Na primeira quinzena de dezembro o prédio revestido de granito preto na Dom Manuel que abrigou por décadas a Bolsa de Valores Regional do Ceará – que representava também Piauí, Maranhão, Pará e Amazonas – vai reabrir abrigando o que deve ser um outro tipo de referência para os negócios no Estado: o hub de inovação Ninna (Núcleo de Inovação e Novos Negócios Aplicados).

O Ninna deve impulsionar startups que desenvolvam produtos nas áreas da saúde, segurança, comércio e serviços financeiros e deve chegar a 20 projetos nos primeiros 12 meses, dos quais três já estão em andamento. O espaço mantém características originais de quando o prédio funcionava como bolsa de valores, como auditório com poltronas originais – integrado a um espaço multiuso, onde devem ocorrer eventos, palestras e pits -, escultura e placas. Ao todo, serão 12 salas individuais para as startups selecionadas, salas de reunião, cabines para calls individuais, coworking com 20 estações de trabalho, copa e café 3Corações.

O Ninna tem como mantenedores o Grupo Pague Menos; a sua parceria em logística, a paraibana L’auto Cargo; a empresa de segurança Servis Segurança e Serviços; o fundo de investimentos CDP Capital e a Universidade Federal do Ceará (UFC). A Secretaria de Ciência e Tecnologia do Ceará (Secitece), também é parceira, via Corredores Digitais.

Um dos principais nomes do Ninna é o gerente executivo Humberto Lima. Administrador, professor universitário e com décadas de experiência no setor de tecnologia da Secretaria da Fazenda do Ceará, está no projeto desde o início, antes do Ninna virar hub. “O nosso trabalho será fazer o meio de campo, trazendo ideias inovadoras para as empresas. Não queremos pegar os projetos da fase inicial, queremos que as universidades dêem o primeiro impulso. No segundo momento, a gente prepara essas startups para entrar de vez no mercado”, resume.

De acordo com Humberto, o Ninna surgiu do interesse comum de alguns empresários em levar inovação para os seus negócios com soluções criadas e desenvolvidas no Ceará. Um dos maiores entusiastas é o fundador da Pague Menos, Deusmar Queiroz, que teve a ideia de fundar um núcleo depois de uma viagem para o Vale do Silício e para Israel.

“Ele queria criar um legado para Fortaleza e para a própria família, para que esses talentos não fossem mais embora daqui e tivessem um lugar para se desenvolver, lapidando aqui os diamantes brutos, como ele mesmo gosta de dizer”, conta.

A intenção é fazer intermediação entre boas ideias e as demandas das empresas interessadas em inovação, além de oferecer a assistência necessária para os projetos desenvolvidos em diferentes etapas e ser também um centro de referência para empreendedores. “Será uma verdadeira fábrica de startups, vamos não apenas incubar, ou germinar, ou acelerar, mas um hub de fato, com diversas possibilidades para as startups e para as empresas mantenedoras”, resume o gerente executivo do projeto, Humberto Lima.

A grosso modo, o que será o Ninna?

Uma fábrica de startups. Esse termo, startup, já está até um pouco saturado, mas o que vamos fazer é possibilitar, dar meios e condições para que essas ideias se desenvolvam aqui mesmo no Ceará. O que a gente vai fazer é dar suporte, consultoria jurídica, treinar, alocar. Depois que passar pelo nosso crivo, vamos investir na ideia.

Já existem projetos em desenvolvimento que possam exemplificar essas ideias inovadoras?

Apesar de ainda não termos aberto, já estamos operando com alguns setores. Há algumas semanas fizemos uma mentoria no campus da UFC em Quixadá e lá tem um garoto que está desenvolvendo um bastão com sensor para cegos. Como é que ele pode desenvolver esse produto, ter acesso a registro de patentes, que é caro, financiamento etc.? É aí que o Ninna pode entrar, dando estrutura e apoio para não deixar esse cara ir embora.

Apesar de ainda não ter sido inaugurado, o Ninna já mudou de foco e passou de núcleo para hub. O que mudou na concepção inicial?

Com a entrada do Delano (Macêdo, CEO da CDP Invest) e as ideias do Deusmar de lapidar estes diamantes brutos, resolvemos fazer toda essa parte de aceleração, incubadora, desenvolvimento, um coworking, tudo para atender de alguma maneira o empreendedor que venha aqui. A partir daí, deixou de ser núcleo pra ser um hub. Foi um aporte de recursos e de ideias novas, pensamos maior e agora o Ninna será um hub de inovação, não mais uma venture building, como havíamos pensado antes. Não temos uma meta em valor de investimentos pra atingir. A empresa foi criada sem fins lucrativos, o que vamos fazer é pegar as startups não do início, já em uma segunda fase, para fazer esse match com as empresas e fortalecer o network entre os empreendedores.

Além das empresas mantenedoras, o Ninna terá parcerias com quais instituições? 

Já temos parceria com a Sofitex Brasil (Associação para Promoção da Excelência do Software Brasileiro); com o Cinturão Digital, da Secitece, e a Universidade Federal (do Ceará – UFC). Vamos pegar os projetos já em uma segunda fase, depois de ter passado por esses parceiros e começar a fazer o meio de campo com as empresas. Se os nossos empreendedores não tiverem interesse nos projetos, vamos levar pra fora, fazer eventos, pittings, várias ações para fazer a ideia girar.

Os projetos desenvolvidos no Ninna serão selecionados como?

Estamos montando uma bancada de mentores que vai avaliar os projetos e dizer se têm condições de ser desenvolvido ou não. Já temos pessoas da UFC, de São Paulo e do Rio Grande do Sul, estamos em contato com algumas pessoas de Portugal também, e os nossos mantenedores. Vamos ter os setores de tecnologias das empresas funcionando no Ninna, tanto o da Paguem Menos, quanto o da Servis, da Lauto, da CDP, a própria UFC, e estamos procurando uma outra empresa na área da saúde.

A decisão pela instalação de um hub de inovação tem relação, mesmo que indireta, com a implementação dos três hubs (aéreo, portuário e de tecnologia) pelo governo do Estado? 

Com certeza. Quando novos setores são instalados na economia, é preciso dar suporte à tecnologia que está surgindo. Ainda que seja em outras áreas, como aviação ou portos, todas se relacionam entre si e é preciso dar suporte para o que surge aqui. Como eu havia dito, lapidar esses diamantes brutos aqui, não permitir que esses talentos vão embora. Cabe a gente desenvolver essas startups pensando em produtos para esses hubs. Por exemplo, eu conheço um projeto de medicação digital, uma grande ideia que está surgindo… quem sabe se não pode ser aproveitado? Temos outras na área de robótica, de segurança. Tudo isso pode ser desenvolvido no Ninna.