Destaque no Festival de Cannes 2025, o novo filme de Pedro Pinho chega aos cinemas brasileiros com 3h30 de duração e uma narrativa que cruza política, desejo e desigualdade
Gabriel Amora
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“O Riso e a Faca” foi um dos grandes destaques do Festival de Cannes 2025 e agora chega aos cinemas brasileiros cercado de expectativa. Não apenas por sua duração incomum de 3h30, mas pela forma como constrói, com delicadeza e potência, um retrato denso de temas contemporâneos. É um cinema que exige do espectador, mas que também entrega uma experiência sensorial rara, daquelas que permanecem muito além da sessão.
Dirigido pelo português Pedro Pinho, o longa acompanha um engenheiro que viaja para uma cidade da África Ocidental para trabalhar na construção de uma estrada. Nesse percurso, ele se aproxima da população local e desenvolve uma paixão platônica por Diára, interpretada por Cléo Diára, cuja presença em cena chama atenção não apenas pela beleza, mas pelo carisma e pela capacidade de estabelecer uma conexão imediata com o público. Há uma naturalidade em sua atuação que sustenta boa parte da força emocional do filme.
A partir dessa relação, o personagem se vê atravessado por tensões políticas, econômicas e sociais, tentando se aproximar de um universo que o observa com desconfiança. Sempre à beira de ser percebido como um explorador, ele encarna as contradições de um olhar estrangeiro em território marcado por desigualdades históricas. O filme, então, se constrói em camadas: ora parece improvisado, ora revela um controle rigoroso da mise-en-scène, com atuações que carregam uma energia quase mística e diálogos densos de significado.
Mesmo com a longa duração, o ritmo surpreende. “O Riso e a Faca” mantém o espectador envolvido ao equilibrar reflexão e narrativa, evitando que a repetição de temas soe cansativa. Ao contrário, ela aprofunda os conflitos, criando um retrato social complexo e politicamente sensível, sem cair no panfletarismo. Cada repetição acrescenta nuance, reforçando as ambiguidades morais e afetivas dos personagens.
Visualmente, o filme é um espetáculo à parte. As cores quentes dominam a tela, criando uma atmosfera envolvente que dialoga diretamente com o clima e com as emoções da narrativa. O figurino é cuidadosamente construído, contribuindo para a identidade dos personagens e para a imersão naquele universo. A música surge de forma tímida, quase discreta, mas sempre precisa, nunca invade, apenas acompanha, respeitando o silêncio e o tempo das cenas. Já a fotografia é deslumbrante, com enquadramentos que transformam o cotidiano em algo quase hipnótico, explorando luz e sombra com uma sensibilidade impressionante.
Mais do que uma experiência estética, é uma obra que permanece reverberando após o fim da sessão. Visto em Cannes e agora em cartaz no Brasil, o longa confirma sua força como um cinema que exige atenção, mas recompensa com intensidade. Um filme que instiga, provoca e emociona. Grande não apenas na duração, mas naquilo que propõe e entrega.


















