Uma das analogias mais difundidas sobre a gestão de grandes empresas é a da orquestra: os músicos precisam estar em sintonia e ser liderados por um maestro que entenda bem cada grupo de instrumentos e que seja capaz de coordenar todo o conjunto para que o espetáculo aconteça. No caso do grupo M. Dias Branco, gigante da área alimentícia e que possui empreendimentos em outros setores, o maestro é Ivens Dias Branco Júnior.

O braço alimentício; fundado em 1961 a partir da indústria de panificação criada na década de 1940 pelo empreendedor português Manoel Dias Branco, avô de Ivens; exporta para 37 países e gera mais de 18,5 mil empregos diretos em 15 fábricas no Brasil. Nestas unidades são produzidas massas, biscoitos, misturas para bolo, margarinas, torradas, snacks, gorduras vegetais e farinha e farelo de trigo de diferentes marcas, como Adria, Vitarella, Richester, Pilar, Fortaleza, Piraquê, Finna e outras. Os outros negócios incluem a Cimentos Apodi; a Dibra Participações, um terminal para importação e exportação de trigo no Rio de Janeiro e turismo, com o resort de alto padrão Dom Pedro Laguna, em Aquiraz, o hotel Holiday Inn, na Praia de Iracema, e o Hotel Praia Centro, na avenida Monsenhor Tabosa.

À frente do conglomerado desde 2014, quando o pai e fundador do grupo, Ivens Dias Branco (falecido em 2018), afastou-se do comando, Ivens Júnior é um líder incomum. Mesmo não tendo concluído a graduação em Administração, é um dos maiores entusiastas da qualificação profissional no grupo. Orgulha-se por ter se formando no chão da fábrica da
família, onde ingressou em 1976.

Em conversa com Tapis Rouge, o empresário falou sobre a sua trajetória, a
priorização da inovação no grupo e a modernização de cada uma das áreas para continuar a crescer no Brasil e também ampliar as exportações.

Ivens Júnior posa diante da vista aérea da Fábrica Fortaleza

Tapis Rouge – Como foi a sua trajetória na empresa? O senhor passou por quais funções até chegar ao posto mais alto?

Ivens Dias Branco Jr – Iniciei minhas atividades profissionais na companhia em 1976, como gerente industrial, quando a fábrica ainda ficava na rua João Cordeiro, em Fortaleza. Em 1981, por destacar-me na área da indústria, assumi a Diretoria Industrial, com a responsabilidade de implantação da nova unidade de produção da Fábrica Fortaleza no Km 18 da BR 116. Também fui responsável pelo projeto de implantação da unidade industrial produtora de margarinas e gorduras vegetais da companhia, inaugurada em 2002. No ano seguinte, assumi o cargo de diretor superintendente e, em 2006, a Vice-Presidência Industrial das empresas. Em 2014 fui nomeado presidente da companhia, cargo que ocupo atualmente.

TR – Indústrias de vários segmentos têm investido em inovação. Qual a relevância
desta área para o Grupo M. Dias Branco?

Ivens Dias Branco Jr – A empresa tem a inovação como um dos pilares de seu plano estratégico, focando principalmente em novos produtos, processos, canais e categorias. A área de Pesquisa e Desenvolvimento de Novos Produtos é responsável pela gestão da Inovação, garantindo o planejamento e execução de um processo estruturado e em conjunto com outras áreas do negócio, como Marketing, Indústria, Supply Chain e Novos Negócios.

TR – Vocês investem em startups?

Ivens Dias Branco Jr – Desde 2017, após uma visita técnica da alta gestão da empresa ao Vale do Silício, iniciamos um processo de aproximação e investimento em startups. Criamos um programa de conexão chamado Germinar M. Dias Branco, que já está em sua segunda edição e vem se mostrando muito bem-sucedido, inclusive, reconhecido por várias publicações em mídias tradicionais e especializadas. Este programa está dividido em duas frentes. A primeira, buscando soluções para desafios e oportunidades no negócio atual, tais como melhoria da eficiência operacional, transformação digital, novas formas de interação com consumidores e novas tecnologias em ingredientes e embalagens. A segunda frente é focada em novos negócios, buscando conectar a empresa a startups alinhadas às tendências globais em alimentos (conveniência e praticidade, indulgência e experiência, saudabilidade e nutrição).

ESTAMOS ATENTOS A OPORTUNIDADES EM NOVOS SEGMENTOS QUE TENHAM SINERGIA COM NOSSA FORMA DE PRODUZIR, COMERCIALIZAR E DISTRIBUIR

TR – Como o senhor vê o cenário econômico nos próximos anos?

