Pedaço de Mim, trama nacional da Netflix, que une as linguagens de série e novela, ocupa o topo do ranking dos mais vistos no Brasil e em vários países. Sucesso do melodrama chega em momento de crise na teledramaturgia da Globo
Émerson Maranhão
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A teledramaturgia brasileira tem um novo fenômeno. Daqueles que viram pauta na mesa de bar, geram discussões em grupos de WhatsApp, provocam reações apaixonadas nos espectadores. Além de uma audiência expressiva (e bote expressiva nisso!), esse fenômeno gera um dos efeitos mais cobiçados atualmente, o tal do “engajamento”. Refiro-me a Pedaço de Mim, trama original da Netflix, que estreou no começo do mês e já ocupa o primeiro lugar no top 10 global de séries de língua não inglesa do canal de streaming.
Protagonizado por Juliana Paes e Vladimir Brichta, escrito por Angela Chaves e com direção geral de Maurício Farias, todos egressos da TV Globo, o melodrama conseguiu feito raro. É um bem-sucedido híbrido de série com novela, formato ambicionado há anos pela emissora dos Marinho, sem sucesso.
A premissa de Pedaço de Mim é melodramática em estado bruto. Liana (Juliana Paes) finalmente consegue realizar o sonho da gravidez e está esperando gêmeos. Mas descobre que tem a condição rara de superfecundação heteroparental, ou seja, os gêmeos têm pais diferentes. Um é filho de seu marido Tomás (Vladmir Brichta); o outro, de Oscar (Felipe Abib), que abusou sexualmente dela.
Segundo a autora, a ideia surgiu a partir de uma notícia de jornal, que relata episódio similar ocorrido nos Estados Unidos, em 2009. Esse ponto de partida lembra muito o modus operandi de Gloria Perez, afeita a basear muitas de suas tramas em inovações científicas e tecnológicas, ainda pouco conhecidas.
Foi assim com alguns de seus maiores sucessos, como O Clone (2001), em que abordava a clonagem humana, e em Explode Coração (1995), em que apresentava a então desconhecida rede mundial de computadores, vulgo internet. Não à toa, Perez foi uma das primeiras personalidades da área a parabenizar publicamente Angela e Juliana, em uma rede social. “Uma história de peso, bem interpretada e bem dirigida… A mágica se fez. Parabéns, Angela Chaves e Juliana Paes”.
Crise no horário nobre
O grande sucesso de Pedaço de Mim chega num momento especialmente delicado para a teledramaturgia da TV Globo, antes a dona do pedaço (como o perdão do trocadilho). Com três tramas inéditas no ar, nenhuma corresponde às expectativas da emissora. Começando pelo remake de Renascer, exibida em horário nobre.
Com uma trama arrastada (para não dizer modorrenta) e erros graves no casting, a novela definitivamente não caiu nas graças do público. E nem o núcleo de Buba e suas amigas transexuais, potencialmente polêmico, consegue gerar repercussão.
A crise se agrava quando olhamos para a frente. Qual a expectativa criada para Mania de Você, sucessora de Renascer na faixa das 21 horas? Nenhuma. Até parece que a nova trama de João Emanuel Carneiro, responsável pelo fenômeno Avenida Brasil (2012), nem está para estrear em menos de dois meses. Não se ouve falar do novo folhetim eletrônico.
Ao que parece, o interesse de espectadores e internautas está focado no remake de Vale Tudo (1988), um dos maiores clássicos da nossa teledramaturgia, que marcará o aniversário de 60 anos da emissora e tem previsão de estreia para maço de 2025.
Voltando à grade atual de novelas globais, na faixa das 19h Família é Tudo, de Daniel Ortiz, amarga índices pífios de audiência (apesar de apresentar números melhores que sua antecessora, Fuzuê). E No Rancho Fundo, de Mário Teixeira, com seu sertão entre o idílico e o estereotipado, está conseguindo recuperar a audiência da faixa das 18h, depois do fracasso retumbante do remake de Elas por Elas. Mas está a léguas de causar o tão desejado “engajamento”.
“O segredo do meu sucesso”
O enorme sucesso de Pedaço de Mim (Netflix, 2024), que na semana passada alcançou o Top 1 mundial, consolidando-se como a atual série de língua não inglesa mais vista da plataforma, levanta uma questão óbvia. Tão óbvia quanto irrespondível. Afinal, o que a ‘série/novela’ tem de tão excepcional que lhe garanta tanto êxito?
Ainda que não seja possível indicar a “Fórmula do Sucesso” – se o fosse, seria muito fácil replicá-lo, por óbvio –, arrisco apontar algumas qualidades fundamentais da obra. A primeira delas é aproveitar do melhor dos dois formatos. Do folhetim clássico, a autora Angela Chaves trouxe a história mirabolante e improvável, mas ainda assim com alguma possibilidade da verossimilhança; uma heroína sofredora e injustiçada, ao lado de quem somos compulsoriamente colocados; a vilanice clara e palpável, mesmo que surpreendente, em algumas situações.
Das séries, o número compacto de personagens, o que permite que o espectador se situe rapidamente na história; a agilidade da narrativa, como se cada episódio desenrolasse uma trama em si; e ainda assim, os ganchos dramáticos fortíssimos “chamando” para o episódio seguinte, o que faz que a ideia de maratonar a série inteira seja uma tentação frequente. Sem falar na grande quantidade de plot twists (reviravoltas na trama) que a história proporciona.
É claro que contribui para o produto final a qualidade da interpretação do elenco. Além dos protagonistas já citados, merecem registro Paloma Duarte (Silvia), João Vitti, que volta às telas como Vicente, com uma barriguinha de meia-idade super crível (e charmosa), e os novatos José Beltrão e Pedro Manoel Nabuco.
Também se faz necessário ressaltar a qualidade da direção e a agilidade da trama. Todo episódio tem uma razão de ser, em todo episódio a ação avança, não há espaço para as famosas e detestadas “barrigas”, situações em novelas onde nada acontece – curiosamente, cada vez mais frequentes na teledramaturgia global, na atualidade.
“Ah, mas Pedaço de Mim tem apenas 17 capítulos, e não dez vez mais, como costumam ter as novelas”, alguém há de argumentar. Sim, com certeza. É mais fácil contar uma histórias sem “arrodeios” em uma menor quantidade capítulos. Por isso mesmo ela é uma série e não uma novela. Apesar de misturar características das duas. Mas tem muita gente tentando fazer isso há muito tempo. E não consegue. A Netflix Brasil conseguiu. Palmas para ela.


















