Na estreia com uma mostra individual, Eduarda Moiano ocupa o Banco do Nordeste Cultural Fortaleza com obras que investigam memória, pertencimento e as relações construídas na Praia de Iracema, tendo o Poço da Draga e a Ponte dos Ingleses como protagonistas silenciosos de uma cidade em constante transformação
Sâmya Mesquita
samyamesquita@ootimista.com.br
Fortaleza vai muito além dos cartões-postais: está nos encontros, nas conversas ao fim da tarde, nos caminhos percorridos todos os dias e até nos mergulhos improvisados. É essa Fortaleza menos monumental e mais vivida que surge em “Gente do Mar”, primeira exposição individual da artista visual Eduarda Moiano, em cartaz na Galeria Letícia Parente, do Banco do Nordeste Cultural Fortaleza. Reunindo 17 obras em diferentes formatos, a mostra transforma anos de observação da Praia de Iracema, do Poço da Draga e da antiga Ponte dos Ingleses em uma investigação sensível sobre memória, território e presença.
Orla que se transforma
A exposição nasceu de uma pesquisa que começou sem roteiro definido. Inicialmente interessada em observar as dinâmicas urbanas ao redor da orla, Eduarda encontrou na Ponte dos Ingleses um ponto de convergência entre pessoas, paisagem e cotidiano. “Ao acompanhar as redondezas da Ponte dos Ingleses, percebi que aquele lugar permitia uma relação muito próxima entre as pessoas e o território. Não era apenas um trajeto, mas um espaço de encontro, convivência e permanência. Foi ali que a pesquisa encontrou seu centro”, resgata Eduarda Moiano. A partir dessa percepção, a artista passou a investigar como o mar organiza afetos, produz pertencimentos e molda formas de convivência dentro da cidade. O resultado é uma exposição que se afasta de uma leitura paisagística da praia para concentrar seu olhar nas relações humanas que acontecem ao redor dela.
Em um ano marcado pelas comemorações dos 300 anos de Fortaleza, “Gente do Mar” também propõe uma reflexão sobre quais cidades são lembradas e quais permanecem à margem das narrativas oficiais. Em vez de buscar os símbolos consagrados da Capital, a artista direciona olhar para os espaços construídos pela experiência cotidiana. “A cidade que aparece em ‘Gente do Mar’ é a cidade construída por quem a habita, por quem a ocupa e transforma. A memória de uma cidade não é uma decisão, mas uma construção feita no cotidiano, na presença das pessoas”, reflete a artista, que integra o coletivo de artistas Ateliês do Pocinho. Inclusive, o próprio Poço da Draga surge, nesse contexto, como território vivo, onde passado e presente coexistem e onde o mar continua funcionando como ponto de encontro, independentemente das transformações ao redor.
Outro espaço representado é a antiga Ponte dos Ingleses, chamada pela artista de Ponte Velha. Mais do que um elemento arquitetônico, ela se torna uma espécie de organismo vivo, capaz de concentrar múltiplas temporalidades e experiências. “Os saltos, os encontros, as conversas e os momentos de permanência transformam a ponte em algo muito maior do que uma estrutura física. Ela se tornou um lugar onde memória, pertencimento e afeto se tornam visíveis através do uso cotidiano do espaço”, esclarece Eduarda. A ponte aparece, assim, como símbolo de continuidade em uma cidade que se transforma constantemente, mas que continua sendo reinventada por quem a habita.
Nanquim e as sombras
Eduarda escolheu o desenho em nanquim como linguagem principal da mostra. A decisão está diretamente ligada ao próprio método de pesquisa desenvolvido ao longo dos últimos anos. “O desenho me permite construir uma observação lenta. Minha técnica é feita risco por risco, e esse processo exige tempo, atenção e permanência diante daquilo que estou observando”, explica.
As obras utilizam a rachura — técnica gráfica que consiste no uso de linhas — e o trabalho minucioso de sombras para registrar gestos, presenças e transformações quase imperceptíveis. Mais do que representar o mar, a praia ou a cidade, os desenhos funcionam como uma forma de investigação sobre as marcas deixadas pelas pessoas nos espaços e também o resultado do caminho contrário. “As sombras aparecem na exposição como marcas de presença, evidências das transformações que os corpos produzem ao ocupar um espaço”, afirma a desenhista. Ao final, “Gente do Mar” se revela menos como uma exposição sobre a Praia de Iracema e mais como uma reflexão sobre as formas pelas quais pertencemos aos lugares e sobre como eles, silenciosamente, passam a habitar quem somos.


















