Estreando nesta quinta (16), documentário “A Voz de Deus” se debruça sobre a trajetória de dois jovens pregadores

“A Voz de Deus”, documentário de Miguel Antunes Ramos, se debruça sobre a trajetória de dois jovens pregadores, em momentos distintos de suas vidas

Emanuel Freitas
Especial para O Otimista

Nesta quinta-feira (16) o documentário “A Voz de Deus”, de Miguel Antunes Ramos, entra em circuito comercial no Brasil. O filme aborda o universo das “crianças pregadoras”, ou dos “pastores mirins”, como dizem alguns. Filmado ao longo de cinco anos, o documentário adota uma “abordagem observacional que privilegia a presença e a escuta”, de acordo com o material de divulgação, “evitando sensacionalismos e propondo um olhar rigoroso e sensível sobre personagens que costumam ser reduzidos a estereótipos”.

De fato, o longa auxilia na compreensão de um dos fenômenos mais caros à vida social no Brasil contemporâneo: a transição religiosa. De acordo com o último Censo do IGBE, passamos de 21% para 27% no número de brasileiros que se dizem “evangélicos”.

Mas o documentário não é, estritamente, “sobre evangélicos”, ou sobre sua expansão na sociedade brasileira como fenômeno; digamos que é sobre um fenômeno dentro deste fenômeno. Assim, acompanhamos a trajetória de duas crianças, uma delas já adulto quando do lançamento do filme, que se projetaram no meio evangélico como pregadoras.
Carisma? Manipulação? Adultização? Não é este o caminho adotado pelo diretor. Em sua obra, o que vemos é o cotidiano de dois desses pastores, Daniel Pentecoste e João Vitor Ota, acompanhado de perto ao longo de meia década, o que lhe permite, e também ao espectador, visualizar uma espécie de passagem de geração entre Daniel e João.

Frustração e espetacularização
De Daniel podemos ver o sonho não realizado do pai de tê-lo como um grande líder; a frustração com os inúmeros DVDs não vendidos e acumulados; as diferenças políticas com o pai e, ao que parece, com a própria instituição em que congregava; o sonho por um Brasil mais justo e uma igreja que responda às “crises” que assolam a sociedade; as dificuldades de empregabilidade para um jovem recém-chegado ao mercado; uma igreja que o põe, em certa medida, de lado ao ver seu carisma (a infância pregadora) ir esmaecendo-se ao longo do tempo.

Por outro lado, acompanhar João é pôr-se diante de outro cenário: uma igreja, e uma sociedade, midiatizada e espetacularizada, que exige da jovem criança não apenas exercer o carisma pregador, mas que tenha um cabelo bem escovado, que pratique musculação, fale inglês, seja influencer de igrejas e de lojas de roupas e de sapatos, que realize incontáveis viagens; que dê mostras, enfim, como sugere a cena final (que aqui não se adiantará para não trazer spoilers ao leitor).

Analógico e digital
Como o diretor lembrou, em entrevista exclusiva ao Tapis Rouge, estamos diante de dois momentos e dois sujeitos distintos. Daniel emerge no meio analógico, ao passo que João é (mais) um fenômeno das redes, o que talvez lhe confira uma perenidade maior.
Em diversos momentos do documentário, somos postos diante de alguns fenômenos: o crescimento evangélico nas periferias urbanas; a (necessária?) midiatização da mensagem pregada nos púlpitos, transformando-a em produto a ser comercializado e exportado; as complexas relações familiares; a politização das igrejas, com a consequente polarização; as estratégias de sobrevivência das famílias, mesclando a crença no poder do alto e o enfrentar cotidiano das dificuldades.

Em ”A Voz de Deus” o que se tem é um dos retratos possíveis do Brasil, que já foi a Terra de Santa Cruz, mas que continua a ser terra de tantos outros meninos que, por carisma ou outra excepcionalidade permitem que suas famílias anseiem por transformações que lhes legue um pouco de dignidade, neste ou no outro mundo.

serviço

Documentário “A Voz de Deus”
Estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (16)
Duração: 1h24

Emanuel Freitas é Coordenador do Doutorado em Políticas Públicas (PPGPP) da Uece

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