Reconhecido internacionalmente por Lunga, personagem de “Bacurau” (2019), e vencedor de diversos prêmios, o ator e diretor cearense Silvero Pereira ainda sonha em levar para a TV o seu “SilverShow”, programa com o qual começou a dar asas à interpretação, embora nem ele tivesse consciência disso

Naara Vale
naaravale@ootimista.com.br
Fotos: Beatriz Bley

Apenas brincar de ser ator e apresentador do “Silver Show” dentro do banheiro de casa, em Mombaça, no interior do Ceará, não foi suficiente para dar vazão ao que pulsava em Silvero Pereira. Ele mesmo não tinha noção do que queria, mas sabia que precisava buscar novos rumos. Apesar da paixão pela teatralidade das festas juninas, pela música que aprendeu a apreciar com o pai e do amor pelas telenovelas e filmes que herdou da mãe, sua experiência com “artes” na escola lhe fez ter aversão à palavra enquanto criança. Mas foi só ver a primeira peça de teatro na Escola Técnica Federal (hoje Instituto Federal do Ceará – IFCE), onde estudou e começou a atuar, para descobrir o que viera buscar em Fortaleza aos 13 anos de idade.

Passados 25 anos, o pequeno apresentador do “Silver Show” carrega no currículo dezenas de prêmios no teatro, participações em novela e programas de televisão na Rede Globo e, mais recentemente, começou a colecionar também premiações no cinema. Em 2019, o mundo conheceu Lunga, a personagem de “Bacurau” que fez o menino de Mombaça ir parar no Festival de Cannes, na França. Com Lunga, ganhou também o prêmio de melhor ator no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, um elogio de Barack Obama e abriu os olhos do audiovisual para um Silvero muito além dos papeis ligados ao universo trans.

O reconhecimento pelo trabalho tem vindo em forma de mais trabalho. Quando concedeu esta entrevista ao O Otimista, em dezembro de 2020, Silvero havia acabado de voltar de uma temporada no Rio de Janeiro, onde gravava um longa-metragem dirigido por Cleo Pires. No final do ano, também participou pela primeira vez de uma produção audiovisual cearense a convite do diretor Hálder Gomes e, em breve, estará rodando pelo Ceará com uma peça d’As Travestidas, coletivo do qual faz parte desde o início dos anos 2000. Fora isso, também voltará a gravar uma série para a HBO e estará em outras duas séries de streamings diferentes.

O Otimista – Como começa a tua relação com o teatro? Você veio para Fortaleza com 13 anos para estudar aqui?

Silvero Pereira – Eu vim para estudar e trabalhar. Com 13 anos eu entendi que a minha cidade não iria proporcionar o que nem eu sabia o que queria. Eu vi a oportunidade de vir para Fortaleza trabalhar com os meus tios, que tinham uma lanchonete. Fiquei trabalhando e estudando. Felizmente, passei na Escola Técnica Federal [hoje Instituto Federal do Ceará – IFCE]. Dentro da Escola Técnica foi a primeira vez que eu vi teatro. Quando a gente tinha que decidir as disciplinas de arte, no primeiro dia de aula, disseram: ‘agora vocês vão ter umas exibições do que a gente faz com arte aqui’. E aí me veio a memória de tudo o que era arte quando criança. Quando começou a peça, eu fui ficando ereto na cadeira e apaixonado por aquilo. No dia seguinte, eu estava me matriculando no curso de teatro e não larguei nunca mais. Isso começou em 1997.

 O Otimista – Quando você começa profissionalmente o teatro?

Silvero – Meu professor de teatro dentro da Escola Técnica, que é o Paulo Ess, foi o meu grande pai. Ele também era professor do Curso de Princípios Básicos de Teatro [do Theatro José de Alencar] e me disse do curso. Foi aí quando eu vi pela primeira vez uma peça profissional, que se chamava “O Destino a Deus Pertence”. Fiz o curso no ano seguinte, em 1998. Comecei a trabalhar profissionalmente, a ingressar nas companhias de teatro, a produzir trabalhos sozinho e comecei de fato a ser ator. A primeira companhia foi a Dionísio de Teatro, que era a da Escola Técnica, aí passei por quase todas as companhias de teatro do Ceará, trabalhei com praticamente todos os diretores de Fortaleza.

 O Otimista – Passados 18 anos desde o início do seu mergulho na pesquisa sobre o universo travesti, transexual e transformista, o que você acha que mudou em relação ao preconceito contra essa população? As peças e as falas das personagens das peças seguem atuais e necessárias?

Silvero – A peça “Uma Flor de Dama” [2002] não está mais no meu repertório porque estamos falando de um movimento que aconteceu 18 anos atrás, quando tinham pouquíssimas pautas sobre o assunto. Hoje as pautas cresceram bastante, o conhecimento cresceu bastante e eu não me vejo mais como essa figura que deva fazer esses trabalhos. O “BrTrans” [2012] ainda está no repertório porque ele tem outra história. É uma peça sobre o Silvero contando como foi atravessado por essas histórias, como elas mexeram comigo e me modificaram como pessoa. Hoje existe representatividade, os espaços estão sendo ocupados, o que falta é proporcionalidade.

O Otimista – Você sempre fez um teatro social, com espetáculos que são também atos políticos. Na televisão você também vê espaço para continuar levantando bandeiras sociais?

