Especialistas apontam benefícios das wearables, tecnologias vestíveis que auxiliam nas atividades físicas

Wearables, conhecidos no Brasil como tecnologias vestíveis, já fazem parte da rotina de quem busca acompanhar saúde e desempenho, mas especialistas alertam que relógios, pulseiras, anéis e outros dispositivos não substituem a avaliação profissional

Sâmya Mesquita
samyamesquita@ootimista.com.br

O relógio no pulso já não serve apenas para marcar as horas. Para quem corre, malha ou simplesmente quer acompanhar melhor a própria rotina, ele pode registrar batimentos cardíacos, passos, sono, oxigenação e até estimativas de desempenho. Os chamados wearables, dispositivos vestíveis como smartwatches, pulseiras fitness, anéis inteligentes, óculos e roupas com sensores, transformaram o corpo em uma fonte contínua de dados. Mas, entre a praticidade de acompanhar tudo em tempo real e a tentação de acreditar cegamente nos números, existe uma questão importante: o que esses dados dizem realmente?

Para o professor da Universidade Federal do Ceará (UFC), Paulo Victor Barbosa de Sousa, a principal mudança provocada pelos dispositivos está justamente na possibilidade de transformar o acompanhamento do corpo em uma atividade contínua. “Existe uma mudança de regime aqui, que é: em vez de fazermos essa averiguação de determinados dados corpóreos em momentos pontuais, parece que aceitamos fazer uma medição desses dados o tempo todo”, explica Paulo Victor.

A confiabilidade, porém, não é igual em todos os dispositivos. Segundo ele, a qualidade das informações depende de diversos fatores: existem equipamentos mais sofisticados, voltados, por exemplo, para atletas, enquanto outros oferecem medições mais básicas para o cotidiano. “Obviamente, é sempre importante observar para que você está buscando aquele dispositivo, qual a finalidade e qual é o modelo, marca, finalidade e recursos disponíveis”, pontua o também doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas.

Vale lembrar que wearables não se limitam aos relógios. Pulseiras fitness podem acompanhar métricas de atividade física; anéis inteligentes, ou smart rings, monitoram informações relacionadas ao corpo e ao sono; e óculos inteligentes, como Ray-Ban Meta AI, incorporam recursos como câmeras e conectividade. Para Paulo Victor, a evolução desses produtos também passa por uma aproximação cada vez maior entre tecnologia e identidade: “Há um encaminhamento cada vez maior de que eles não apenas vão ter um aspecto funcional, mas também identitário. E a identidade tem tudo a ver com a ideia de fashion”.

Na prática

No exercício físico, entretanto, a tecnologia encontra um limite: a individualidade. O personal trainer Caio Oliveira conta que alguns de seus alunos utilizam Apple Watch e Galaxy Watch durante treinos de força e corrida, configurados de acordo com seus objetivos. Para ele, as informações servem como referência, mas não determinam a qualidade do treino. “Eu percebo que os dados fornecidos não têm uma precisão 100%, são apenas um parâmetro que ajuda a ter uma base em relação a números. O treino em si depende exclusivamente da especificidade e esforço de cada um, tanto mental como físico”, explica.

Caio afirma que os alunos costumam recorrer a ele para interpretar as informações apresentadas pelos aparelhos. A preocupação, portanto, não é necessariamente afastar a tecnologia, mas impedir que ela seja tomada como autoridade absoluta sobre o corpo. “O principal fator a ser respeitado precisa ser a individualidade, pois cada pessoa tem objetivo, necessidade e capacidade diferentes”, acrescenta.

Essa distinção ganha ainda mais importância para quem está começando a praticar exercícios. “Alguns equipamentos ajudam, sim, mas utilizar apenas eles sem acompanhamento de um profissional, ao invés de ajudar, pode atrapalhar, principalmente se for uma pessoa iniciante, que nunca fez um exercício físico”, esclarece.

A própria relação com os dados, segundo Paulo Victor Barbosa de Sousa, merece equilíbrio. O professor avalia que os dispositivos podem estimular mudanças positivas — como dormir mais cedo ou acompanhar a própria rotina —, mas isso não significa que o usuário deva abandonar completamente a percepção sobre o próprio corpo. “É preciso também ter um pouquinho de olhar crítico em relação a tais exames”, afirma. No fim, wearables não funcionam sozinhos: a orientação adequada é quem diz o que os dados significam.

 

 

RELACIONADOS

PUBLICIDADE

POPULARES