Com cinco anos de funcionamento recém-completados, o Museu da Fotografia Fortaleza busca expandir atuação a novos territórios, com vistas à população menos assistida culturalmente. Silvio Frota, diretor do equipamento, celebra conquistas, pontua desafios e projeta novas metas para os próximos anos

Danielber Noronha

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Em cinco anos, muita história foi escrita pelo Museu da Fotografia Fortaleza (MFF) e também pelos quase 70 mil visitantes que passaram pelo equipamento ao longo deste tempo. Porém, o espaço na Varjota, em Fortaleza, ficou pequeno para as pretensões da casa, que quer sair de Fortaleza e conquistar novos admiradores também no Interior do estado. Projeto já iniciado, mas interrompido pela pandemia, é uma das principais bandeiras que Silvio Frota, diretor do espaço, quer dar continuidade neste processo de retomada. “Historicamente, esses municípios mais distantes são desassistidos em termos culturais. Queremos levar a fotografia para cidades que nunca tiveram acesso a exposições, treinamentos na área e outros tipos de projetos”, detalha.

Em entrevista ao O Otimista, ele comentou como tem sido o retorno gradual do público e também quais atividades já puderam ser retomadas. No momento, segundo ele, a carência é de parcerias para retomar plenamente o projeto da casa e também de segurança epidemiológica para voltar a atender hospitais, asilos e orfanatos, levando conceitos da fotografia de maneira didática a tais públicos. “Agora é que as parcerias estão começando a voltar, mas só vamos sentir os efeitos disso no fim do segundo semestre e no início do próximo ano”. Confira o bate-papo na íntegra.

O Otimista – Como o senhor avalia esses cinco anos do Museu da Fotografia?
Silvio Frota – É, acima de tudo, um desafio! Fazer cultura em um país como o Brasil, especialmente a cultura privada, é sempre muito desafiador, mas estamos vencendo as etapas, principalmente por meio do trabalho educacional que realizamos, atendendo muitas crianças. Temos uma média de 60 a 70 mil crianças atendidas pelas ações do Museu no período anterior à pandemia. Em virtude da covid-19, não conseguimos mandar nosso pessoal para dentro de hospitais, orfanatos e unidades correcionais, por exemplo. Em contrapartida, já começamos a retornar as visitas às escolas aos poucos.

O Otimista – Quantas exposições foram realizadas neste período? E quantos visitantes passaram pelo MFF?
Silvio – Foram exposições trimestrais, desde 2017. Tivemos 17 ao longo desse período e cerca de 68 mil visitantes. Além disso, palestras semanais e oficinas quase que diariamente, além dos projetos educativos em várias escolas públicas, hospitais, asilos etc.

O Otimista – Pode fazer um balanço de como foram as comemorações alusivas à data ao longo do último mês?
Silvio – Foi um mês muito bom, no qual desenvolvemos vários tipos de oficinas, onde todas lotaram. Isso mostra como as pessoas estão carentes de cultura após todo esse período. Mas foi uma pena não fazer como nos outros anos, justamente em virtude da pandemia e de todas as restrições.

O Otimista – Já tem previsão de quando as ações do Museu voltarão a operar plenamente?
Silvio – Dependemos muito das decisões governamentais, mas também não gostaríamos de promover aglomerações muito grandes. Voltamos a receber escolas, mas de forma paulatina e lenta, diferente de como fazíamos antes, quando recebíamos cerca de 250 a 300 crianças por dia. Ainda não tem como prever como as coisas irão se comportar nessa reabertura.

O Otimista – Ao longo destes anos, quais foram os principais desafios à frente de um equipamento cultural privado em Fortaleza?
Silvio – São vários, especialmente a questão das parcerias. Um terço do nosso orçamento vinha de parceiros e, com a pandemia, começamos a bancar 100%. Agora é que as parcerias estão começando a voltar, mas só vamos sentir os efeitos disso no fim do segundo semestre e no início do próximo ano.

O Otimista – Por outro lado, quais as maiores vitórias no decorrer do percurso?
Silvio – Em primeiro lugar, a maior alegria é ter todos do Museu trabalhando com saúde após tempos tão difíceis. Outra coisa muito boa e que nos alegra demais é levar o Museu para o Interior do Ceará. Isto porque, historicamente, esses municípios mais distantes são desassistidos em termos culturais. Queremos levar a fotografia para cidades que nunca tiveram acesso a exposições, treinamentos na área da fotografia e outros tipos de projetos.

O Otimista – Hoje, qual papel você atribui ao Museu na cena cultural de Fortaleza?
Silvio – Na realidade, o Museu é uma âncora para um projeto educacional, que é o nosso grande foco, principalmente pela diversidade de trabalhos que desenvolvemos junto à sociedade, abarcando pessoas com deficiência [PCDs], crianças de um a quatro anos e uma série de outros grupos. O Museu não para! Todo dia trazemos uma coisa nova. Temos também a atuação no Interior para fazer exposições, treinamentos com crianças e um projeto de geração de renda a partir da fotografia.

O Otimista – Para além dos limites do Museu, consegue enxergar evolução na produção cultural cearense nos últimos anos? Avançamos?
Silvio – Avançamos muito, principalmente porque está cheio de equipamentos novos como o MIS [Museu de Imagem e Som do Ceará], o Complexo Cultural Estação das Artes Belchior, o próprio Dragão do Mar, que foi revitalizado, um novo museu no Cariri. O que vejo é que este acesso está sendo descentralizado. Uma pena é que ainda gira muito em torno de cidades grandes e os municípios menores acabam não tendo acesso a isso. É nesta perspectiva que entra a atuação do Museu nessas cidades mais carentes em termos de acesso à cultura.

O Otimista – Para que os leitores entendam melhor: como funciona este trabalho no Interior do Estado?
Silvio – Somos um Museu diferente, pois vamos ao encontro da sociedade, especialmente das pessoas carentes. Primeiro, trazemos os professores dessas cidades, ensinamos como o trabalho é feito, nossa metodologia, e depois voltamos com eles, levando todos os equipamentos necessários para os trabalhos que serão desenvolvidos e também os materiais necessários para as oficinas, como papéis e objetos específicos da fotografia.

O Otimista – Como foi atravessar todo o período de pandemia? 
Silvio – O Museu continuou ativo através de palestras e oficinas remotas, apesar de a gente já trabalhar nisso antes da pandemia, como por exemplo a transmissão ao vivo das exposições e palestras presentes no nosso roteiro. Foi bom porque descobrimos como é possível fazer caso surja algum problema, mas não foi muito diferente do que já fazíamos.

O Otimista – O que ficou de aprendizado?
Silvio – O que a gente vê é que nada para. Pode ter um pequeno momento de recuo, mas tudo fica funcionando, principalmente as artes. O povo quer mais arte e cultura, então, de uma maneira ou de outra, tudo funciona para a arte poder fluir.

O Otimista – Como tem sido o movimento de retorno do público? Está dentro do esperado?
Silvio – Para se ter uma ideia, nós recebíamos entre 3 mil a 3.500 pessoas por mês no Museu antes da pandemia. Agora está em torno de 1 mil a 1.500, uma queda muito grande. Ainda não conseguimos retornar ao patamar anterior, também por conta da falta de exposições inéditas.

O Otimista – Por fim, como projeta que estará o Museu daqui a dez ou 15 anos?
Silvio – Espero que continue executando o mesmo trabalho que estamos fazendo hoje, só que com uma abrangência muito maior, atingindo mais pessoas e transformando mais vidas.