Único brasileiro na exposição polonesa “Delirious Machines”, José Guedes celebra intercâmbio artístico

Entre referências à história da arte e reflexões sobre o capitalismo, José Guedes leva a produção artística cearense para o circuito de arte contemporânea da Polônia. Único brasileiro presente na exposição “Delirious Machines – The First Opera for an Animal Song”, que estreou, na Galeria Hol, o artista apresenta a instalação “CASULOS”, obra que revisita o imaginário de Piet Mondrian para discutir valor, consumo e reconstrução estética

Onivaldo Neto
onivaldo@ootimista.com.br

O circuito internacional de arte contemporânea volta seus olhos para a Polônia, onde estreia a exposição internacional “DELIRIOUS MACHINES – The First Opera for an Animal Song”. Sediada na prestigiada Galeria Hol, da Academia de Belas Artes de Łódź, a mostra reúne 11 artistas contemporâneos latino-americanos, entre eles o artista plástico cearense José Guedes, que se destaca como o único brasileiro selecionado para integrar o circuito.

Com curadoria assinada por Hernán Pacurucu e organização de Tomasz Matuszak, a exposição propõe um debate denso e urgente, refletindo sobre o capitalismo contemporâneo sob a premissa de um sistema que ultrapassou a mera produção de bens de consumo para se transformar em um poderoso moldador de mentes, capturador da nossa atenção e reconfigurador dos nossos modos de pensar.

A obra

Para responder e dialogar com essa premissa provocadora, José Guedes concebeu a instalação de piso intitulada “CASULOS”. A obra é meticulosamente composta por 100 objetos dispostos no chão que fazem uma alusão direta e magnética a uma obra icônica de Piet Mondrian. A escolha do pintor modernista não é por acaso, uma vez que a história da arte é um norte constante na produção do cearense. No trabalho apresentado em Łódź, fotografias da obra de Mondrian são amassadas e inseridas no interior de tocas de banho. O resultado é uma dinâmica em que a mesma imagem matriz passa a ser vista de 100 maneiras completamente diferentes, adaptando-se a qualquer espaço, independentemente de sua escala.

Em consonância com as discussões sobre o capitalismo na mostra, o trabalho de Guedes propõe uma ironia elegante. Segundo o artista, a potência da obra está menos na materialidade e mais na ideia que ela carrega. “O estímulo visual de uma obra icônica, de valor estratosférico, dá o seu recado (um novo recado) materializado em um suporte efêmero, descartável. Embora essas obras tenham um valor comercial razoável, esse valor reside na ideia, no conceito, e não na matéria”, comenta.

Reconhecimento além das fronteiras

Carregar a bandeira da arte contemporânea brasileira e cearense no Exterior é uma responsabilidade que acompanha a maturidade de sua carreira. Guedes mantém uma relação estreita com o Equador, país de forte intercâmbio na mostra, e aponta que seu nome já ecoa de forma sólida no cenário global há bastante tempo. “Muito da minha produção, nos últimos anos, é mais conhecida [por isso reconhecida] no Exterior do que no Brasil. Tenho trabalho em museus como o IVAM, de Valência, na Espanha, Daros Collection, em Zurique, na Suíça, Mobil MADI Museum, em Budapeste, na Hungria, Museu de Arte Latino Americana de Long Beach, nos EUA, Museu de Arte Contemporânea de Arequipa, no Peru, entre outros. Com mais de 50 anos e tantas exposições mundo afora, dá para pensar que fiz a escolha certa e que estou no caminho certo”, afirma.

Para o público brasileiro e cearense que deseja conferir de perto as discussões conceituais propostas por “CASULOS”, a expectativa é otimista e já tem endereço certo para o futuro. O artista revela os planos de exibição em solo nacional atrelados a novos projetos institucionais: Com a criação do Instituto José Guedes, dentro da Casa D’Alva, essa instalação e várias outras obras terão seu tempo de exposição aqui, atencipa.

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