Entre lembranças familiares, referências do sertão e impulsos de tinta sobre a tela, o artista plástico cearense transforma experiências íntimas em narrativas visuais capazes de despertar afetos coletivos. Em entrevista ao O Otimista, o pintor celebra nova exposição, “Topografias da Memória”, e reflete sobre o poder afetivo da arte feita com verdade
Sâmya Mesquita
samyamesquita@ootimista.com.br
Manchas de tinta e memórias de infância fazem da pintura de Tito Flávio um território de permanência. O artista cearense, com alma de piauiense, transforma lembranças familiares, referências do sertão e fragmentos afetivos em obras que parecem atravessar gerações. Na exposição “Topografias da Memória”, em cartaz no Ônix Wine Bar, o público não apenas observa quadros, mas revisita a própria história.
Influenciado por nomes como Claude Monet (1840-1926), Van Gogh (1853-1890), William Turner (1775-1851) e José Pancetti (1902-1958), Tito construiu uma produção que oscila entre o figurativo e o abstrato, sempre guiado pela emoção. Mais do que representar pessoas ou lugares, as telas tentam capturar estados afetivos. “Eu pinto com o braço, andando, voltando, quase em transe”, resume o artista, que hoje vê suas memórias servirem de espelho para as lembranças de quem visita a exposição. Em entrevista exclusiva, ele reflete sobre emoção, pertencimento e o poder de resgate da arte.
O Otimista — Em “Topografias da Memória”, você transforma lembranças muito íntimas em imagens que parecem despertar memórias coletivas. Em que momento percebeu que suas recordações pessoais também poderiam tocar experiências universais?
Tito Flávio — Foi conversando com as pessoas sobre a exposição. Quando eu falava, por exemplo, do Clint Eastwood [“Três Homens em Conflito”, “Os Imperdoáveis”], alguém dizia: “Nossa, lembro desse filme”. Aí começava a lembrar onde assistiu, com quem estava. Quando viam o Papa retratado, lembravam da visita do Papa João Paulo II ao Brasil, das próprias famílias, das experiências daquela época. Foi quando percebi que as minhas memórias acabam despertando memórias dos outros também. E isso continua acontecendo. As pessoas olham para as obras e acabam acessando a própria história.

O Otimista — Você já disse que a emoção funciona como motor da pintura, como um estado físico, corporal. Existe diferença entre pintar tecnicamente bem e pintar de forma emocionalmente verdadeira?
Tito — Existe. Às vezes, as duas coisas andam juntas, mas nem sempre. Quanto mais aprendo técnica, menos penso nela. A emoção vai tomando conta. Sinto que vou para outro lugar. Às vezes, percebo a técnica depois que terminei. Mas o que realmente me move é esse estado emocional.
O Otimista — Em seu discurso na inauguração da exposição, você disse que fica mais fascinado pela mancha, pela textura e pelo gesto do que pela figura em si. O que existe nessa “imperfeição” da tinta que te interessa?
Tito — Gosto muito de chegar perto da pintura e observar aquelas manchas que, vistas de perto, parecem abstratas, mas que, de longe, formam uma figura. Isso me fascina desde sempre. Às vezes, uma mancha no rosto, no pescoço ou no fundo da tela me pega emocionalmente de um jeito que eu nem consigo explicar. Vai para um lugar muito subconsciente. É isso que me atrai na pintura. Parece um vício mesmo, uma necessidade de olhar e sentir aquilo.
O Otimista — Existe alguma obra da exposição que tenha sido particularmente difícil de concluir por carregar uma memória muito emocional ou pessoal?
Tito — O Clint mexeu muito comigo porque, na verdade, estava pensando no meu pai enquanto pintava. Ele faleceu há mais de 20 anos, e aquela imagem me levou diretamente para as lembranças dele. Foi muito emocionante. Os vaqueiros também mexem comigo porque me levam para a infância, para as histórias da minha família, para o interior. Tecnicamente, o Patativa foi um dos mais difíceis, porque eu queria que as pessoas reconhecessem a figura sem simplesmente copiar uma fotografia antiga.
