Ivanildo Nunes brilha com desfile de modelos exclusivos na Feira da Fiec, evidenciando setores industriais do Ceará

Ivanildo Nunes abriu a Feira da Indústria da Fiec com 36 looks inspirados em setores produtivos do Estado evidenciando o elo entre moda e indústria. Em entrevista ao Tapis Rouge, o estilista cearense de sucesso internacional aponta como transformou referências industriais em narrativa estética

Sâmya Mesquita
samyamesquita@ootimista.com.br

Engrenagens, fios, tecidos e até referências à panificação ganharam forma de vestidos na passarela. Foi assim que a moda abriu, nesta segunda-feira (9), a programação da Feira da Indústria Fiec, direto do Centro de Eventos do Ceará, em Fortaleza. Responsável pelo desfile de abertura, o estilista cearense Ivanildo Nunes apresentou uma coleção com 36 looks inspirados em diferentes setores da indústria do Estado, propondo uma leitura estética do universo produtivo e ampliando o diálogo entre criação artística e economia.

A presença da moda integra o conceito do evento, que, neste ano, adota o tema “A indústria conectada ao seu dia a dia”. A ideia é mostrar como os diferentes segmentos industriais fazem parte do cotidiano da sociedade: do alimento à construção civil, da energia ao vestuário. Ao todo, a feira reúne cerca de 20 desfiles em parceria com 39 sindicatos industriais e deve receber aproximadamente 80 mil visitantes durante os dois dias de programação – agenda segue nesta terça-feira (10). A proposta inclui ainda uma sala imersiva inédita, pensada para transformar os desfiles em experiências sensoriais com efeitos de luz, som e recursos audiovisuais.

Diretor artístico do projeto, Cláudio de Santana explica que o objetivo é aproximar o público de uma linguagem de moda mais experimental e sensorial. “A ideia era ser imersiva não só no visual, mas também na luz e no som. Eu queria transformar o desfile em uma experiência audiovisual sônica, uma imersão dentro da moda”, diz Cláudio de Santana. Segundo ele, o projeto foi inspirado em formatos internacionais de passarela, buscando ativar diferentes sentidos do público. “É uma experimentação que tenta envolver os cinco sentidos e apresentar a moda como experiência”, ressalta.

Consagração em casa
A coleção de Ivanildo Nunes foi desenhada para dialogar diretamente com as seis ilhas temáticas da feira, cada uma relacionada a um segmento industrial. Os looks traduzem visualmente setores como vestuário, metalurgia, panificação e indústria têxtil, transformando materiais – como algodão, fios de palha e até macarrão – e processos produtivos em narrativa estética. As peças foram confeccionadas ao longo de dois meses sob encomenda dos sindicatos patronais vinculados à Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec).

Acostumado a trabalhar com liberdade criativa em suas coleções autorais, o estilista conta que o processo começou com um certo bloqueio criativo. Com o avanço do trabalho, porém, percebeu que precisava reinterpretar o projeto a partir da própria linguagem estética. Foi a partir dessa virada que a coleção ganhou sua identidade definitiva, misturando referências industriais com elementos poéticos característicos do trabalho do estilista. “Precisava trazer a indústria do Ivanildo Nunes, misturada com flores. É uma indústria bela, é uma indústria que transforma a vida”, reflete. O resultado foi uma coleção que reinterpretou o ambiente produtivo como narrativa estética e atual.

Além da estética, o desfile também reflete uma dimensão central do trabalho do estilista: a valorização das pessoas envolvidas na produção da moda. Trazendo toda a equipe de artesãs à passarela, Ivanildo destaca que a criação de cada peça depende de um trabalho coletivo que muitas vezes permanece invisível para o público: “Eu crio, mas não faço a moda sozinho. A moda só existe porque existem mãos para construir, como as 22 mulheres que estavam trabalhando ali”.

Nos últimos anos, o estilista passou a apresentar coleções na Semana de Moda de Paris e a buscar novos mercados para a moda autoral brasileira. “Não me vejo como alguém que chegou lá. Cada passo é um degrau, e sigo trabalhando com o mesmo propósito”, explica. Esse propósito, segundo ele, está diretamente ligado ao impacto social da moda: “Minha missão é transformar vidas através da moda e dar voz às pessoas que constroem essa moda”.

A Feira da Indústria também conta com apresentações assinadas pelos estilistas Kallil Nepomuceno, Vitor Cunha, Bruno Olly, Lindebergue e Ana Beatriz, da marca Açude. O evento inclui, ainda, intervenções artísticas da artista plástica e designer Socorro Silveira, com foco em arte sustentável, ampliando a leitura visual do espaço.

Para Paulo Rabelo, presidente do Sindicato das Indústrias de Confecção de Roupas de Fortaleza (Sindroupas), a presença da moda no evento ajuda a revelar a complexidade da cadeia produtiva do setor: “A moda vai mostrar para além da roupa. Vai mostrar tecnologia e como ela nasce, desde o plantio do algodão até a costura final”.

A passarela da Feira da Indústria Fiec reforça que moda, design e tecnologia podem caminhar juntos. Mais do que exibir roupas de estilistas conceituados, o evento mostra como criatividade e produção industrial se entrelaçam. E que, no Ceará, a indústria também é expressão cultural.

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