Cantor português António Zambujo apresenta no Teatro RioMar Fortaleza a turnê do álbum “Oração ao Tempo”, projeto que aprofunda sua relação com a música brasileira e reafirma identidade entre o fado, a MPB e a contemplação
Sâmya Mesquita
samyamesquita@ootimista.com.br
Há artistas que parecem cantar como quem conversa baixinho ao ouvido do público. No caso de António Zambujo, essa sensação atravessa oceanos, sotaques e gerações. Quando sobe ao palco, a impressão é de que o tempo desacelera um pouco: talvez por isso faça tanto sentido que seu novo disco se chame Oração ao Tempo. O cantor português desembarca no Teatro RioMar Fortaleza nesta quarta-feira (13), em um espetáculo que mistura canções inéditas, clássicos da carreira e reflexões sobre maturidade, memória e permanência.
O 11º álbum de estúdio do artista lusitano traz como destaque a faixa-título, gravada em dueto com Caetano Veloso, autor da canção. “Cantar com o Caetano é um marco para qualquer artista”, afirma António. Aliás, a relação do artista com a música brasileira atravessa praticamente toda sua trajetória artística. Ao longo das últimas duas décadas, Zambujo construiu uma sonoridade que passeia entre o fado, a música popular portuguesa, o jazz e referências diretas da MPB, tornando-se um dos nomes portugueses mais queridos pelo público brasileiro contemporâneo. Em 2016, lançou Até Pensei Que Fosse Minha, disco inteiramente dedicado à obra de Chico Buarque, indicado ao Grammy Latino. Para ele, porém, essa aproximação com o Brasil nunca foi racional. “Eu não sei o que o Brasil tem. São coisas que a gente sente”, explica. “Me identifico com a forma de cantar, a forma como as palavras são ditas, com as melodias. Me identifico com tudo. E isso ajuda a moldar a música que eu faço”.
Tradição e releitura
Nascido em Beja, no sul de Portugal, António Zambujo iniciou trajetória musical ainda criança, estudando clarinete e absorvendo influências do cante alentejano. Mais tarde, integrou o lendário Clube do Fado e participou do musical Amália, consolidando uma carreira marcada justamente pela delicadeza e pela recusa em tratar tradição e modernidade como opostos. Ainda assim, ele rejeita discursos grandiosos sobre renovação estética. “O meu objetivo é fazer a música que está na minha cabeça”, define. “Tendo por base as músicas populares, tradicionais, de Portugal, do Brasil, de alguns países africanos e do jazz. Tudo isso se transforma e dá a música que eu faço, mas sem intenção nenhuma de alterar o que quer que seja”.
O novo álbum também marca um momento de maior consciência sobre o próprio tempo — tema que aparece não apenas no título do disco, mas no modo como o cantor fala sobre envelhecimento e permanência. Em setembro do ano passado, Zambujo completou 50 anos, experiência que inevitavelmente trouxe novas reflexões sobre finitude e trajetória artística. “É um privilégio poder cantar e tocar, poder fazer aquilo que eu mais gosto”, reflete. “Claro que, à medida que vamos ficando mais próximos do fim, esses pensamentos aparecem, mas isso não altera em nada como penso a música”.
Fortaleza, melhor show
Apesar da carreira internacional consolidada, o artista mantém uma relação afetiva muito específica com Fortaleza. Ele relembra com entusiasmo a primeira vez que se apresentou na capital cearense, durante uma turnê ao lado de Yamandu Costa, no ano passado. “Foi, para nós, o melhor show da turnê. O teatro era ótimo, o público fantástico, foi muito inspirador”, recorda. Agora, em uma nova passagem pela cidade, a expectativa é reviver essa conexão: “Espero que a reação do público seja igualmente boa e que o show seja bonito”.
serviço
Show “Oração ao Tempo”
Nesta quarta-feira (13), às 21h30
No Teatro RioMar Fortaleza (Rua Des. Lauro Nogueira, 1500 – Papicu)
Ingressos no uhuu.com.br. Valores entre R$ 100 e R$ (plateia alta) e R$ 135 (plateia baixa A)
Mais: @teatroriomarfortaleza


















