Exclusivo: Claudia Raia e Jarbas Homem de Mello detalham comédia “Cenas da Menopausa”, que apresentam em Fortaleza

Com humor, música e relatos que atravessam milhares de mulheres, peça “Cenas da Menopausa”, de Claudia Raia, chega ao Cineteatro São Luiz em quatro sessões após reunir mais de 200 mil espectadores entre Brasil e Portugal

Sâmya Mesquita
samyamesquita@ootimista.com.br

Durante muito tempo, a menopausa foi tratada quase como um assunto proibido; algo que acontecia “com as outras”, sempre em silêncio, discretamente. Agora imagine transformar tudo isso em uma comédia musical lotada, com plateias gargalhando, se emocionando e, às vezes, terminando a sessão em uma espécie de terapia coletiva. É exatamente isso que “Cenas da Menopausa” vem fazendo desde a estreia. Protagonizada por Claudia Raia e dirigida por Jarbas Homem de Mello, a peça desembarca em Fortaleza para apresentações nos dias 29, 30 e 31 de maio, no Cineteatro São Luiz. Após temporadas de sucesso no Brasil e em Portugal, somando mais de 200 mil espectadores, o espetáculo chega à capital cearense reafirmando uma proposta rara no teatro contemporâneo: fazer rir enquanto fala, sem filtros, sobre envelhecimento feminino, corpo, sexualidade, casamento, invisibilidade social e reinvenção.

A origem do espetáculo nasce justamente de uma experiência profundamente pessoal de Claudia Raia. Aos 50 anos, a atriz começou a perceber mudanças físicas e emocionais que inicialmente não conseguia identificar. “Quando comecei a sentir os primeiros sintomas da menopausa, aos 50 anos, foi um verdadeiro baque. Eu não entendia o que estava acontecendo comigo”, diz Claudia Raia, em entrevista exclusiva ao Tapis Rouge.

Conhecida por uma rotina intensa de dança, exercícios e trabalho, a atriz acreditou por algum tempo que os sintomas fossem apenas exaustão acumulada. “Vieram os calores, a insônia, a névoa mental, as dores articulares, uma tristeza que não combinava comigo”, relembra. A partir daí, começou também uma percepção mais ampla sobre o silêncio social em torno do tema. “A mulher é preparada para menstruar, engravidar, amamentar… mas ninguém prepara a gente para o que vem depois”. Foi justamente ao compartilhar essas experiências publicamente que a atriz percebeu o alcance coletivo da questão.

Humor como válvula

No espetáculo, essa experiência pessoal se transforma em linguagem cênica através de humor, paródias musicais e uma dramaturgia fragmentada que acompanha as chamadas “fases do luto ovariano”: choque, negação, revolta, depressão, barganha e aceitação. Claudia interpreta Teresa, uma corretora de imóveis de 49 anos que começa a enfrentar os primeiros sintomas da menopausa enquanto tenta equilibrar casamento, filhos, trabalho e a própria identidade. Ao redor dela surgem outras personagens femininas igualmente atravessadas pela maturidade: Laurinha, em negação absoluta diante do envelhecimento; Gilda, hippie sessentona abandonada pelo marido e Isabel, executiva workaholic sem tempo sequer para cuidar do próprio corpo.

Já Jarbas Homem de Mello assume múltiplos personagens masculinos — do marido de Teresa a um médico, uma freira, um vidente e até uma versão da cantora Madonna. “Quando a gente resolveu fazer esse espetáculo, logo decidimos que teria que ser uma comédia, para falar com graça e leveza de um assunto que pode ser tão pesado”, explica Jarbas Homem de Mello. Segundo ele, o impacto emocional da peça ultrapassou qualquer expectativa inicial. “No final, ainda temos um bate-papo com a plateia, que virou quase um momento de desabafo das mulheres, que percebem que não estão sozinhas”, declara.

A dimensão mais potente de “Cenas da Menopausa” está fora do palco. Claudia Raia afirma que a peça acabou se tornando uma espécie de espaço coletivo de acolhimento feminino. “Soube de mulheres que se sentiram mais acolhidas por seus parceiros, compreendidas por seus filhos, uma terapeuta que criou um grupo de apoio à menopausa após assistir à peça”, conta Claudia. Conforme a atriz, a força do espetáculo está justamente em transformar algo historicamente associado ao apagamento feminino em uma experiência de reconhecimento coletivo. “Existe um apagamento da mulher depois dos 40, um lugar de invisibilidade que a sociedade tenta impor”, reflete e acrescenta: “Entendo a menopausa como o começo de um novo ato. E no teatro o segundo ato é sempre melhor que o primeiro”.

Essa discussão ganha ainda mais força diante da forma como mulheres maduras vêm ressignificando envelhecimento, desejo, carreira e liberdade. “A mulher de 50 hoje não está nos livros. Ela é ativa, moderna, produtiva, sexual, criativa, cheia de vida”, pondera Raia, defendendo que parte do desconforto social em torno do tema nasce justamente porque a maturidade feminina contemporânea rompe modelos antigos de comportamento: “Hoje eu me sinto muito mais consciente de quem sou. Quero aprender a colocar minha energia no que realmente importa, a me respeitar mais, a me dar limites. A menopausa me obrigou a olhar para mim de uma maneira mais profunda”. Talvez por isso “Cenas da Menopausa” provoque tanta identificação: fala sobre hormônios, calores e insônia, mas também fala de mulheres existindo plenamente em um mundo que muitas vezes espera que elas desapareçam silenciosamente depois de certa idade.

serviço

Espetáculo “Cenas da Menopausa”
Nesta sexta (29), às 20h; sábado (30), às 15h e às 18h; e domingo (31), às 18h
No Cineteatro São Luiz (Rua Major Facundo, 500, Fortaleza)
Ingressos na bilheteria do cineteatro e no Sympla, com taxas
Valores entre R$ 100 (superior meia) e R$ 200 (superior inteira)
Mais: @cineteatrosaoluiz

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