A perda do apetite sexual foi um dos impactos trazidos pela pandemia. O fator psicológico tem afetado diretamente a sexualidade dos casais e levado mais pessoas a procurarem os consultórios de psicologia. Veja dicas para tentar contornar o problema

Naara Vale
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Entre os inúmeros prejuízos trazidos pela pandemia de covid-19, um deles foi o impacto nas relações familiares e entre os casais. Junto com o luto, a angústia, as preocupações e o estresse, veio também a maximização de alguns conflitos nas relações amorosas que, consequentemente, têm afetado a sexualidade dos casais.

Sexóloga e terapeuta de casais, a psicóloga Camille Borges relata um aumento de pessoas que procuraram seu consultório após o início da pandemia com demandas relacionadas à sexualidade, sejam à queda da libido ou aumento dela, ou mesmo com alguns tipos de compulsão em pornografia. A faixa etária de atendimentos também se ampliou. Se antes da pandemia ela atendia, em sua maioria, pessoas de 27 a 60 anos, agora, jovens de vinte e poucos também têm aparecido com demandas relacionadas à sexualidade.

“A pandemia fez muita gente refletir sobre algumas questões e isso inclui a questão da vida sexual também. Muitas pessoas começaram a se questionar como querem viver essa sexualidade. Esse questionamento pode ter surgido de uma forma mais forte ao longo desse ano e mais pessoas estão procurando os consultórios de psicologia”, conta Camille Borges.

Libido X cabeça

Apesar de ser necessária uma avaliação mais contextualizada da vida amorosa do casal, que deve levar em consideração inclusive fatores fisiológicos, a perda do interesse sexual em meio à pandemia é comum e está diretamente ligada ao estado emocional da pessoa. “O fator psicológico é extremamente importante na nossa sexualidade, tanto no homem quanto na mulher. Se você está triste, deprimido, preocupado e angustiado – como ficamos nesta pandemia – isso faz com que as pessoas não se sintam tão à vontade, tão espontâneas para ter uma relação sexual legal, para brincar, para ter criatividade”, explica a sexóloga e terapeuta de casais Zelnice Bruno.

A libido, explica Camille Borges, envolve uma série de vivências na vida a dois, como a admiração com essa parceria, o diálogo e se é um relacionamento “saudável”. “O momento do sexo não é uma hora em que a gente entra no quarto e aperta um botão “agora vou ter uma relação sexual e esquecer todos os problemas lá fora”. O diálogo desse casal e como ele está alinhado em diversas outras áreas da vida vai contar nesse momento”, complementa.

Sexualidade X genitalidade

A perda ou diminuição do interesse sexual pode levar a confundir com a falta de amor. A terapeuta Zelnice Bruno alerta, no entanto, que é preciso aprender a diferenciar sexualidade de genitalidade. “Genitalidade está relacionada ao ato sexual, ao coito. A sexualidade é todo um envolvimento que existe entre as pessoas: todo um poder de sedução, de encantamento, de amorosidade”, explica. “Quando consegue reunir amor e sexo, é maravilhoso. Mas a gente tem que entender que, em alguns momentos da nossa vida, a atração sexual é diferente da atração amorosa. A atração sexual tem o desejo de uma relação sexual, já a atração amorosa envolve a sexualidade e as relações afetivas”, pontua.

O que fazer para melhorar?

Diálogo, criatividade, fantasia e espontaneidade são algumas das recomendações de Zelnice Bruno para que a sexualidade do casal volte a estar em sintonia. “Sair da rotina é muito importante, ouvir uma música, ver um filme, brincar com alguns objetos eróticos. Para quem não pode fazer isso porque existem questões de privacidade, culturais ou financeiras, há, sim, formas de lidar com a sexualidade de uma forma mais lúdica. O sexo é alegre, então, a gente tem que trabalhar a nossa alegria que está muito difícil nessa pandemia, é claro, mas a gente pode criar situações em que a parceria esteja mais animada conosco. E quando a nossa autoestima está boa, melhora muito também em relação à atração sexual. Isso é algo que a gente precisa trabalhar sempre”, conclui a sexóloga.