Ivens Dias Branco Jr – A empresa tem mais de 65 anos e já vivenciou vários momentos de turbulência da economia brasileira, e nem por isso deixou de acreditar no potencial de recuperação e retomada do crescimento do País. Para os próximos anos, a nossa expectativa é de melhora e continuarmos a realizar investimentos, como, por exemplo, o novo e maior moinho de trigo do Rio Grande do Sul, que inauguramos recentemente. Além de tecnologia e infraestrutura, acreditamos muito na importância de se investir em treinamentos e capacitação de nossos colaboradores, nosso maior patrimônio, para estarmos sempre preparados para o crescimento.

TR – As incertezas atuais devem afetar ou adiar os planos de internacionalização
da companhia?

Ivens Dias Branco Jr – A empresa estruturou uma área de exportação para ganharmos cada vez mais relevância no mercado externo, e assim avançarmos no processo de internacionalização de forma robusta e sustentável nos próximos anos.

TR – Qual a maior lição da última crise?

Ivens Dias Branco Jr – O ano está sendo bastante desafiador, o que nos faz pensar em diferentes formas e modelos para conquistarmos mercado e trazermos bons resultados para o negócio. Mantemos sempre o foco na gestão, com austeridade no controle de custos, despesas e eficiência operacional. Buscamos cada vez mais agilidade nas decisões, na união entre os colaboradores e criatividade para os enfrentamentos de crises. Isso nos torna cada vez mais fortes e preparados.

TR – O grupo já estava consolidado como um dos maiores do segmento nas Américas e o mercado chegou a especular se, após a morte do fundador, a empresa seguiria do mesmo tamanho. Foi um desafio manter a família coesa em torno do negócio?

Ivens Dias Branco Jr – A empresa já era muito profissionalizada e, por mais que a presença do fundador fosse muito importante, tínhamos condições de levar adiante seus ideais e cumprir os desafios de continuar crescendo. Este processo contou com a participação de todos os colaboradores da empresa e da família.

TR – A sucessão já havia sido preparada por Ivens Dias Branco anos antes, mas
ele ainda era muito presente no dia a dia da companhia. O que mudou objetivamente com a sua ausência no negócio?

Ivens Dias Branco Jr – O meu pai já vinha se afastando do dia a dia da empresa e
exercendo sua função de presidente do Conselho de Administração. Participava das definições das metas globais e acompanhava o alcance das metas e os grandes investimentos, tarefas que continuam a ser discutidas no conselho da empresa.

TR – Um dos objetivos já anunciados é acelerar a profissionalização na gestão do
grupo ainda em 2019. Quais as principais iniciativas neste sentido?

Ivens Dias Branco Jr – Estamos fortalecendo o Conselho de Administração, criando comitês de assessoria em áreas estratégicas e desenvolvendo com as lideranças da empresa mecanismos de aprimoramento da governança, definindo e revisando políticas que aperfeiçoem os processos.

TR – Após várias aquisições seguidas de marcas importantes, como Piraquê, o
Grupo M. Dias Branco “bateu no teto” por não poder mais crescer através de aquisição?

Ivens Dias Branco Jr – Não existe um critério objetivo definido pelos órgãos governamentais para aquisições, portanto, não entendemos ter “batido no teto”. Continuamos avaliando oportunidades de crescimento por aquisições e levando em frente as iniciativas de crescimento orgânico.

TR – Quais as diretrizes para incrementar o crescimento orgânico?

Ivens Dias Branco Jr – Procurar abrir novos mercados, selecionar novos distribuidores, incrementar as ações de marketing e comunicação com nossos clientes, lançar novos produtos e melhorar o nível de serviço, buscando ampliar a base de clientes e a satisfação do público consumidor.

TR – Existe previsão para ampliação de alguma das 15 fábricas, ou uma nova
unidade fabril?

Ivens Dias Branco Jr – Sempre estamos investindo em aquisição de novas linhas, na ampliação e automação das existentes. Neste momento, estamos concluindo o trabalho de uma empresa de consultoria que visa reordenar o processo fabril, tentando identificar alterações que visem aumentar a eficiência operacional da empresa. Só após a conclusão desses estudos poderemos decidir sobre ampliação de fábricas ou até mesmo construção de novas unidades.

TR – A Apodi deve ser ampliada nos próximos anos?

Ivens Dias Branco Jr – Estamos atentos ao mercado de cimento, que teve nos
últimos anos um grande acréscimo de capacidade de produção e uma forte redução na demanda. Neste momento, não existe definição sobre novos investimentos na área.

TR – A parceria com o grupo grego Titan melhorou o desempenho da Apodi de que forma?

Ivens Dias Branco Jr – O Titan tem uma tradição centenária no mercado mundial de cimento. Construímos uma planta moderna e eficiente com alto padrão tecnológico,
permitindo uma produção de alta qualidade. Sem dúvida, a expertise do grupo Titan
tem trazido ganhos para a empresa. Estamos satisfeitos com a parceria e creio que
eles também se surpreenderam positivamente com o que encontraram.

