Globoplay e HBO Max planejam lançar duas novelas ao ano, estando as primeiras em estágio de produção bastante avançado. Nomes como Camila Pitanga, Antônio Fagundes e Regina Casé já estão reservados  

Danielber Noronha 

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Muito se falou que a capilaridade maior de serviços de streaming iria aumentar a oferta de séries e filmes, deixando as novelas em segundo plano. Embora, em certa medida, isso tenha ocorrido, o tempo passou e essas mesmas plataformas já trabalham com vistas a lucrar em cima deste produto, considerado um dos símbolos da cultura brasileira. Quem deu a largada foi o Globoplay – braço no streaming da TV Globo -, aproveitando a expertise do canal na fabricação de telenovelas para lançar uma continuação do sucesso Verdades Secretas. Embora tenha sido mais repercutida pelas polêmicas de bastidores do que pela qualidade do conteúdo, o título encerrou 2021 como a novela mais vista da história da plataforma, ultrapassando a marca de 50 milhões de horas consumidas.

Diante de tamanho apelo, as concorrentes acenderam um alerta e começaram a tocar projetos semelhantes ou aceleraram negociações já em andamento. Um exemplo é Segundas Intenções, novela em desenvolvimento pela HBO Max, que deve iniciar gravações no segundo semestre, com previsão para estrear no catálogo no início do ano seguinte. A exemplo de como ocorre nos folhetins tradicionais, denominados como obras abertas, a trama estreará com uma margem de capítulos gravados, mas passível de mudanças. O autor é Raphael Montes, responsável pela adaptação de Bom Dia, Verônica para a Netflix.

Essas novelas chegam em um novo momento de produção e de consumo, onde o público busca conteúdos mais enxutos e modernos, e os produtores querem rostos para trabalhos por obra, beneficiando essas plataformas que estão se consolidando. Segundas Intenções, por exemplo, terá no elenco nomes de peso como Camila Pitanga e Antônio Fagundes, fator capaz de facilitar a identificação com o público mais acostumado com a TV aberta. Alice Wegmann, Daniel de Oliveira e Reynaldo Gianecchini também são dados como certos no time de estrelas. A vingança deve ser um dos fios condutores da narrativa.

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Produções menores
Como a ideia é unir os noveleiros e amantes de séries, o folhetim terá algo em torno de 50 capítulos. Verdades Secretas II teve 51, disponibilizados em blocos semanais de dez capítulos. Agora, uma versão censurada, com menos cenas picantes, está prevista para ir ao ar na TV aberta no final de agosto próximo. “Acredito que a proposta seja de fazer novelas mais curtas, com menos de 100 capítulos para os streamings e menos de 160 para a televisão. Mais do que isso, já fica cansativo. As tramas mais curtas já são uma realidade”, avalia Nilson Xavier, crítico de televisão.

Disposta a abocanhar de vez parte desse mercado, a HBO Max tem Silvio de Abreu como responsável por orquestrar esse setor, que já trabalha em outras frentes, como um remake de Dona Beija, novela que foi sucesso na Rede Manchete, em 1986. Grazi Massafera é um dos nomes cotados para o papel central.

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Nicolas Prattes será o protagonista de “Todas as Flores”, do Globoplay (Foto: Divulgação)

A busca por justiça também será o norte da história em que João Emanuel Carneiro trabalha para estrear exclusivamente no Globoplay. Antes nomeada de Olho por Olho, o folhetim chegará ao público como Todas as Flores e deve ser lançado em duas partes, sendo a primeira no último trimestre de 2022 e a segunda no segundo trimestre de 2023, totalizando 85 capítulos. O protagonista será vivido por Nicolas Prattes, que encarna um garçom condenado por um crime não cometido em troca de uma grande quantia em dinheiro, mas que acabará sendo enganado. Letícia Colin será uma cega que sofre maus tratos nas mãos da mãe, interpretada por Regina Casé.

E não para por aí! Uma terceira novela original Globoplay já está em negociações. Trata-se de Guerreiros do Sol, prevista para estrear em 2024, com autoria de George Moura e Sergio Goldenberg. Trama deve fazer uma releitura da história de Lampião e Maria Bonita.

Nilson Xavier, também autor do Almanaque da Telenovela Brasileira, diz estar ansioso diante de todas essas movimentações e afirma que todo mundo tem a ganhar com mais títulos em produção. “É mais trabalho para os profissionais envolvidos e mais opções para o público. Sou, sempre, a favor de haver muitas novelas e séries no ar. As novelas bíblicas da Record, as infantis do SBT, as da Globo e também nos streamings”, completa. Estão ansiosos para esses novos títulos?

PONTO DE VISTA

“A novela morreu. Viva a novela!”.

Émerson Maranhão
emerson@ootimista.com.br

É notícia das mais alvissareiras que a telenovela brasileira, sabidamente uma das melhores do mundo, esteja para desembarcar no streaming. São muitas as razões para celebrar esta migração de plataforma, chamemos assim, e as possibilidades que ela oferece.
A primeira delas é que, longe do compromisso de ter tramas com 120, 130 infindáveis capítulos, como nos canais abertos, o streaming permitirá um sonho dos autores: tramas compactas, com 40, até 85 episódios. A condensação do enredo evitará as terríveis “barrigas” na narrativa (quando nada de relevante para o desenvolvimento da história acontece) e, consequentemente, permitirá tramas mais ágeis, com muitas viradas e um ritmo mais atrativo.

Por óbvio, outra questão relevante são os temas dos folhetins e de qual maneira serão abordados. O streaming tanto permite maior sofisticação nessa abordagem, longe das estratégias muitas vezes rasas de seus competidores abertos, quanto a exploração de assuntos mais contundentes, cada dia mais difíceis de ganharem espaço nas TVs.
Reiterativa por definição desde seu nascimento, as novelas enfrentarão o desafio de como se adaptar à nova casa. Filha legítima da radionovela, a telenovela cresceu atendendo a um público que nem sempre podia se dedicar exclusivamente a assisti-la em determinado horário. Daí a necessidade de praticamente narrar muitas das ações (muitos só conseguiam ouvir as novelas enquanto faziam outras coisas) e, clichê dos clichês, a obrigatoriedade de verbalizar o nome do personagem quando alguém abre uma porta ou encontra o par na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê.

“Juliana está deitada no sofá lendo um livro. A campainha do apartamento toca. Ela se levanta, vai até a porta e abre. Do outro lado está Cristiano, seu grande amor.
JULIANA: Cristiano?!
CRISTIANO: Juliana!!
A música tema do casal sobe e os dois se abraçam e se beijam”.

Se conseguir evitar um mico como esse, de um roteiro imaginário, mas presente em 10 entre 10 novelas da TV aberta, já será um grande feito para o streaming.