Dirigido por Kleber Mendonça Filho, “O Agente Secreto” conquistou quatro indicações ao Oscar, reafirmando, após um 2025 de destaque para o cinema brasileiro, a força de uma indústria admirada por muitos e ainda subestimada por outros
Gabriel Amora
amoragabriel@ootimista.com.br
Depois de uma estreia babilônica no Festival de Cannes e de se consagrar como um dos melhores filmes de 2025 no Globo de Ouro, “O Agente Secreto” seguiu os passos de “Ainda Estou Aqui” (2024) e se destacou nas indicações ao Oscar 2026 – anunciadas nesta quinta-feira (22) -, reafirmando a força do cinema brasileiro. Dirigido pelo já consolidado Kleber Mendonça Filho, o longa recebeu quatro nomeações, empatando com “Cidade de Deus” (2002), de Fernando Meirelles e Kátia Lund.
Mesmo sem contar com o apoio pleno da Academia Brasileira de Cinema, que, a contragosto, indicou o filme pernambucano, o trabalho mostrou, mais uma vez, que segue avançando com força no cenário internacional, enfrentando gigantes que nem nos nossos melhores sonhos imaginaríamos. “Muito obrigado por toda essa energia. Foi muito bom, fiquei nervoso, mas foi ótimo acompanhar a transmissão”, disse o diretor em seu perfil nas redes sociais. No mesmo post, o nordestino agradeceu aos quase dois milhões de espectadores brasileiros. “Se tornou um arrasa-quarteirão”, brincou. A cerimônia máxima do cinema mundial está marcada para o dia 15 de março.
“Fala-se muito das grandes premiações, como o Globo de Ouro e o Oscar, mas eu quero lembrar um aspecto: ‘O Agente Secreto’ é fruto de uma combinação de muitas coisas, como o talento de Recife para a cultura, teatro, música e, claro, cinema. O filme não surgiu este ano, é resultado de muitos e muitos filmes. ‘O Agente Secreto’ não existiria sem ‘Amarelo Manga’, por exemplo. É fruto de muita coisa, inclusive políticas públicas”, defendeu o diretor.
Temos chances no Oscar?
Para começar, é preciso abrir alas para um dos grandes destaques da temporada: a nova categoria criada pela Academia, Melhor Direção de Elenco. Após quase um século de premiação, a categoria surge para enaltecer os preparadores de elenco, e O Agente Secreto foi indicado entre os cinco melhores. O reconhecimento enfatizou o talento de Gabriel Domingues, que, ao lado de KMF, reuniu um elenco expressivo e representativo. Como esperado, Wagner Moura também garantiu sua indicação a Melhor Ator, consolidando uma campanha que chamou atenção não apenas em Hollywood, mas ao redor do mundo. Além disso, o filme compete simultaneamente em Melhor Filme Internacional e Melhor Filme, repetindo o feito do ano passado de “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, e mantendo o Brasil no topo da disputa.
Entre os concorrentes de Wagner estão: Leonardo DiCaprio, protagonista de “Uma Batalha Após a Outra”; Michael B. Jordan, de “Pecadores”; Ethan Hawke, de “Blue Moon”; e Timothée Chalamet, de “Marty Supreme”. DiCaprio, no filme indicado, manteve seu talento sólido, sem grandes surpresas, enquanto Jordan entregou uma atuação precisa, mas ainda tímida diante do baiano. Hawke, por outro lado, é um perigo, já que impressionou com sua performance clássica e teatral, extremamente apreciada pelos votantes. Enquanto isso, Chalamet se sobressaiu não só pelo talento na produção, mas também pelo engajamento intenso nas redes sociais e entrevistas, conduzindo uma campanha caótica que contrastou com a elegância dos demais. Só o futuro dirá se isso será usado contra sua maneira de chamar atenção. Já nas outras categorias, é necessário pontuar que “O Agente Secreto” e “Valor Sentimental” se tornaram o 12º e 13º filmes em língua não inglesa a concorrer simultaneamente a Melhor Filme Internacional e Melhor Filme. Até o momento, apenas “Parasita” conquistou os dois prêmios. Será que a vez do Brasil vem aí?