TR – Vocês avaliam firmar outra parceria do gênero?

Ivens Dias Branco Jr – Neste momento, não existe nenhuma nova parceria em estudo, mas estamos sempre abertos a isso.

TR – O empreendimento da Dibra no terreno do antigo hotel Esplanada, na Beira Mar, é um dos mais aguardados do mercado imobiliário. Será lançado em 2020?

Ivens Dias Branco Jr – Estamos discutindo internamente o melhor momento de lançarmos esse empreendimento. Queremos oferecer à cidade um conceito inovador em arquitetura e engenharia.

TR – O grupo planeja investir em outros empreendimentos hoteleiros, tanto sozinho, quanto em parceria com grandes redes, como o Dom Pedro Laguna?

Ivens Dias Branco Jr – No momento, não está na nossa linha de prioridades investimentos individuais ou em parcerias na área hoteleira.

TR – O Aquiraz Riviera foi projetado para abrigar outro empreendimento. Será
mais um hotel, ou condomínio de alto padrão?

Ivens Dias Branco Jr – O projeto Aquiraz Riviera passa pela construção de um Village Mall (parque aquático, bares e restaurantes), condomínios de alto padrão e residenciais unifamiliares e multifamiliares.

TR – Os demais investimentos em turismo (Praia Centro e Holiday Inn) devem receber melhorias ou novas unidades?

Ivens Dias Branco Jr – Estes hotéis estão sendo sempre atualizados e muito bem
mantidos para que possam oferecer bons serviços a seus clientes, dentro do perfil do público a que se destinam.

O ramo alimentício é o foco da família DIas Branco há quatro gerações.

TR – Hoje, o grupo exporta para mais de 30 países. A atual crise é propícia para
buscar ampliação do mercado externo?

Ivens Dias Branco Jr – Temos procurado incentivar as exportações, participando de feiras internacionais, divulgando nossos produtos no Exterior, por entendermos que este é um importante passo para a internacionalização da empresa. Achamos que o momento é muito oportuno para isso.

TR – Dentre os produtos exportados, quais devem ter o maior percentual de crescimento?

Ivens Dias Branco Jr – Biscoitos, torradas e margarinas, por terem sinalizado maior
crescimento em suas categorias.

TR – Você acredita que a indústria alimentícia nacional tem condição de competir com marcas de outros países?

Ivens Dias Branco Jr – Falando especificamente da nossa empresa e do nosso segmento de mercado, não tenho nenhuma dúvida. Sim, temos condições de produzir em altos padrões de excelência, comparado às maiores empresas internacionais do setor. Temos tecnologia e know-how que se equiparam às principais empresas do nosso segmento no mundo.

CONTINUAMOS AVALIANDO OPORTUNIDADES DE CRESCIMENTO POR AQUISIÇÕES E LEVANDO EM FRENTE AS INICIATIVAS DE CRESCIMENTO ORGÂNICO

TR – Existe algum estudo para lançamentos de novos produtos em 2019 e 2020?

Ivens Dias Branco Jr – Estamos sempre estudando novos produtos ou extensões de linha para melhor satisfazer e surpreender os nossos clientes e consumidores.

TR – Na sua opinião, a queda no lucro apresentada no segundo trimestre de 2019 é uma tendência ou sazonalidade?

Ivens Dias Branco Jr – A queda do lucro no segundo trimestre deveu-se à alta forte no preço dos principais insumos e algumas matérias-primas, associada a uma dificuldade de repasse dos custos em virtude da queda do poder aquisitivo dos consumidores. Temos certeza que brevemente estaremos recuperando essas margens e elevando a rentabilidade de nossa empresa.

TR – Existem planos para diversificar a produção, entrando em novos nichos alimentícios que não estejam ligados a margarinas, massas e biscoitos?

Ivens Dias Branco Jr – Nos últimos anos, entramos nos segmentos de bolos, mistura para bolos, farinhas formuladas, salgadinho e torradas. Entretanto, estamos sempre atentos a oportunidades em novos segmentos que tenham sinergia com nossa forma de produzir, comercializar e distribuir.

TR – Qual a receita para o grupo ter continuado a crescer, mesmo com a crise que vem assolando o Brasil?

Ivens Dias Branco Jr – Criatividade, qualidade e acessibilidade.

TR – O setor industrial ainda aguarda retomada da economia com as novas diretrizes econômicas do governo Bolsonaro. Esta retomada está demorando muito para acontecer?

Ivens Dias Branco Jr – Gostaríamos que o crescimento econômico estivesse mais pujante, mas estamos convictos do empenho e de que a equipe econômica está no rumo certo para um crescimento sustentável, fazendo os ajustes devidos para uma retomada que possa gerar os empregos necessários para que o nosso querido país possa voltar a crescer.