Avós, filhos, netas e mais de 200 bonecos dividem o palco em “Histórias de Teatro e Circo – Três Gerações de Arte Brincante”, espetáculo que marca os quase 50 anos da Carroça de Mamulengos. A montagem será apresentada no Theatro José de Alencar, neste fim de semana, celebrando a trajetória da família Gomide-França e sua contribuição à cultura popular brasileira
Sâmya Mesquita
samyamesquita@ootimista.com.br
Tem espetáculo que começa antes mesmo da cortina se abrir. No caso da Carroça de Mamulengos, ele começa na própria vida. Avós, mães, pais, filhos, netas e mais de 200 bonecos dividem a cena em “Histórias de Teatro e Circo – Três Gerações de Arte Brincante”, montagem que chega ao Theatro José de Alencar Fortaleza neste sábado (7) e domingo (8), às 18h. Há quase 50 anos, a família Gomide-França transforma itinerância, convivência e cultura popular em linguagem artística — e retorna à capital cearense com um espetáculo que é, ao mesmo tempo, memória e reinvenção.
Criada em 1977 por Carlos Gomide, o Babau, e fortalecida a partir de 1982 com a entrada de Schirley P. França, a companhia cresceu junto com a família. Hoje, reúne três gerações, 23 artistas em cena e um acervo vivo com cerca de 200 bonecos. A direção e o roteiro do espetáculo são assinados por Maria Gomide, primeira filha do casal fundador, que define a trajetória do grupo como uma “linha contínua”. “A Carroça de Mamulengos é uma linha contínua. Não que tudo tenha sido premeditado. Muito pelo contrário. Os acontecimentos foram moldando o percurso da companhia. Mas, desde a origem, a nossa arte é uma arte pela vivência, onde vida, arte, casa e palco nem se separam tanto assim”, diz.
Essa fusão entre cotidiano e criação moldou também a própria pedagogia da companhia. Maria conta que nunca ficou fora de cena: “Quando eu tinha um ano e pouquinho, meu pai fez para mim uma boneca, uma burrinha, e já me colocou em cena. A partir da observação vivencial de que eu estava sempre em cena, a família foi construindo uma linguagem artística que possibilitasse a presença dos filhos. A gente aprende uns com os outros, aprende pela experiência. Essa é a pedagogia da Escola Carroça de Mamulengos”. O resultado é um espetáculo que se atualiza a cada novo integrante, sem perder a essência construída ao longo de décadas.
Arte integrada
Em “Histórias de Teatro e Circo”, teatro popular, mamulengo, música ao vivo, circo e palhaçaria não aparecem como linguagens isoladas, mas como partes de um mesmo corpo cultural. Para Maria, a própria ideia de “mistura” é uma leitura contemporânea. “Quando dizem que a gente mistura teatro popular, mamulengo, música, circo e palhaçaria, eu penso: isso é a cultura popular brasileira. Quem está separando isso? A vida não é quadrada, é redonda. Está tudo misturado. A cultura popular é o espaço da constante reinvenção”, reflete a atriz. Segundo ela, é justamente essa convivência orgânica entre as linguagens que mantém a arte da companhia viva, atual e tradicional ao mesmo tempo.
A itinerância foi outro elemento decisivo na construção estética e identitária do grupo. Desde o início, a Carroça percorre o Brasil em busca de encontros, trocas e aprendizados. “A gente faz dos encontros a possibilidade de crescimento, de intercâmbio. Conhecemos um Brasil profundo — seus sotaques, cheiros, comidas, alegrias e dores — e daí vêm nossos bonecos”, revela a diretora do espetáculo. No repertório da companhia, há bonecos crianças e velhos, figuras místicas, gigantes, dragão, mula sem cabeça, famílias de onça, jaraguá, tatu, tamanduá, burrinha, cavalo e boi: “A Carroça reflete na sua arte a beleza que os olhos tocam”.
Fortaleza e memórias
O retorno ao Theatro José de Alencar carrega ainda um significado político e simbólico. A companhia teve forte atuação em Fortaleza nas décadas de 1980 e 1990, participando de movimentos culturais, formações de base e iniciativas como a Barraca da União, considerada a primeira escola de circo do Ceará. Maria guarda memórias da Praça José de Alencar como espaço de aprendizado e sustento. “Eu apresentava na praça para rodar o chapéu e ganhar o pão do dia. Olhava para o teatro e sonhava em estar ali, mas sabia da distância que separava aquela arte da praça da arte do palco”, relembra.
Décadas depois, ocupar o palco histórico do teatro é como uma conquista coletiva: “Não é mais importante do que apresentar na praça, mas é o tempo percorrido para construir o direito de levar a cultura popular para dentro desse espaço. É fruto de políticas públicas e do reconhecimento do valor da arte que vem do povo”. O momento ainda simboliza o início de um processo de ampliação de plateia e valorização da cultura popular brasileira. Em cena, tradição e contemporaneidade caminham lado a lado, reafirmando a Carroça de Mamulengos como uma companhia de arte viva.
serviço
Espetáculo “Histórias de Teatro e Circo”
No sábado (7) e domingo (8) às 18h
Theatro José de Alencar (Rua Liberato Barroso, 525, Centro)
Ingressos na bilheteria do TJA e Sympla, com taxas
Valores: R$ 30 (promocional) e R$ 60 (inteira)
Mais: @carrocademamulengos no Instagram


















