Haroldo Rodrigues Filho, sócio fundador da In3Citi, colocou para si um desafio: construir um ecossistema de negócios de impacto no Ceará. Ele investe em empresas que aliam lucro com propósito ou, eu suas palavras, que ajudam a construir um mundo melhor. “O primeiro ponto de partida é uma ousadia”.

A tarefa é coisa para “alguém que gosta de estourar bolhas”, como ele se descreve. Formado em Odontologia, Haroldo construiu uma carreira acadêmica que inclui, além de mestrado e doutorado, a coordenação do Parque Tecnológico da Unifor e a presidência da Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap). Mas ele largou tudo, foi para os Estados Unidos aprender sobre inovação e voltou para empreender. “Eu queria fazer mais”, diz sobre a fundação da In3Citi, em 2017.

Esse “mais” inclui trazer negócios inovadores para o Ceará, colaborar no desenvolvimento do capital humano no Estado e mostrar às empresas já consolidadas que elas precisam mudar para atender aos novos consumidores, cada vez mais empoderados. Afinal um mundo melhor requer engajamento. “Vamos trabalhar em rede, conectados, integrados. Ninguém faz mais nada sozinho. Nós vamos trabalhar juntos, porque os problemas são do globo”. 

Os resultados começam a aparecer. O principal produto da In3Citi hoje é a chamada nacional Territórios de Futuro, feita em co-investimento com o Grupo Marquise, na qual se inscreveram 185 negócios de todo o País. Os dois vencedores passarão por processo de aceleração no Ceará. “Isso só faz sentido se for no estado do Ceará”, diz Haroldo, que fala apaixonadamente da sua terra natal. ”Se tem alguém que quer fazer alguma coisa de fato para o Estado do Ceará, eu sou devoto para isso”, enfatiza ele em entrevista concedida ao Tapis Rouge. Confira. 

Haroldo Rodrigues 3

Como nasceu a In3Citi?

A In3Citi tem uma história extremamente ousada. Ela nasceu de uma iniciativa de mudar a regra do jogo de investimentos de negócios no Estado do Ceará. Ela traz o DNA de uma sensibilidade com esse balaio de contrates que é o Ceará, onde a gente tem um território extremamente desigual, assimétrico, em função das questões climáticas, uma fuga de pessoas, de cérebros. Por outro lado, tem uma abundância de capital humano gritante. Onde tem capital humano, tem riqueza, tem economia criativa. A gente vive uma revolução do conhecimento. A In3Citi, como investidora de negócios de impacto, nasce com esse desafio: de criar um ecossistema de negócios de impacto dentro do Estado do Ceará. Não estamos satisfeitos em ver esses exemplos em São Paulo. Queremos que isso faça sentido dentro do Estado do Ceará, valorizando negócios que gerem riqueza dentro do Estado do Ceará. O primeiro ponto de partida é uma ousadia, inovação na forma de ver investimentos. Costumo dizer que é uma alternativa aos investimentos tradicionais, que os empresários, os detentores de lastro podem fazer, buscando não só o retorno financeiro dos investimentos, mas também retornos de transformação da vida das pessoas. 

A In3Citi é uma Empresa B. O que isso significa?

A In3Citi faz parte do sistema B Brasil. É uma B Corporation, é uma empresa que gera benefícios. Esse e um grande movimento de líderes que não querem as melhores empresas do mundo, mas querem empresas para um mundo melhor. Esse é o novo significado de sucesso de economia e isso só faz sentido se for no estado do Ceará. 

Como você avalia o ambiente de negócios do Ceará a partir do ponto de vista dos empreendedores?

