Jesuíta Barbosa celebra amor pelas artes, revela inspirações e fala da parceria com Ney Matogrosso para cinebiografia do artista

Filho do agreste pernambucano e formado nos palcos de Fortaleza, Jesuíta Barbosa traça um retrato sensível de sua jornada. Do cinema ao teatro, ele discute processo criativo, memória, novos caminhos na arte e fala da paixão pelo Carnaval, tendo sido convidado para desfilar pela escola de samba Imperatriz Leopoldinense, que trará um samba-enredo em homenagem a Ney Matogrosso, interpretado por Jesuíta em “Homem Com H”

Aline Veras
aline@ootimista.com.br

Nascido em Salgueiro, no coração agreste do sertão pernambucano, Jesuíta Barbosa carrega consigo a poeira dourada das estradas de terra e o céu vasto que se estende sem fronteiras sobre a infância nordestina. Ao migrar para Fortaleza, encontrou na brisa salgada do litoral uma nova geografia para sonhar e se reinventar. Jesuíta é um ator que se entrega sem pedir licença: seu corpo fala antes da boca, e sua presença transforma espaços em territórios de encontro, contemplação e emoção.  

Em sua trajetória, a contradição se faz poesia: a intensidade do interior se mistura à leveza das cidades, a introspecção à entrega total, o silêncio à explosão da cena. Jesuíta Barbosa, mais do que artista, é um viajante do tempo e da memória, alguém que transforma lembranças em impulso criativo, e o cotidiano em matéria de cinema, palco e vida. 

Tapis Rouge – Depois de mais de uma década construindo sua carreira no cinema, teatro e TV, como enxerga sua trajetória artística? 

Jesuíta Barbosa – Fico com uma sensação de realização. Por me permitir confiar em mim mesmo, nos meus desejos, nessa minha inclinação para a cena. As memórias boas permanecem – as ruins, naturalmente, vão embora. Quando estou atuando, me recordo do tempo da faculdade, dos primeiros empregos, de Fortaleza, do IFCE… Essas lembranças moram em mim, porque são matéria para a arte. As memórias ficam porque a gente se utiliza delas, inclusive, para trabalhar. Então, eu vou te dizer que o que eu sinto é isso, é a realização mesmo. Principalmente por não ter desconfiado de mim mesmo no início.  

TR – Há algo que você sente agora que compreende melhor sobre o ofício de ator, em comparação com quando começou? 

Jesuíta Barbosa – Percebo, principalmente, que nunca vou parar de aprender. O ofício de ator é maluco: envolve o físico, claro – o corpo que traduz -, mas também algo anterior a isso, algo como o espírito da memória. Hoje entendo que acessar essas memórias não precisa me ferir. Posso escolher papéis que me nutram, que não me desfigurem nem que possam me ofender depois.  

 TR – Você sempre foi apontado por interpretar personagens intensos e profundos. Como esse repertório acumulado influencia suas escolhas recentes? 

Jesuíta Barbosa – Influenciam, sem dúvida. Os trabalhos que aparecem dialogam comigo porque têm a ver com quem eu sou agora. A arte que crio reflete meu tempo, minhas inquietações. Sinto prazer em cena – muito prazer -, mesmo sabendo que há desgaste, rotina. Mas tenho optado pelo lado brincante da atuação, pelo improviso, a parte mais do contratempo, da brincadeira, que eu possa lidar com isso de uma maneira mais leve.  

TR – “Homem com H”, a cinebiografia de Ney Matogrosso, teve uma recepção muito positiva, tanto de público quanto de crítica. Por que você acha que o filme conecta tão rapidamente com o público? 

