Apesar de reunir grandes realizadores do terror, “Maldição da Múmia” tem resultado abaixo do esperado nas telonas

Produzido por James Wan e dirigido por Lee Cronin, cineasta que ganhou projeção recente com “Evil Dead Rise”, “Maldição da Múmia” chega cercado de expectativas dentro do terror contemporâneo. A parceria sugeria um novo olhar sobre um dos monstros mais tradicionais do cinema, mas o resultado se afasta dessa promessa ao entregar uma obra que se perde na construção estética e narrativa

Gabriel Amora
amoragabriel@ootimista.com.br

É sempre frustrante quando a expectativa se volta contra o espectador. Digo isso porque Lee Cronin, ainda em uma fase inicial de carreira, vinha chamando atenção após “Evil Dead Rise” (2023), filme que não apenas revitalizou uma franquia clássica do terror como também o colocou como um nome promissor dentro do gênero. Essa percepção foi reforçada pela aproximação com James Wan, responsável por títulos como “Invocação do Mal” (2013) e “Jogos Mortais” (2005), o que naturalmente criou a impressão de que seu próximo projeto seguiria em uma curva ascendente. Nesse contexto, Maldição da Múmia surgia cercado de expectativas altas, especialmente por se propor a revisitar um dos monstros mais tradicionais do cinema. O longa, protagonizado por Jack Reynor, está em cartaz nos cinemas brasileiros.

O problema é que essa promessa não se sustenta na execução. Desde os primeiros minutos, o filme revela dificuldades em construir atmosfera, apostando em uma escuridão constante que não gera tensão, apenas desconforto visual. A fotografia, em vez de sugerir mistério, acaba por achatar a experiência, enquanto a trilha sonora insiste em interferir de maneira repetitiva, como se o susto dependesse exclusivamente do volume. Essa escolha revela uma confiança excessiva em recursos externos ao enquadramento, quando o terror mais eficaz costuma nascer justamente do silêncio, da espera e da construção cuidadosa do olhar. À medida que o longa avança, essa fragilidade estética se soma a um ritmo irregular, que dilui qualquer possibilidade de envolvimento.

Essa dificuldade de construção se torna ainda mais evidente na própria narrativa. A história parte do desaparecimento de uma criança que retorna oito anos depois, um ponto de partida que poderia sustentar um drama psicológico forte, mas que é rapidamente esvaziado. O intervalo temporal, que deveria carregar peso emocional, praticamente não reverbera na dinâmica familiar. Pais e filha surgem sem densidade dramática, como se o trauma não tivesse marcas reais, o que impede qualquer aproximação do espectador. No terror, essa ausência de vínculo é especialmente prejudicial, já que o medo depende diretamente da empatia e da identificação com quem está em cena.

Essa distância emocional é ampliada por um roteiro excessivamente explicativo, que insiste em verbalizar aquilo que já foi mostrado, como se o público precisasse ser constantemente conduzido. Personagens comentam acontecimentos óbvios, descrevem descobertas em voz alta e repetem informações, criando um efeito de redundância que enfraquece ainda mais o ritmo. Em vez de confiar na força da imagem e na inteligência da narrativa, o filme opta por um caminho didático, que inflaciona a história e reduz sua capacidade de gerar mistério ou ambiguidade.

Quando se observa o conjunto, essa falta de sutileza também se reflete na forma como o filme lida com seus elementos simbólicos. A presença de mitologias africanas associadas ao imaginário da múmia poderia abrir espaço para uma discussão mais complexa sobre medo cultural e desconhecido, mas o resultado é uma abordagem superficial, que não constrói camadas e tampouco desenvolve suas motivações com clareza. O que poderia ser tensão simbólica se reduz a um antagonismo pouco elaborado, que não encontra profundidade nem equilíbrio.

No fim, “Maldição da Múmia” se apresenta como uma obra irregular, que oscila entre tentativas de impacto visual e um vazio narrativo persistente. Mesmo quando aposta em momentos de violência gráfica, o efeito é passageiro, incapaz de sustentar permanência ou incômodo duradouro. O terror, quando funciona, permanece justamente por aquilo que sugere e não por aquilo que escancara. Aqui, nem mesmo essa sugestão se consolida. O que resta é um filme que se dissolve rapidamente após a sessão, como se nunca tivesse encontrado forma definitiva.

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Filme “Maldição da Múmia”
Em cartaz nos cinemas
Suspense, Terror
Duração: 2h14
Classificação Indicativa 18 anos

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