Com o mar como cenário e a Ponte dos Ingleses como passarela, Lino Villaventura encerrou o DFB Festival 2026 em um dos momentos mais simbólicos da edição. A apresentação da Cruise Collection 2027 transformou o cartão-postal de Fortaleza em palco para uma celebração das raízes, da moda autoral e dos 300 anos da capital cearense
Sâmya Mesquita
samyamesquita@ootimista.com.br
Poucas passarelas poderiam traduzir tão bem a trajetória de Lino Villaventura quanto a Ponte dos Ingleses, na Praia de Iracema. Cercado pelo mar, pelo vento e pela paisagem que acompanha Fortaleza há gerações, o estilista encerrou o DFB Festival 2026 com um desfile que transformou um dos cartões-postais mais emblemáticos da Capital em cenário para a nova Cruise Collection 2027. Em uma edição marcada pelos 300 anos da Cidade, Lino apresentou uma coleção que dialoga com natureza, memória e pertencimento, reafirmando por que continua sendo um dos nomes mais relevantes da moda brasileira.
A escolha da Ponte dos Ingleses foi muito mais do que uma decisão estética. Para o criador paraense radicado no Ceará, o local carrega dimensões afetivas que se confundem com sua própria história. “Quando o Cláudio [Silveira, idealizador do DFB] falou para fazer o desfile comemorando os 300 anos de Fortaleza e os 25 anos do DFB. A paisagem é tudo que eu vivi desde que vim morar em Fortaleza”, diz Lino Villaventura ao Tapis Rouge. Ao longo da apresentação, a coleção parecia dialogar diretamente com o cenário. A luz natural do fim da tarde, o movimento do mar e a arquitetura da ponte transformaram cada entrada em uma espécie de instalação viva, aproximando moda e cidade de forma rara. “Fortaleza faz parte das minhas loucuras de moda. Estou muito feliz com isso”, afirma o estilista.

A coleção Cruise 2027 teve direção conjunta de Inês Villaventura e do parceiro criativo Régis Vieira, com colaboração da marca de sapatos masculinos Jef. A narrativa parte da observação dos fractais, estruturas presentes na natureza que se repetem em diferentes escalas, para construir uma narrativa visual marcada por volumes orgânicos, superfícies em constante transformação e intervenções artesanais. Nervuras, plissados, sobreposições e texturas surgiram em vestidos curtos e longos, calças largas e até maiôs, que só poderiam ser apresentados ao público em um desfile sob o forte sol da orla. Jacquards, organzas, sedas metálicas e materiais trabalhados manualmente ampliaram a sensação de movimento, enquanto a cartela transitava entre preto, branco e cores iridescentes, pontuada por intervenções de laranja, prata e dourado. Mais uma vez, Lino reafirmou uma característica que acompanha sua produção há décadas: a recusa em separar moda, arte e experimentação.
Cinco décadas de ousadia

Essa liberdade criativa está diretamente ligada ao seu método de trabalho. Diferentemente da maioria dos estilistas, Lino continua dispensando processos excessivamente rígidos e prefere construir suas peças diretamente sobre o tecido. “Hoje gosto muito de trabalhar com moulage [modelagem tridimensional] porque você se surpreende com o resultado. Algumas roupas precisam ser desenhadas antes, mas eu gosto muito da loucura de o tecido me levar. De ele me direcionar para formas novas, para novas maneiras de construir uma roupa”, reflete. Segundo ele, o processo criativo nasce justamente da imprevisibilidade. “Sempre é uma grande surpresa trabalhar diretamente na montagem do tecido, porque às vezes sai uma coisa completamente diferente do que você tinha imaginado”, sugere. Essa relação intuitiva com a matéria-prima aparece claramente na coleção apresentada no DFB, onde cada peça parece resultado de um diálogo permanente entre intenção e acaso.

O desfile também reforçou uma relação histórica entre Villaventura e o Ceará. Embora tenha nascido em Belém do Pará, foi em Fortaleza que o estilista construiu as bases da marca que hoje ocupa um lugar de destaque na moda nacional. A conexão aparece tanto na escolha dos materiais quanto na valorização do trabalho artesanal e na defesa da moda autoral produzida fora dos grandes centros tradicionais do País. “Eu nunca deixei o Ceará. Vou para São Paulo, para a Europa, para vários lugares, mas volto para cá. Nunca deixei Fortaleza”, esclarece. Se em São Paulo o estilista olhou para a dimensão histórica de sua obra, na Ponte dos Ingleses ele voltou o olhar para as raízes que sustentam essa trajetória.
Ao encerrar a programação de desfiles do festival diante do mar de Fortaleza, Lino Villaventura não exibiu apenas uma coleção: apresentou uma declaração de pertencimento, revelando um criador ainda movido pela curiosidade e pela capacidade de se surpreender com o próprio processo criativo. “É a primeira vez que faço um desfile numa ponte sobre o mar. Já desfilei em jardins, em espaços históricos, mas dessa maneira é diferente”, completa. Ao final da apresentação, a expectativa se transformou em realidade. A ponte virou passarela, a cidade virou cenário e a moda encontrou, mais uma vez, uma forma de contar histórias sobre identidade, memória e futuro.















