Durante a demolição do restaurante Picanha Grill, surgiu o painel de um bar temático que fez história em Fortaleza nos anos 1990, o New York, New York. Perto dele, foram montados o London, London e o Quixadá, Quixadá. Juntos, reuniam diariamente uma multidão na avenida Dom Luís

Naara Vale
naaravale@ootimista.com.br
Foto: Edimar Soares

Houve um tempo que uma das avenidas mais movimentadas de Fortaleza parava quase todas as noites. No quarteirão entre as ruas Delmiro Gouveia e Frei Mansueto, no bairro Varjota, as calçadas da Avenida Dom Luís não davam conta da multidão que batia ponto em frente ao famoso bar New York, New York, nos primeiros anos da década de 1990.

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Painel New York New York

A recente demolição do restaurante Picanha Grill, que agora dará lugar a um prédio comercial, fez aparecer um painel na parede e reavivou a memória de vários frequentadores do point boêmio que fez história na capital cearense. “Era um painel todo espelhado, formando a paisagem da cidade de Nova York, mas não lembro mais o nome do artista”, descreve Paulo Kalifa, um dos donos do local.

Inaugurado em 1989, o New York, New York foi uma grande inovação no entretenimento de Fortaleza. “Foi o primeiro bar temático na cidade, não tinha nada parecido. Era todo em estilo novaiorquino, os drinks eram todos com nomes de ruas e pontos turísticos de lá. A gente tinha uma banda que abria a noite tocando New York, New York e encerrava também com ela todos os dias. Lá tinha um imenso balcão de 15 metros de comprimento, todo espelhado. O grande sucesso do  local era esse balcão”, recorda o empresário, que fundou o negócio junto com Davi Ferreira, já falecido.

A novidade começou a atrair uma multidão para o local. “As pessoas começavam a noite lá, iam para alguma casa de show e depois voltavam. O horário de fechar era 8h, 9h da manhã. Também tinha muita gente, o ‘bebão’, que dormia dentro do carro… não tinha perigo nenhum, era muito tranquilo”, conta Kalifa. O público do bar era mais elitizado e reunia inclusive gente famosa. Entre elas, o cantor cearense Belchior. “Cansei de ir embora para casa e ele ficar lá até de manhã”, emenda.

Alguns anos depois, Kalifa desfez a sociedade e abriu, do outro lado da rua, o London, London, também um bar temático que viria a fazer um sucesso ainda maior. Aproveitando a deixa, com uma estrutura bem mais modesta e cerveja mais barata, no outro quarteirão foi aberto o Quixadá, Quixadá. Um trailer chamado Sobral, Sobral também se chegou por ali para dar conta da demanda por bebidas. Aquele quarteirão da Dom Luís ficou impossível. “Chegava a dar mais de 10 mil pessoas, era lotado”, lembra Kalifa.

Pioneirismo

Além da inovação por serem bares temáticos, o New York, New York e o London, London foram alguns dos primeiros a colocarem na sua programação fixa música ao vivo e shows de humor. Nomes consagrados como Rossicléa, Paulo Diógenes (Raimundinha) e Falcão passaram pelos palcos dos bares.

Kalifa conta que aconteciam eventos de todo tipo no London, London, tanto que um dia teve um lançamento de um livro em que o autor fez a apresentação da obra completamente nu, ao lado de outras 10 pessoas também peladas. “Imagina isso no início da década de 1990?”, ri o empresário, lembrando também do dia em que levou um leão e um elefante para a porta do London London para divulgar um circo que passava pela cidade.

Mas o que fez história mesmo foi a “lambada de rua”, que acontecia em plena avenida. Especialmente aos domingos, a rua ficava completamente tomada de gente e os ônibus que passavam por ali precisavam desviar a rota.

“Fazia tanto sucesso que teve um dia em que o Jornal Nacional fez um link ao vivo de lá com a gente dançando lambada. Para você ver como era fantástico. E o diferente era dançar no meio da rua”, ressalta o empresário Ricardo Studart, conhecido como Riquinho, que venceu alguns dos concursos de lambada do local. “Quando saiu isso aí nas redes sociais [postagem sobre o painel descoberto], foi impressionante a quantidade de mensagens que eu recebi. Ficou muito forte na memória das pessoas”, pontua o empresário.

Frequentador diário do point boêmio, ele conta que, apesar da multidão, não se recorda de confusões no local. Para encontrar os amigos, bastava ir. “O encontro era lá, não precisava marcar que a cidade toda já estava lá”, diz.