O Museu da Imagem e do Som do Ceará convida o público fortalezense a atravessar dezenas de milhares de anos da história das Américas com a exposição imersiva “Ypykuéra: Povos Originários e a Megafauna”, que transforma pesquisas científicas em imagens, sons e sensações para reposicionar os povos originários no centro de uma narrativa que antecede a colonização
Sâmya Mesquita
samyamesquita@ootimista.com.br
Entrar na sala imersiva do Museu da Imagem e do Som do Ceará (MIS CE) e, em poucos minutos, atravessar dezenas de milhares de anos da história do continente americano: é essa a proposta de “Ypykuéra: Povos Originários e a Megafauna”, nova obra audiovisual em cartaz no equipamento cultural. Com entrada gratuita e classificação livre, a experiência transforma dados científicos em sensações, imagens e sons, conduzindo o visitante por um percurso que começa em 1500 da Era Comum e avança até cerca de 27 mil anos atrás, quando povos originários coexistiam com animais hoje extintos, como preguiças-gigantes, tigres-dentes-de-sabre e gliptodontes. A mostra está em exibição regular na sala imersiva localizada no andar 2 do prédio anexo.
Desenvolvida pelo Laboratório de Visualizações Interativas e Simulações (LABVIS), da Universidade Federal do Ceará (UFC), em parceria com a Lunart Estúdio de Animação, a obra aposta no conceito de “história profunda” para ampliar a compreensão do passado humano nas Américas. Coordenador do LABVIS, Adriano Oliveira explica que a escolha foi transformar um conceito acadêmico em vivência sensorial. “A gente parte da ideia de que o público não precisa entender todos os dados técnicos para compreender a profundidade do que está sendo contado. Então, em vez de começar com definições de conceitos acadêmicos, começamos pela experiência: o tempo, a paisagem, o corpo humano em relação ao ambiente”, diz Adriano Oliveira. Segundo o professor, o rigor científico está presente nas pesquisas arqueológicas, nas datações e nas reconstruções ambientais, mas aparece mediado por imagens, sons e sensações.
Tempo como fluxo

Ao longo do percurso, o visitante é levado a perceber o tempo não como uma sucessão de datas, mas como um fluxo contínuo, em que transformações ambientais, deslocamentos humanos e extinções se entrelaçam. A proposta, segundo o coordenador, foi evitar uma narrativa excessivamente didática. “Uma exposição de 15 minutos jamais vai esgotar o tema. O que queremos é, através da imersão, despertar a curiosidade, a vontade de saber mais. O maior desafio foi justamente não transformar isso numa obra puramente didática”, explica Oliveira. Para manter o envolvimento emocional, a equipe trabalhou com imagens-síntese, grandes movimentos históricos e uma trilha sonora que reforça a sensação de atravessamento do tempo.
Esse cuidado narrativo faz com que o público não apenas “assista” à passagem de milhares de anos, mas sinta que está imerso em camadas temporais. “O público não está assistindo a 27 mil anos passarem: ele está atravessando camadas de tempo. E isso cria uma sensação de continuidade, de fluxo, que mantém o engajamento até o fim”, aponta o pesquisador. A tecnologia imersiva, aliada à linguagem poética, funciona como um convite à contemplação e à reflexão, aproximando públicos diversos de um conhecimento que, muitas vezes, fica restrito ao meio acadêmico.
Povos originários
Um dos eixos centrais de Ypykuéra é reposicionar os povos originários como protagonistas de uma história muito anterior à colonização europeia. Ao fazer isso, a obra propõe uma revisão do olhar sobre o território e a identidade brasileira. “Quando a gente entende que os povos originários não são coadjuvantes da história oficial do Brasil, mas protagonistas de uma trajetória milenar, isso muda tudo. Muda a forma como enxergamos o território, a cultura, a própria ideia de Brasil”, lembra Adriano Oliveira.
Além de divulgar o conhecimento científico, a obra também presta homenagem à arqueóloga Niède Guidon (1933-2025), referência internacional nos estudos sobre o povoamento das Américas e figura central na preservação do Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí. “Esperamos que o público saia com mais respeito e responsabilidade em relação aos povos indígenas hoje. Ypykuéra não fala só do passado: ele convida a repensar o presente e o futuro a partir dessa história profunda”, ressalta.
serviço
Obra imersiva “Ypykuéra: Povos Originários e a Megafauna”
No Museu da Imagem e do Som do Ceará (MIS CE) – Sala Imersiva. Av. Barão de Studart, 410 – Anexo, andar 2
Entrada gratuita. Classificação indicativa livre
Mais: @mis_ceara



















