionalmente com a criação artística e construção de narrativas ficcionais, tanto para obras audiovisuais como não, temos uma camada a mais de interação com a obra. No entanto, em momento algum, o autor se fecha em “hermetismos almodovarianos”, para recorrer a mais uma expressão de inspiração “caetaneana”, e a fruição do filme está ao alcance de plateias não-iniciadas.
Isso se deve, claro, ao conjunto de qualidades do longa. Além da engenhosidade da direção e roteiro assinados por Almodóvar, há que se ressaltar a excelência do elenco, que conta, além dos protagonistas, com Aitana Sánchez-Gijón como Mónica; Victoria Luengo, como Patricia; Patrick Criado, como Bonifacio; Milena Smit, como Natalia e Quim Gutiérrez como Santi. Como já dito acima, temos ainda a participação de Rossy de Palma como Gabriela, Carmen Machi como Doutora e Gloria Muñoz como mãe de Elsa.
Outros pontos altos são o trabalho do figurinista Paco Delgado e a beleza da Direção de Fotografia, assinada por Pau Esteve Birba. Só para dar um exemplo, há pelos menos dois planos rodados em Lanzarote, no arquipélago das Ilhas Canárias, de tirar o fôlego. Certamente você saberá de quais se tratam, quando assistir ao filme. A ilha vulcânica, aliás, serve de contraponto ao tumulto madrilenho, onde se passa a maior parte do filme. É interessante observar que esse contraponto não é só geográfico, mas, principalmente, dramático.
Enfim, muitos são os méritos técnicos de Amarga Navidad. Porém, sua maior virtude, arrisco, é a coragem com que Almodóvar se expõe para suas plateias (e detratores). Aos 76 anos de idade, o cineasta espanhol opta pela autocrítica corajosa em vez de recorrer a autoindulgência confortável. Não é pouco.
Talvez ele tenha alcançado o sentido do verso que encerra a canção “O Estrangeiro”, do amigo e parceiro Caetano Veloso, já citada no início deste texto. “But I’ve given up all attempts at perfection” (“Mas eu desisti de todas as tentativas de alcançar a perfeição”, em tradução livre).
serviço
Filme “Natal Amargo”
Estreia hoje (28) nos cinemas
Duração: 1h51
Classificação indicativa 16 anos


