Jesuíta Barbosa – É engraçado que a gente tem produzido muitos filmes sobre os anos 70, uma época em que, infelizmente, tivemos um retrocesso grande na política. E também acho que a gente viveu isso há pouco agora, com esse último governo. Acho que as pessoas, de alguma forma, conseguem acessar aquele mesmo lugar e saber como é que saímos daquilo. Saímos, claro, ainda que violentamente, mas conseguimos sair. Eu acho que o Ney também tem essa qualidade no trabalho dele, de conseguir falar e traduzir o trabalho dele para todo tipo de gente, e eu digo isso no sentido de gerações, para crianças, adultos, pessoas mais velhas. A gente vê o filme, vê a resposta das crianças, a pessoa se montando de Ney, igual como aconteceu lá nos anos 70. Isso, para mim, foi bem surpreendente, mas é engraçado como a gente é parecido ainda. A gente evolui, a gente quer que o movimento seja de evolução, mas somos humanos e as coisas se repetem na história. E eu pude viver isso nesse filme. Para mim foi fantástico, porque eu pude ter acesso às coisas dele, a gente pôde recriar outras coisas de figurino, de maquiagem, mas acho que o mais importante foi ter o Ney junto. O Ney estava ali criando junto, escolhendo o que queria ser contado, as histórias que ele queria que fossem partilhadas. Esse filme é sobre o Ney, sobre aquela época, sobre o artista, mas ele é assinado também por esse artista. Eu acho que por isso é tão importante – e muito diferente das cinebiografias que a gente já teve acesso, porque geralmente a pessoa ou não estava mais ou não participava da criação. Então, eu acho que estar junto do Ney me ajudou a conseguir captar alguma coisa que talvez seja essa magia dele. A disponibilidade e presença dele já fez muito bem para o filme. Então acho que somos parecidos com a década de 70, em que se viveu muita opressão, mas também houve muita invenção. Há algo de histórico ali e parece que o público revisita esse lugar para entender de onde viemos.  

TR – A escola de samba Imperatriz Leopoldinense vai homenagear o Ney Matogrosso no Carnaval 2026. E o seu nome já está entre os convidados. Participar deste desfile, teria algum significado especial para você?  

Jesuíta Barbosa – O corpo do Ney é tão próximo de tantos artistas, bailarinos, pessoas que a gente viu que apareceram, inclusive depois do filme. Eu quero muito ver essa galera estando ali na frente da escola. O Carnaval é a gente por trás de máscaras e estar disponível para se entender atrás dessas máscaras. O Ney é uma figura que usa máscaras, mas, ao mesmo tempo, ele revela o outro quando ele coloca essa máscara. Eu acho que o Carnaval tem essa função. 

TR – O sucesso de “Homem com H” abre novos horizontes para seus próximos passos no cinema? 

Jesuíta Barbosa – Sim, abre. Sei que algumas pessoas pensaram que eu poderia ficar marcado por esse papel, mas, para mim, é motivo de orgulho, não de receio. Fiz o filme com muita dedicação. Esse filme só me fez bem em todos os sentidos. 

TR – Quais são seus próximos projetos no cinema? 

Jesuíta Barbosa – Agora estou num filme chamado ‘O Grampo’, dirigido por Luciano Moura. Eu fiquei feliz também de poder dividir cena com o Fabrício Boliveira, que eu admiro muito. Luciano Moura é um cara que faz cinema já há um tempo. Trabalhou com o Wagner Moura num filme que eu achei lindo, que chama ‘A Busca’. Eu já tinha gostado de trabalhar com ele e aí apareceu esse convite. E tenho alguns outros projetos, sim. 

TR – E no teatro? 

