Vale a pena ver de novo? Novelas têm se mostrado datadas e pouco adequadas para o novo contexto social 

Neste mês, todos os horários de novelas da TV Globo voltam a ser reprises, sem previsão de estreia para produções inéditas. Apesar do apelo da audiência por clássicos, as exibições têm se mostrado datadas e pouco adequadas para o novo contexto social

Danielber Noronha
danielber@ootimista.com.br

Sentar-se em frente à televisão para assistir a novelas pode transmitir a ideia de que os espectadores pararam no tempo. Isto não vem do fato de quase todos os folhetins exibidos tratarem-se de reprises. Na verdade, a sensação ganha fôlego a partir de tramas e personagens que parecem não ser mais de bom tom aos olhos da audiência de hoje. Em meados de junho, se encerra Salve-se Quem Puder, única trama inédita em exibição na TV Globo, e dona dos maiores índices de audiência, à frente de Império, reprisada às 21 horas. Os números reforçam tal descontentamento por histórias já vistas e, acima de tudo, recentes na memória dos mais aficionados.

Pouco carisma

Se na exibição original, em 2014, Império foi aclamada e ganhou o Emmy Internacional, hoje se desenrola apática e sem fôlego. Pilares centrais não convencem da mesma maneira. José Alfredo (Alexandre Nero), apesar de bem construído, é vestido com camadas de arrogância e prepotência excessivas, que tiram o fascínio do personagem. Outro ponto alto da primeira vez, o romance dele com Maria Isis (Marina Ruy Barbosa) se apresenta problemático em vários aspectos, a começar pelo apelido my sweet child (minha doce criança) atribuído à jovem. A estranheza é endossada pelo fato de Isis passar o dia em um apartamento, esperando o comendador chegar. Tais situações foram suficientes para gerar críticas nas redes sociais quanto à romantização da relação com uma adolescente de 18 anos. As vilãs Cora (Drica Moraes) e Maria Marta (Lília Cabral) fazem artimanhas dignas de novelas infantis do SBT, enquanto o jornalista Téo Pereira (Paulo Betti) serve apenas para reforçar estereótipos recaídos sobre a comunidade LGBTQIA+. Em contrapartida Cristina (Leandra Leal) e Vicente (Rafael Cardoso) permanecem como um casal de boa química.

Ti-ti-ti (2011), reexibida no Vale a Pena Ver de Novo, também tem percalços, como quando traz comentários considerados transfóbicos. Contudo, por ter sido lançada no início da última década, quando discussões acerca do tema não eram tão latentes, e ainda conseguir entregar uma das melhores construções de personagens gays da teledramaturgia brasileira, com personagem Julinho (André Arteche) e sua busca por desmistificar o preconceito de Bruna (Giulia Gam), a novela consegue divertir o público e mater tom leve. O romance de Marcela (Isis Valverde) e Edgar (Caio Castro) segue como um dos maiores acertos da autora Maria Adelaide Amaral. Destaque também para Mayana Neiva (Desirée) e as figuras centrais: Ariclenes (Murilo Benício) e Jacques Leclair (Alexandre Borges).

Exceção às 18 horas 

A Vida da Gente (2011), por outro lado, passa longe de qualquer temor por cancelamento nos tribunais das redes sociais. A novela de Lícia Manzo parece não ter envelhecido um dia e os dramas dos personagens seguem sensíveis e capazes de promover fortes reflexões. Antes definida por ter ritmo lento e prezar por diálogos longos, a edição especial tem feito bem à trama e trouxe maior dinamismo, sem deixar de tocar nas feridas criadas pelo tempo, colocado aqui como engrenagem para mover a história. Além disso, a reexibição  reacendeu também as torcidas calorosas pelas irmãs Ana (Fernanda Vasconcellos) e Manuela (Marjorie Estiano). Quanto aos destaques, fica difícil elencar diante de um elenco tão afinado, mas cabe reconhecimentos especiais para Ana Beatriz Nogueira, Gisele Fróes, Nicette Bruno, Malu Galli e Maria Eduarda de Carvalho, além do duo protagonista.

Porém, o aviso colocado na exibição de Da Cor do Pecado (2004), pelo canal VIVA, de que a novela reproduz comportamentos da época, e a escolha de produções recentes para reprises durante a pandemia, como Haja Coração (2016), A Força do Querer (2017) e Pega Pega (2017), como possível substituta para Salve-se Quem Puder, endossam uma preocupação da Rede Globo com a mensagem que as novelas poderão passar aos novos públicos, além dos bons números de audiência. O momento serve de alerta para autores buscarem construir tramas menos estereotipadas e cada vez mais contemporâneas, tratando com responsabilidade as nuances de um Brasil rico de múltiplas vivências.

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