Silvero – Quando eu entrei na televisão pela primeira vez, que foi em “A Força do Querer”, há três anos, não sabia dessa possibilidade. Eu achava que por estar dentro de uma empresa gigantesca em que todo mundo sonha em estar lá dentro, eu deveria apenas ouvir e executar meu ofício. Foi lá dentro que fui percebendo que eu não deveria seguir dessa forma, que existia uma importância muito grande para que estivesse dentro daquela empresa e que eu podia causar implosões ali dentro, cutucar as pessoas e trazer questionamentos. Então, eu fiz isso da metade pro fim da novela, que foram mudanças significativas internas, de produção, execução e roteiro. Eu fiquei dois anos na Globo e em todos os outros trabalhos que eu fiz depois da novela, eu fiz questão de me impor e falar quais são as minhas questões, quais são as minhas lutas, no que eu acredito, o que devo ou não falar, se isso contribui ou desconstrói a minha comunidade.

O Otimista – E foi bem recebido?

Silvero – Mais ou menos. Nem sempre é tão bem aceito, mas isso não estou falando só de Rede Globo, estou falando do mecanismo total do audiovisual, que é bem difícil, bem preconceituoso. Então, às vezes, você é taxado como alguém que fala demais, que reclama demais, que milita demais e não entende que, na verdade, essas questões são importantes para reconstruir um pensamento. Ultimamente eu tenho negado vários projetos que chegam para mim no audiovisual porque ainda tentam me encaixotar nessa imagem da figura “T” e eu digo: não faço, para isso vocês precisam contratar atrizes T, atores T. Acho que isso tem feito mudanças importantes porque nos últimos sete, oito meses, tudo o que tem chegado para mim já têm sido convites fora dessa linha.

O Otimista – Como os diretores Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles chegaram ao seu nome para interpretar o Lunga, em “Bacurau”?

Silvero – Quando tiveram os testes aqui no Ceará, eu estava gravando a novela, então nem fiz. O Marcelo Caetano, que estava fazendo o casting de “Bacurau”, disse que iria fazer uns testes no Rio e me pediu para fazer. Ele me mostrou para Kleber e Juliano e meses depois, sentei com eles para conversar. Aí mais uma vez essa situação: na personagem original do roteiro, Lunga era uma transexual. Quando eu fui conversar, eles estavam também com essa proposição para mim. Na época, eu ainda estava com o cabelão da novela, só que quando fui conversar, cortei o cabelo bem pequeno e falei para eles que se fosse para ser como estava originalmente, eu não faria, mas se eles tivessem interesse no Silvero ator, a gente repensaria a identidade da personagem.

O Otimista – Além dos diversos prêmios que o filme já levou, este ano você levou o prêmio Guarani do Cinema Brasileiro com o Lunga, e “Bacurau” foi citado por Barack Obama como um dos melhores filmes do ano. Como foi a experiência com essa personagem e como você tem lidado com esses reconhecimentos?

Silvero – Para mim ainda é muito confuso. Ainda não consigo entender quando as pessoas falam que hoje estou dentro do escalão dos atores brasileiros. “Bacurau” tem uma coisa muito especial, que é tipo assim: acabei de fazer uma novela que não dá para mensurar a quantidade de pessoas que assistem a uma novela das 21h, ainda mais com o sucesso que foi “A Força do Querer”, mas aí você vê um filme nacional trazer um personagem que se sobrepõe à teledramaturgia. Hoje as pessoas falam muito mais comigo nas ruas pelo Lunga do que por Nonato/Elis. É muito difícil um personagem brasileiro chegar num momento tão pop e é muito gratificante ver isso.

O Otimista – Você ainda tem uma proximidade muito grande com o Ceará, apesar de ter muitos projetos no Rio e São Paulo. É uma opção sua continuar fazendo arte por aqui?

Silvero – Sim, porque todas as gerações que vieram antes de mim me disseram que para ser artista de televisão, de audiovisual, você tinha que se mudar daqui para o Sudeste. Foi o que ouvi a vida inteira. Eu gosto de viver na minha cidade, o custo de vida aqui é muito inferior a viver no Rio de Janeiro e São Paulo, todos os meus amigos estão aqui, a minha relação com a minha família que mora toda no interior ainda… Então, eu decidi ficar aqui por questões econômicas, mas também para dizer para as novas gerações que é possível você continuar vivendo na sua cidade e fazer trabalhos fora.

O Otimista – Quando você se veste de Gisele Almodóvar para ir receber prêmios como o de Homem do Ano, em 2019, concedido pela Revista GQ, qual mensagem você quer passar?

Silvero – Quero fazer uma crítica sobre toda a masculinidade tóxica que existiu na minha vida inteira. A minha grande dificuldade com a minha sexualidade parte desse preconceito de que se você é homem, tem que se vestir assim, se comportar assim. A grande potência da minha vida foi construída por mulheres, então, a minha imagem é muito mais feminina do que masculina. A minha crítica foi essa: fico muito feliz de receber o prêmio de Homem do Ano, mas saibam que esse homem é uma construção feminina.

O Otimista – Tem algum trabalho específico que você gostaria de fazer ou diretor com quem gostaria de trabalhar?

Silvero – Como eu fiz muita coisa de uma vez, muitos programas de televisão seguidos, as pessoas acham que eu já fiz milhares de coisas na televisão, mas eu só fiz uma novela. Então me interessa muito voltar a fazer novela. Também me interessa muito estar dentro do entretenimento, ter esse lugar do apresentador, do entrevistador. Me interessa ainda colocar esse “Silvershow” para funcionar.