Jesuíta Barbosa – Estou fazendo esse espetáculo agora com a Companhia Brasileira, ‘Sonho Elétrico’, uma peça para conversar com o público sobre o poder do sonho, sobre imaginar um mundo mais humano, menos urgente. Nesse espetáculo a gente discute, tenta elaborar, destrinchar o sonho, a necessidade de sonhar. Não só no sentido de dormir, mas o sonho neste lugar onírico também, de imaginar um mundo possível, um mundo mais interessante, mais evoluído. Então a gente parte dessa premissa junto com o Sidarta Ribeiro, que é um pesquisador, professor e escritor. A gente coloca em cena essa cabeça sonhadora, sobre de que forma podemos estar nesse mundo e estar num bem viver, e não estar nesse mal-estar que é impulsionado pelo capitalismo e por tantas questões do mundo de hoje. A gente tenta conversar sobre isso com o público. Eu acho que vai funcionar muito bem em Fortaleza, assim como em qualquer outro lugar que a gente puder apresentar, porque o teatro tem essa força. Fizemos uma temporada em São Paulo, agora a gente vai andar pelo Nordeste um pouco. Vamos fazer Recife e Fortaleza depois do Carnaval – mas ainda não sei a data de estreia em Fortaleza. Também penso em fazer um monólogo. Ainda não achei o texto ideal, mas a coragem está surgindo para esse desafio íntimo. Ultimamente tenho me enchido de coragem para as coisas. Quero fazer algo que possa me abrir uma possibilidade de pesquisa. Então acho que eu queria me colocar agora nesse desafio de fazer um monólogo, ainda que eu não saiba ao certo qual será. Quero experimentar também performance híbrida, misturar escrita, imagem e corpo. Escrever me ajuda a organizar meu trabalho, mas a cena me chama para projetar esses pensamentos numa forma viva.  Eu acho que o teatro, independente de onde ele é feito, ele transforma.  

TR – Qual a tua expectativa para a encenação dessa peça aqui em Fortaleza?  

Jesuíta Barbosa – Eu estou feliz de voltar a Fortaleza, fazer teatro. A minha expectativa é a melhor de todas, é de encontrar gente, público. Cada dia a gente faz uma peça diferente, dependendo do público também. O teatro é bonito por isso, fazer teatro é bonito por isso também. Mas a expectativa é de que a gente vai conseguir fazer uma peça muito interessante naquele teatro lindo que o Theatro José de Alencar, que é uma referência de beleza no Brasil. Espero que, de alguma forma, a gente consiga se comunicar com o público e mostrar que o teatro é um lugar necessário de ser habitado, um lugar que a gente vai para pensar também, para se divertir.  

 TR – Tem planos de voltar para a televisão? 

Jesuíta Barbosa – Sim. Gosto de drama, de narrativas mais silenciosas, mais elaboradas. Acho que tem muitas pessoas que eu queria trabalhar na televisão, que eu ainda não pude, como alguns diretores e diretoras. Especificamente na televisão, eu gosto dos projetos que a gente pode ter mais tempo de preparação, projetos que estão mais próximos de uma linguagem cinematográfica. Eu acho que me daria muito bem. Também quero explorar comédia, que é um lugar que eu adoro visitar e que eu gostaria muito de ter mais experiência. Aprender mais com a comédia também, porque é um espaço leve, mas difícil, e eu adoro essa leveza.  

TR – Como você se sente ao revisitar suas memórias por meio da atuação? Há algo que você gostaria de experimentar em colaboração, ou outro formato? 

Jesuíta Barbosa – Tenho vontade de escrever. Meus textos são confissões: memórias, desejos, erros, acertos. É uma forma de pesquisa, de projetar futuros projetos com o corpo e a imagem. Me sinto inteiro. As memórias, para mim, não são cicatrizes, são matéria. É com elas que construo o presente e me permito sonhar o futuro. Eu me entendo como artista. Eu adoro a performance. E eu acho que ela se dá muito, às vezes, a partir de uma experiência de vivências que a gente tem durante a vida inteira. Hoje eu tenho tentado escrever.  

TR – E o seu vínculo com Fortaleza? O que a cidade representa na sua formação e na sua identidade artística? 

Jesuíta Barbosa – Tudo! Eu cresci em Fortaleza. Fortaleza é minha raiz. Cresci lá, estudei no IFCE, fiz teatro no José de Alencar, onde vivi intensamente, junto do João Andrade Joca, que foi meu professor e uma pessoa que eu tenho como referência na minha vida e vou ter para sempre. Eu aprendi a ser adulto em Fortaleza. A cidade me ensinou a ouvir, a acolher, a caminhar. Vejo Fortaleza como cidade de gente, como lugar para caminhar, para sonhar. Ser artista andante é isso: estar presente, caminhar, observar. Isso tem uma importância muito grande na minha vida, saber lidar com o outro, saber receber o outro, saber ouvir. A gente é um povo alegre, e, ao mesmo tempo, muito gentil. E eu não quero que isso saia de mim nunca, quero que isso permaneça.

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