O Otimista — Suas pinturas trazem muitos elementos ligados ao Nordeste profundo: vaqueiros, sertão, praias, religiosidade, memória familiar. Como enxerga a presença dessas referências dentro da arte produzida hoje em Fortaleza?
Tito — Tenho muito orgulho dessas raízes. Meu pai nasceu numa casa rural que aparece na exposição, e eu gosto muito dessas histórias, da cultura regional, da música, da comida, do vaqueiro. Minha arte é emocional e esses sentimentos passam por esse regionalismo. Ao mesmo tempo, vivo um dilema porque não me considero totalmente um artista contemporâneo no sentido mais conceitual da arte contemporânea de hoje. Mas acho que minha pintura tem elementos contemporâneos justamente por contar essas histórias pessoais através da pintura.
O Otimista — Você começou a pintar há relativamente pouco tempo, depois de assistir a uma apresentação de pintura mediúnica de Florencio Anton. O que mudou na sua vida desde que a pintura entrou nela?
Tito — Mudou muita coisa. A pintura preencheu espaços enormes na minha vida. Antes eu fazia esporte, pensava em culinária, música… sempre procurava alguma coisa. Quando a pintura entrou, substituiu tudo. Passei a estudar pintura, História da Arte, visitar exposições. Foi quase uma transformação espiritual também. Fui assistir àquela apresentação mediúnica sem interesse nenhum, mas quando vi o artista pintando, aquilo mexeu profundamente comigo. Saí de lá querendo pintar imediatamente. Foi uma sensação quase desesperada. E desde então eu nunca mais parei.

O Otimista — Seu trabalho fala muito sobre permanência e passagem do tempo. Você sente que pintar é uma forma de preservar pessoas e momentos?
Tito — Sim, completamente. Não estou preservando exatamente a pessoa ou o objeto, mas o sentimento daquele momento. É uma tentativa de permanência. Quando pinto a casa do meu pai, por exemplo, estou preservando a memória afetiva daquele lugar. E o mais bonito é perceber que isso acaba despertando lembranças nos outros também. As pessoas chegam aqui e lembram da casa dos avós, da infância, dos próprios pais.
O Otimista — Por estar em um estabelecimento comercial, e não em um museu, sua exposição acaba despertando interesse de frequentadores e até de estudantes — inclusive com uma turma da Unifor visitando a mostra. Como percebe o diálogo entre a arte e os espaços que permitem essa experiência artística?
Tito — Acho extremamente importante. Espaços como este do Ônix Wine Bar abrem caminhos muito interessantes para a arte. O Adalberto Benevides, proprietário daqui, foi muito visionário ao unir vinho, gastronomia e exposição artística. Não são apenas quadros decorando o ambiente: existe uma curadoria, feita pela Andréa Dall’Olio, uma experiência expositiva de fato. Também recebi todo o apoio da professora Ana Valeska Maia Magalhães, que escreveu para o catálogo da exposição. Enfim, isso tudo aproxima as pessoas da arte de uma forma muito natural. E, para mim, como artista, é maravilhoso porque minhas obras estão em constante circulação, sendo vistas, sentidas.
O Otimista — Depois de “Topografias da Memória”, qual sensação ficou: encerramento de um ciclo ou começo de uma investigação maior sobre suas lembranças?
Tito — Acho que ainda não encerrei esse ciclo completamente. Alguns quadros foram vendidos e eu continuo produzindo novas obras para ocupar esses espaços na exposição. Mas, ao mesmo tempo, já começo a pensar em outras investigações, principalmente em paisagens mais abstratas e em experimentar mais a pintura a óleo nesses trabalhos. Não quero abandonar as memórias porque elas são o centro da minha pintura. Só sinto que talvez esteja abrindo novas possibilidades dentro desse mesmo universo emocional.


















