Uma das lideranças empresariais mais conhecidas do Ceará – afinal, foram 20 anos à frente do Sistema Fecomércio -, Luiz Gastão Bittencourt é uma referência no sindicalismo patronal. Essa trajetória no Estado o levou à vice-presidência administrativa da Confederação Nacional do Comércio (CNC), cargo que ocupa há um ano, e onde tem o desafio de conciliar interesses tão diversos quanto os de empresários e trabalhadores, e preparar o setor para absorver com mais rapidez as mudanças no padrão de consumo, por exemplo.

Para isso, coordena 10 câmaras setoriais com representantes de todos os estados, que debatem permanentemente o panorama do comércio de bens, serviços e turismo no Brasil. Além disso, a CNC tem o papel de articuladora, junto ao governo federal e aos empresários, de iniciativas como as reformas da previdência e tributária. “É uma experiência diferente, mas não deixa de ser uma coisa que eu estou lidando que já tenho a prática”, avalia.

Nesta conversa com o portal Tapis Rouge, Luiz Gastão revela também que está avaliando diferentes cenários para os negócios. Inclusive, planeja diminuir o tamanho das operações – empresas de terceirização de mão de obra, vigilância e administração de presídios – para investir em novas áreas.

O que mudou, na prática, entre o que era feito na Fecomércio e agora, na CNC, além da amplitude da atuação, que passou de local para nacional?

Nós pegamos a confederação num momento de mudança do País como um todo, de incertezas e ataques. Começamos com a famosa frase do Paulo Guedes ameaçando cortes no Sistema S e uma turma nova chegando pra governar, que eu diria que sem conhecimento do que é o sistema. Uma diretoria muito boa, que já tinha experiência nos seus estados e que chegou a nível nacional buscando mudar muita coisa. É uma experiência diferente, mas não deixa de ser uma coisa que eu estou lidando que já tenho a prática e o acompanhamento.

Atualmente, quais são as principais pautas da CNC? 

Temos algumas pautas no nosso holofote. Acompanhamos a reforma da previdência; o mesmo também com a reforma tributária, que avançou muito inicialmente, mas já deu uma recuada; vem se discutindo também uma nova reforma trabalhista, agora contemplando também a questão dos sindicatos, debatendo se é melhor a unicidade ou o pluralismo sindical. O Sistema S, acho que agora passa a ter do governo uma concepção melhor da sua importância para o Brasil todo e da sua capacidade de redistribuição de renda. Aqui no Ceará, por exemplo, é beneficiado com a forma distributiva do Sistema, porque 20% do que fica com o nacional são redistribuídos para os estados mais pobres da federação. Eu diria que agora estamos num patamar de implementar algumas mudanças de gestão na confederação, buscando fazer com que eficiência seja cada vez mais a palavra chave, fazendo mais com menos, que é um pouco do que fizemos no Ceará. E olhar mais pela representação empresarial, até pelo papel que tenho hoje de coordenador das diversas câmaras. Hoje, são 10 câmaras atuando a nível nacional, com representantes de diversos segmentos, discutindo o setor de comércio e serviços no Brasil.

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Luiz Gastão Bittencourt é vice-presidente administrativo da CNC e presidente licenciado da Fecomércio Ceará

Como a unicidade sindical, defendida pela CNC, poderia mudar as relações de trabalho?

Posição de respeito mútuo. Nós, sindicalistas, somos por natureza a favor do diálogo, da construção. Quando nós defendemos a unicidade sindical é para discutir setores econômicos, podemos discutir o setor do comércio varejista de combustíveis e suas relações de trabalho, temas como jornada de trabalho, insalubridade, ou seja, toda a concepção para aquela atividade econômica, fazendo com que todos os postos do varejo tenham a mesma competitividade. No pluralismo isso é impossível, porque o meu posto é ligado a um sindicato, com um salário, o seu a outro, um terceiro vai ter outra política e o setor econômico vai ficar instável. Nós temos uma discussão vasta aí pela frente.

Como você mesmo citou, houve uma tentativa de corte de recursos do Sistema S pelo Governo Federal. Ainda existe essa possibilidade?

Um grande desafio para o ano que vem é virar essa página da relação com o Governo Federal. Eu acredito que não terá cortes, ou se tiver, de forma paulatina e que não exceda o percentual de 20% em desoneração da folha, anunciado pelo secretário Carlos da Costa (secretário executivo do Trabalho e Desburocratização do Ministério da Economia). E também a reforma tributária, que eu acho que não vamos conseguir fechar esse ano, então será um grande desafio fazer uma reforma que possa ampliar a base de contribuição e diminuir a carga tributária.

O único ponto pacífico entre a equipe do ministro, a CNC e o Sistema S é a reforma tributária?

Não existe ainda nenhum ponto pacífico, temos vários pontos em aberto. Respeitamos muito o ministro Paulo Guedes e a sua equipe, mas não temos entendimento formado. O pleito do ministério é esse, mas não é o que queremos e achamos aceitável, até porque um corte de 20% vai prejudicar prioritariamente o Ceará e os outros estados do Norte e do Nordeste. Nós achamos que não deve haver corte. Podemos, sim, destinar parte do nosso orçamento para ações em parceria com os governos e para ações que possam ter um foco na complementação dos serviços governamentais.

Inovação é uma palavra que está em voga para a indústria. Para o comércio também?

Em todo setor da economia,  nós temos que fazer mais gastando menos, com maior efetividade, utilizando todos os meios, de comunicação, de transporte, de logística, para fazer com que nossos serviços sejam melhor compreendidos. O e-commerce tem crescido muito, a garotada mais nova utiliza muito mais a internet do que as lojas físicas, então todos os segmentos econômicos estão passando por uma transformação. E não é diferente dentro dessa transformação da necessidade de contratação de mão de obras, contratação de pessoas ou na necessidade de divisão de negócios para entender melhor o setor, qual é o seu público e de que forma vai atender melhor a sociedade.

Como é, atualmente, a sua relação com a Fecomércio Ceará?

É uma relação muito boa, tenho tido um prazer enorme em ver as transformações da gestão do Maurício (Filizola, atual presidente da Fecomércio). As realizações continuam no Ceará. Eu tenho um orgulho muito grande e, agora, acompanhando de fora, tenho um sentimento de dever cumprido. Pude dar a minha contribuição e hoje temos uma entidade respeitada, atuando em vários segmentos, e cada vez mais presente no Estado.

E como empresário, você avalia fazer novos investimentos a curto e médio prazos?

Tenho buscado fazer uma inflexão, vender alguns ativos e reorganizar minha vida empresarial. Talvez até investir em algo novo. Eu estou num período de análise, de acompanhamento do mercado e de me preparar para novos desafios.

Também na área de comércio e serviços?

Sempre nessa área, é onde eu cresci e fiz toda a minha vida empresarial. É uma área que eu acredito muito e está se transformando. Mas estou revendo, me organizando melhor e estou nesse momento de sair de algumas áreas e focar em outras, até para ficar mais tranquilo.