Segundo longa do diretor Caco Ciocler, “Partida” abre a série de exibições da mostra Fabulações do Real, do Porto Iracema, com um debate com o cineasta hoje (8), às 18h. O Otimista bateu um papo com o ator e diretor. Confira!

Naara Vale
naaravale@ootimista.com.br

Doze pessoas, um ônibus de 1977, alguns equipamentos na mão e algumas ideias abertas aos improvisos que poderiam render de uma viagem até o Uruguai para encontrar o ex-presidente Pepe Mujica. É daí que se constrói Partida, segundo longa-metragem do ator e diretor Caco Ciocler. O documentário abre, nesta terça-feira (8), às 18h, a Mostra Fabulações no Real, do projeto Cineclube Âncora, realizado pela Escola Porto Iracema das Artes.

Nesta primeira edição, o crítico e pesquisador de cinema, Carlos Alberto Mattos, e a curadora e também pesquisadora, Kamilla Medeiros, debatem sobre o filme com o diretor. Na conversa, o cineasta vai falar sobre a construção do documentário e sua estreia no streaming.

Partida será disponibilizado gratuitamente para 100 pessoas, por 24 horas. Para assistir, basta fazer a solicitação do link por meio de um formulário disponível no site da Escola (portoiracemadasartes.org.br). A mostra prevê a exibição de oito sessões de filmes nacionais em encontros quinzenais.

Prêmios

Escolhido como o Melhor Documentário do 23º Festival de Málaga e premiado quatro vezes no 14º Fest Aruanda, Partida estreou na 43ª Mostra Internacional de Cinema, em São Paulo, e entrou para a lista dos longas mais bem avaliados pelo público. Sua estreia nos cinemas estava prevista para o primeiro semestre de 2020, mas devido à pandemia, foi lançado primeiro no streaming.

O filme se passa no período das últimas eleições presidenciais no Brasil. Em um momento de ânimos acirrados na política, a atriz Georgette Fadel decide se candidatar à Presidência da República em 2022 por uma legenda formada só por mulheres, o “Partida”. A ela é proposta uma viagem de ônibus para encontrar o ex-presidente uruguaio, Pepe Mujica, sua maior inspiração política viva. No caminho, ela encontra com Léo (Léo Steinbruch), um empresário de visão política antagônica à sua, mas que se torna seu maior companheiro de viagem.

Sem um roteiro prévio e sem textos para os atores decorarem, Caco Ciocler conta que saiu de casa com algumas cartas na manga, mas tudo o que tentou impor, não funcionou bem.  Em conversa com O Otimista, ele fala mais sobre o processo de construção do seu longa e o sucesso do filme. Confira!

O Otimista – Para a filmagem de Partida, você saiu de casa com um roteiro programado ou as coisas foram acontecendo naturalmente?

Caco Ciocler – Saí de casa com umas cinco “cartas na manga”. Situações que, intuía, poderiam funcionar: Uma cena na fronteira, provocar uma brincadeira com essa linha imaginária achei que poderia render algo interessante. A cena estilizada da luta entre a Georgette e o Léo, as sessões de análise, que colocariam o próprio filme no divã. Mas não tinha certeza de nada. A maioria das coisas que tentei “impor” fracassou. “Partida” é, fundamentalmente, um filme cuja única certeza (talvez nem ela) foi nosso ponto de partida.

O Otimista – O filme brinca muito com o limiar entre a realidade e a ficção. O público consegue perceber o que é atuação e o que é o ator se expressando de verdade?

Caco – Nunca quis fazer um reality, a gente nem tinha equipamento para isso. As câmeras não ficavam ligadas o tempo, tínhamos apenas dois microfones de lapela, precisávamos fazer claquete em toda tomada, para não enlouquecermos depois na montagem. Ou seja, absolutamente nada do que se vê no filme é exatamente “a verdade”, porque existia um intervalo bastante grande entre o nascimento espontâneo das cenas e a possibilidade técnica de seus registros. Um exemplo clássico é a cena da briga! Quando ela começou, espontaneamente, nem Georgette e nem Léo estavam microfonados. As câmeras estavam desligadas. Então, até o Vasco conseguir microfonar os dois, as meninas escolherem as lentes certas, se posicionarem, as baterias serem trocadas e a claquete feita, tivemos um intervalo de quase meia hora. Ou seja, a briga que foi filmada foi um resgate de uma briga que havia se iniciado espontaneamente meia hora antes. Por outro lado, não existia texto. Então, o que se vê no filme é um grande exercício de improvisação de dois atores. É ficção? Sim. Mas é também real, uma vez que os atores só tinham à sua disposição seus próprios repertórios pessoais. Quando eu peço para refilmar a briga porque o cartão de uma das câmeras deu problema (e que parece um mero truque ou joguete), estou falando a mais pura verdade. Nesse sentido, a segunda briga, encenada, é mais real que a primeira. Chegou uma hora que nem a gente sabia mais o que era verdade ou não.

O Otimista – Vocês filmaram no período de eleição presidencial, há quase três anos, e o filme aborda muito essa tensão política, o país dividido. Para você, o cenário hoje mudou alguma coisa daquela época ou o filme continua atual?

Caco – Durante esses anos minha percepção sobre a possibilidade do filme ter envelhecido oscilou muito. É claro que se a viagem fosse feita hoje as discussões provavelmente seriam outras, não sei. Mas, se por um lado “Partida” envelhece por retratar um momento em que ainda não tínhamos dados concretos de que dispomos hoje, ao mesmo tempo se potencializa justamente por relevar o quão pouco avançamos na tensão política e na divisão do país nestes três anos. Acho que nunca foi tão atual, nem em 2018 quando foi filmado era tão atual. A pandemia, o confinamento e a sensibilidade específica que causou, redimensionou o caráter aventureiro, esperançoso, afetivo e utópico do filme,

O Otimista – Mesmo com estreia restrita às plataformas, Partida já foi bem premiado. A que você atribui esse sucesso?

Caco – Não sei se sei dizer. Quando vi o filme projetado pela primeira vez, na Mostra de Cinema de São Paulo, levei um susto. Nosso filme mambembe ganhava na tela grande ares de linguagem arriscada, e a experiência coletiva revelou-se muito potente. As pessoas riam, debochavam, aplaudiam, choravam… Foi um assombro. Ali entendi meu filme, sua força. Ali entendi o quanto e onde havíamos acertado e quando havíamos errado. Quando se decidiu que iríamos estrear no streaming fiquei bastante preocupado que a experiência caseira e individual roubasse potência do filme. Os prêmios a que você se refere vieram todos de festivais onde o filme foi projetado em tela grande e visto coletivamente. E assim, acho, que Partida ganha sua melhor forma. Talvez a despretensão do filme ajude a criar empatia pela aventura, talvez a promessa de um embate tão presente em nosso cotidiano gere a esperança de uma catarse, talvez a premissa constantemente reafirmada de um encontro improvável com uma figura lendária segure o interesse até dos mais resistentes com o filme, talvez a honestidade de nossa proposta encante subjetivamente o espectador, talvez o afeto ainda seja a arma mais poderosa, ou talvez o final, que nem o melhor dos roteiristas escreveria melhor do que o acaso, simplesmente nos encante, como faz a magia.

 

Serviço
O quê: “Cineclube Âncora exibe e discute documentário Partida, de Caco Ciocler”

Quando: 8 de setembro (terça-feira), às 18h
Onde acessar: Facebook e canal do Youtube da Escola Porto Iracema das Artes