Voltando aos rivais, o já citado e perigoso “Valor Sentimental”, da Noruega, se evidenciou com nove indicações, enquanto o filme de Jafar Panahi, “Foi Apenas um Acidente”, vencedor do último Festival de Cannes, teve apenas duas. “Sirāt”, da Espanha, consolidou-se como uma das surpresas do ano, e “A Voz de Hind Rajab”, da Tunísia, surgiu como azarão, tirando espaço de concorrentes fortes como “A Única Saída”, do sul-coreano Park Chan Woo.
É do Brasil, sim!
Com a indicação de Melhor Filme Internacional, o Brasil alcançou sua sexta participação na categoria. O país já havia conquistado o prêmio em 2025 com “Ainda Estou Aqui” (Walter Salles) e figurado entre os indicados com “Central do Brasil” (1999), “O Que É Isso, Companheiro?” (1998), “O Quatrilho” (1996) e “O Pagador de Promessas” (1963). Vale lembrar que “Orfeu Negro” (1960), apesar de filmado no Brasil e em português, venceu representando a França, enquanto “Cidade de Deus” (2004) recebeu quatro indicações em outras categorias – Melhor Direção, Melhor Edição, Melhor Fotografia e Melhor Roteiro Adaptado -, lamentavelmente sem conquistar vitórias. Foi o ano do rapa de “O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei”.
Agora, será que o Brasil consegue dois Oscars seguidos, considerando a vitória de “Ainda Estou Aqui” no ano passado? A resposta é sim. Países como Japão, Suécia, Itália, França e Dinamarca já provaram que é possível, e “O Agente Secreto” mostrou que temos talento de sobra para continuar fazendo história. Basta olhar a trajetória de Melhor Filme Internacional nos últimos meses, deixando, na sequência, “Valor Sentimental” para as categorias de atuação, o suprassumo da película, diga-se de passagem. Enquanto “O Agente Secreto” é um filme completo, “Valor Sentimental” é um filme de atores.
Por fim, além do destaque de “O Agente Secreto”, o Brasil também celebra a indicação de Adolpho Veloso por “Sonhos de Trem”, na categoria de Melhor Fotografia. Natural de São Paulo, Veloso construiu carreira internacional em produções na Europa e nos Estados Unidos. No longa, retomou a parceria com o diretor Clint Bentley, com quem já havia trabalhado em “Jockey” (2021), consolidando a excelência técnica do cinema nacional.
Outros números
Além da presença do Brasil, o Oscar 2026 também marcou recordes históricos e avanços em representatividade. Pecadores, filme de terror, gênero raro de disputar as premiações, conquistou impressionantes 16 indicações à estatueta dourada, atropelando “La La Land” (2016), “Titanic” (1997) e “A Malvada” (1950) em seus respectivos anos. Dirigido por Ryan Coogler, o longa vem fazendo sucesso junto ao público e à crítica, com bilheteria mundial de 368 milhões de dólares. Além dele, “Frankenstein”, outro do gênero, recebeu nove indicações, e “A Hora do Mal”, também terror, garantiu a vaga para Amy Madigan, que recebeu sua segunda indicação 40 anos depois de “Twice in a Lifetime” (1985), marcando o terceiro maior intervalo entre nomeações de atuação na história do Oscar.
Falando em representatividade feminina, outro destaque: pelo sétimo ano consecutivo, ao menos um filme indicado a Melhor Filme foi dirigido por uma mulher. Chloé Zhao, indicada por “Hamnet”, segue como uma das grandes favoritas, além de Amanda Villavieja, Laia Casanovas e Yasmina Praderas, indicadas por “Sirāt”, que formaram a primeira equipe de som totalmente feminina a concorrer. Autumn Durald Arkapaw (“Sinners”) foi a quarta mulher indicada em Cinematografia, seguindo Rachel Morrison (“Mudbound”, 2017), Ari Wegner (“The Power of the Dog”, 2021) e Mandy Walker (“Elvis”, 2022). Charmaine Chan tornou-se a sexta mulher indicada em Efeitos Visuais. Ao todo, 74 mulheres estão concorrendo nesta edição, superando o recorde anterior de 71, estabelecido em 2023.
Por fim, reforço o conselho que usei no final de semana do Globo de Ouro e deu sorte: se preparem, escolham as melhores roupas para participar da festa do dia 15 de março e maratonem os filmes. Independentemente da qualidade, é sempre uma delícia acompanhar o que várias partes do mundo têm a dizer nessa arte que tanto amamos. Estamos prontos!



















