Aos 88 anos, Reginaldo Faria celebra vitalidade e detalha filme “Perto do Sol É Mais Claro”, que estreia nos cinemas

“Perto do Sol É Mais Claro”, drama protagonizado por Reginaldo Faria e dirigido por Régis Faria, estreia nos cinemas após sessão especial em Fortaleza e propõe um olhar sensível sobre envelhecimento, afeto e reinvenção

Sâmya Mesquita
samyamesquita@ootimista.com.br

Sem perseguições, explosões ou cortes frenéticos. Em “Perto do Sol É Mais Claro”, uma chaleira apitando pode dizer mais do que um grande discurso — e talvez seja justamente esse o convite mais radical do filme: desacelerar. Depois de passar por Fortaleza em uma sessão especial no Cineteatro São Luiz, o longa dirigido por Régis Faria chega oficialmente aos cinemas brasileiros propondo uma experiência rara em tempos de hiper estímulo: observar a permanência da vida.

Protagonizado por Reginaldo Faria, o filme acompanha Rêgi, um engenheiro carioca de 85 anos que enfrenta o luto enquanto insiste em continuar criando, escrevendo, amando e existindo. “A gente sempre quer fazer alguma coisa artisticamente. Agora, a gente tem que encontrar esse algo. Isso é o difícil, mas esse desejo não morre. É a chama que está dentro de cada um de nós”, diz o protagonista, em entrevista exclusiva ao Tapis Rouge.

Aos 88 anos e com uma das trajetórias mais extensas do audiovisual brasileiro, Reginaldo afirma que o interesse artístico permanece diretamente ligado à inquietação. Segundo ele, a vitalidade do personagem nasce justamente da recusa em aceitar o lugar de apagamento social frequentemente destinado às pessoas mais velhas. “Existe uma pressão, claro que existe”, afirma o ator sobre a expectativa social de que idosos “desacelerem”. “As pessoas ficam presas a fatores culturais muito antigos. Aquela ideia de que chegou aos 50 anos, tem que ‘pendurar as chuteiras’, sentar de pijama vendo televisão. Não é isso. A vida oferece coisas tão belas e tão lindas e se você reage contra isso, está sendo um imbecil. Eu quero existir”, argumenta.

Essa discussão aparece diretamente no longa, especialmente na forma como o personagem vive um novo afeto com Vanessa (Vanessa Gerbelli). Fora das telas, o próprio ator chama atenção ao viver um relacionamento com Joana Werneck, 49 anos mais jovem. Para ele, o desconforto social em torno dessas relações revela muito mais sobre o olhar externo do que sobre os envolvidos. “O que marca são os preconceitos, as questões externas. Porque o lado cultural permanece dentro das pessoas”, reflete. “Tem gente que diz sentir nojo. Então fique com o seu nojo, eu fico com a relação”.

Arte e memória
O filme nasceu justamente de um momento de vulnerabilidade pessoal vivido durante a pandemia. Após uma separação, Reginaldo passou um período morando na casa do filho, Régis, que observava de perto questões como solidão, etarismo e invisibilidade social. A partir dessa convivência, surgiu a ideia de transformar a rotina em matéria cinematográfica. “Régis percebeu em mim essa inquietação, essa necessidade de continuar vivo, de continuar construindo. E usou isso como metáfora do personagem”, relembra o ator.

Outro elemento que reforça a identidade do longa é a fotografia em preto e branco, escolha estética feita por Régis Faria para traduzir o caráter analógico do protagonista. Essa desaceleração também aparece na própria linguagem do filme, com planos longos, pausas contemplativas e um ritmo deliberadamente mais lento. “Perto do Sol É Mais Claro” se distancia da lógica acelerada predominante no cinema contemporâneo. E, para Reginaldo, essa escolha pode inicialmente causar estranhamento em parte do público, mas funciona justamente como uma forma de aproximação emocional. “O filme leva o espectador a mergulhar nas próprias memórias”, aponta. “Ele pode achar o filme lento no começo. Mas, se tiver paciência para entender aquela linguagem, vai acabar sendo engolfado por ele”.

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Filme “Perto do Sol É Mais Claro”
Estreia nesta quinta-feira (14) nos cinemas
Drama
Duração: 1h45
Não recomendado para menores de 14 anos

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