Endocrinologista Rejane Belchior alerta sobre alterações hormonais e doenças metabólicas associadas à dificuldade de perda de peso

Na era das canetas emagrecedoras, especialista Rejane Belchior alerta que dificuldade persistente para perder peso pode ir além da alimentação e do sedentarismo, envolvendo alterações hormonais, estresse e doenças metabólicas silenciosas

Samya Mesquita
samyamesquita@ootimista.com.br

Tem gente que troca refrigerante por água, começa a caminhar, corta açúcar, organiza a rotina e, ainda assim, a balança simplesmente não se move. Em tempos de redes sociais cheias de “antes e depois”, desafios fitness e fórmulas milagrosas de emagrecimento, a sensação de que “o corpo não responde” costuma vir acompanhada de culpa, frustração e ansiedade. Em alguns casos, porém, o problema pode ir além da disciplina alimentar ou da prática de exercícios. Alterações hormonais, estresse crônico, distúrbios metabólicos e até noites mal dormidas podem interferir diretamente na forma como o organismo armazena gordura, regula fome e responde ao emagrecimento.

Para a endocrinologista e nutróloga Rejane Belchior, “nem tudo é culpa dos hormônios, mas também não dá para ignorar que eles participam de toda a orquestra do metabolismo”. Em entrevista ao Tapis Rouge, a médica explica que existe uma diferença importante entre um metabolismo naturalmente mais lento – algo esperado com o envelhecimento ou ligado a questões de genética -, e alterações hormonais que realmente dificultam a perda de peso. “Quando há alteração de humor, queda de cabelo, mudança na libido, pele seca, muito calor ou muito frio, existe uma chance muito grande de haver uma desregulação hormonal”, explica a especialista.

Além disso, ela destaca um quadro que vem aparecendo com frequência crescente nos consultórios: o lipedema, doença crônica caracterizada pelo acúmulo desproporcional de gordura, especialmente nas pernas e braços.

Mulheres, atenção!

Nas mulheres, as oscilações hormonais ao longo da vida tornam essa relação ainda mais sensível. Gravidez, pós-parto, menopausa e uso de anticoncepcionais podem alterar a fome, a composição corporal e a distribuição de gordura. “As mulheres passam por fases da vida de grande mudança corporal e hormonal e precisam compreender o próprio corpo”, elucida Rejane. Pacientes com lipedema, por exemplo, costumam perceber grandes variações de peso durante os períodos de mudança hormonal, enquanto outras podem apresentar alterações mais discretas. Ainda assim, a menopausa permanece como um dos períodos de maior impacto metabólico. “É sabido que a menopausa é responsável tanto pelo ganho de peso quanto pelo aumento de colesterol e de gordura visceral, que aumenta o risco cardiovascular”.

Dormir bem é essencial

Outro fator cada vez mais associado às dificuldades de emagrecimento é o sono. A privação de descanso interfere diretamente em hormônios ligados à fome e à saciedade, aumentando a tendência ao consumo alimentar excessivo. “Pessoas que dormem mal ou trabalham em empregos noturnos possuem maior chance de ter obesidade”, esclarece. Segundo a médica, basta uma única noite ruim de sono para que o corpo responda com aumento da fome no dia seguinte. Nesse contexto, dispositivos que monitoram sono, frequência cardíaca e estresse ganharam popularidade nos últimos anos. “Esses devices ajudam a mostrar como está o sono e o nível de estresse, orientando a dormir melhor e descansar”, porém, nenhum dispositivo substitui mudanças concretas na rotina, como redução do estresse, atividade física regular e melhora da qualidade do sono.

Canetas emagrecedoras

Ao mesmo tempo, o debate sobre medicamentos para emagrecimento se intensificou significativamente nos últimos anos, especialmente com a popularização das chamadas “canetas emagrecedoras”. Para doutora Rejane, os medicamentos representam um avanço importante no tratamento da obesidade, mas exigem acompanhamento médico rigoroso. “As canetas emagrecedoras têm sido um marco histórico no tratamento contra a obesidade mundial. Mas, sem prescrição médica e sem avaliação clínica anterior, algumas pessoas podem chegar aos hospitais com complicações”, alerta. Segundo a endocrinologista, os medicamentos costumam ser indicados principalmente para pessoas com obesidade, sobrepeso associado a doenças metabólicas ou elevada taxa de gordura corporal.

Entretanto, mesmo com o crescimento das discussões sobre saúde hormonal, a endocrinologista afirma que muitos diagnósticos ainda chegam tardiamente. Distúrbios como resistência à insulina e a Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina (SOMP) – anteriormente conhecida como Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP) – seguem exigindo investigação cuidadosa. “Hoje as pessoas chegam mais informadas aos consultórios por causa da difusão de conhecimento pela mídia”, esclarece. No fim das contas, a maior armadilha está na busca por respostas simplificadas, porque o emagrecimento não depende apenas de força de vontade, mas também de entender como funciona cada organismo.

RELACIONADOS

PUBLICIDADE

POPULARES