Fazer exercícios, se alimentar melhor, estudar mais. Estas metas costumam estar nas listas de objetivos feitas em todo início de ano, mas, como colocá-las em prática? Especialistas explicam porque as pessoas costumam procrastinar e apontam possíveis saídas para terminar o ano com todos os propósitos alcançados

Danieber Noronha

danielber@ootimista.com.br

Com planner em mãos e folhas com os dias da semana destacadas, o estudante universitário Kairo Jataí, 22, começou a elencar objetivos de vida que passeiam pelos mais variados aspectos. De afazeres diários e demandas da faculdade, passando por entregas da loja que criou durante a pandemia e, claro, momentos de lazer e viagens para destinos muito desejados. “Tenho lutado contra a procrastinação e largar este hábito é um exercício diário. Comecei a usar planner e foi uma virada de chave na minha vida. Ficou mais fácil conciliar atividades da faculdade, estudos em casa e a empresa”, comemora.

Os ganhos, ressalta o estudante, não param por aí. Com a elaboração de um plano de metas, ele tem conseguido organizar a vida financeira e realizar até investimentos. “Para não procrastinar, me organizo para ter o menor tempo livre possível durante a semana, deixando o fim de semana mais livre e com tempo maior para o lazer”, detalha.

Porém, segundo ele, ainda há aspectos que precisam ser melhorados, como a assiduidade na prática de exercícios físicos e execução de tarefas domésticas. Estes são pontos que passaram para a lista de 2022. O universitário não é o único brasileiro com pendências não cumpridas no ano passado. Segundo pesquisa da 7waves, plataforma de planejamento pessoal, que considerou mais de 180 mil metas estabelecidas no aplicativo por usuários e que não foram alcançadas em 2021, 83,8% das pessoas não conseguiram cumprir a promessa de começar a fazer terapia, dentre outros planos também frustrados.

Fugindo da dor

Parte do ato de postergar a concretização das atividades, de acordo com a psicóloga Joyce Matos, tem relação com uma tentativa do cérebro de se auto preservar. “O nosso cérebro fica sempre atento a algo que está nos colocando uma certa pressão ou nos deixando desconfortáveis. É aí onde entra com a procrastinação para amenizar tais sensações, fazendo uma espécie de compensação”.

Para José Olinda Braga, professor do Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Ceará (UFC), a procrastinação ocorre, em muitos casos, pelo modo como as pessoas lidam com o tempo. “Criamos uma falsa impressão de que teremos muito tempo para realizar determinadas atividades. Apesar de o tempo ser infinito, a nossa passagem pela terra não é”, pondera.

Paciência x Imediatismo

A dificuldade de cumprir metas, conforme desenha Joyce, passa também por um histórico de frustrações colecionadas ao longo da vida e da falta de paciência em alcançar metas de forma gradativa.

“Estamos tentando cada vez mais funcionar como máquinas, uma vez que elas estão sendo fortemente inseridas no nosso cotidiano. Mas não há como resolver certas coisas somente apertando alguns botões. A questão é que não temos tido tanta paciência com os processos. As pessoas desistem de terapia porque não querem esperar o desenvolvimento intelectual e as mudanças cognitivas”, provoca. Ainda segundo ela, é também por este motivo que muita gente desiste de emagrecer, juntar dinheiro, praticar exercícios físicos e afins.

Buscar propósitos

Doutor em Educação Brasileira, Braga aponta a criação de propósitos como uma saída possível para vencer a procrastinação. “O ideal seria que cada um de nós criássemos um projeto existencial, fundamental, onde fosse colocado tudo que queremos nos tornar em um determinado tempo ou até o final da vida, dos pontos de vista afetivo, emocional, sexual e profissional”, destaca.

Além disso, é importante também estar atento se, dentre outros fatores, tal comportamento esteja atrelado a estados depressivos. “Isto só pode ser atestado com a avaliação de um psicólogo ou psiquiatra, que irá ajudar entender melhor tais bloqueios”, completa.

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Top 10 das principais metas procrastinadas em 2021

1º – 83,6% Não começaram terapia

2º – 78,3% Não conseguiram emagrecer

3º – 76,9% Não realizaram exames de rotina

4º 74,2% Não implementaram alimentação saudável

5º – 73,2% Não iniciaram atividades físicas

6º – 72,3% Não quitaram dívidas

7º – 69,6% Não guardaram dinheiro

8º – 66,8% Não ingressaram na faculdade

9º- 65,3% Não arranjaram um novo emprego

10º – 64,4% Não abriram o próprio negócio

Fonte: 7waves