É extremamente latente. Não há negócios se não tem capital humano e se tem uma coisa que existe no Ceará é capital humano. Não há novos negócios sem que haja participação desses garotos, desses millennials. Há uma efervescência muito grande, um estágio de latência que essa economia precisa compreender. O modelo tradicional precisa urgentemente colocar dentro do seu planejamento estratégico o que esse capital humano que já está entrando no mercado precisa, que é lucro com propósito. Gerar lucro significa transformar a vida das pessoas. Daqui a pouco, daqui a cinco, seis anos, você não vai perguntar quantos milhões foram gerados pela empresa, mas quanto os negócios gerados pela aquela empresa estão impactando na vida das pessoas. Quanto mais pessoas impactadas por aqueles negócios, maior o lucro. O lucro vai ser uma consequência do impacto causado pelo core e não o contrário. Essa é a resignificação do negócio. Por isso que a In3Citi coloca em sua tese de investimento a tecnologia como base. Os negócios hoje só são escalados se tiverem tecnologia como base. A tecnologia é um meio mais justo, mais democrático, acessível de você levar os negócios para a base da pirâmide. O que a gente precisa é que o ser humano use a tecnologia. A gente vai crescer, na próxima década, de forma exponencial. Como gerar negócios para esse bilhão (a mais de pessoas) que vai habitar o mundo na próxima década se esse um bilhão tem desejos, vontades, compromissos completamente diferentes dos modelos tradicionais de negócios. Não adianta pensar em negócios no modelo tradicional se quem vai rodar esse negócio não sabe rodar no modelo tradicional. Vai ter uma ruptura e a gente está próximo do ponto de inflexão.

De modo geral, as empresas cearense estão se preparando para essa ruptura?

É óbvio que há certo olhar. Esse olhar de alguns é com uma lupa mais apurada, com uma movimentação que chamo de metamorfose, trabalhando em núcleos isolados, em laboratórios isolados, resignificando seus processos, seus produtos, incorporando essa tecnologia, esse propósito dentro do seu negócio. Algumas estão mais resistentes, compreendendo até que ponto esse investimento vai gerar retorno para equilibrar esse balanço. Outros estão mais céticos, têm em sua cartilha o modelo tradicional e, como todo o negócio, como todo ciclo de negócio, vai findar. Não se pode esperar a tempestade passar, todos os líderes de negócios vão ter que enfrentar de peito aberto essa tempestade. Ou enfrenta ou vai afundar. Daqueles que estão preparados para afundar vão nascer outros negócios completamente diferentes. Essa vai ser a grande transformação. Há um grande pacto global que direciona os líderes para esses negócios, o famoso pacto global para se atingir os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS). Para qualquer líder, basta pegar a cartilha dos 17 ODS, olhar o seu negócio e ver que tipo de interface ele tem para as dores do mundo. Todos os negócios precisam fazer uma conexão com as dores para ter equilíbrio do planeta ou a conta não vai fechar. A gente vai ter quase 10 bilhões de pessoas em 2050 e hoje a gente só produz 40% dos alimentos necessários para essa população. Onde é que a gente vai plantar para alimentar com capacidade nutritiva? Em que território a gente vai colocar esses quase 2,5 bilhões de pessoas a mais?

Como trazer a agenda sobre esse futuro, ainda que próximo, para o Brasil, o Ceará, onde ainda estamos procurando soluções para o básico: alimentação, moradia digna, saneamento etc?

A velocidade do conhecimento é extremamente disruptiva. O que hoje parece indiferente às nossas necessidades provavelmente daqui a dois, três anos, serão nossas dores. As distâncias já não existem mais. Nós vamos buscar um ponto de equilíbrio, principalmente nas regiões mais assimétricas do mundo, onde quem tem vai ter que dividir com quem não tem. O valor do dinheiro vai ser percebido pela capacidade de ele ser distribuído. Não é nenhum valor ideológico, é o valor agregado que a riqueza vai dar. Os grandes ricos do mundo já distribuem sua riqueza a fim de mitigar essa desigualdade. Não dá mais para você ser rico e feliz numa bolha, essa bolha está sendo estourada a todo momento. Não existem mais ricos felizes dentro de suas bolhas porque hoje a gente vive em um mundo que é global. Hoje, o que é periferia para a gente, para onde ninguém olha ainda, nós vamos olhar já já. Se isso não acontecer a conta do planeta não vai fechar e quem vai pagar essa conta é quem tem dinheiro, pode ter certeza. Essa conta não vai fechar às custas do poder público. As pessoas vão ficar empoderadas.

Como esse empoderamento das pessoas, do consumidor, já se manifesta?

Tem alguns belos exemplos. Não se compra mais produtos pela marca e sim pelo conteúdo, isso em todos os níveis. O vale mais hoje é o impacto que aquela essência faz dentro do seu bem estar. O desejo de consumir um bem vai lhe determinar, mesmo que você pague mais caro. Eu, por exemplo, todo a decisão de me deslocar toda quinta-feira e andar 20 metros, ir à feira livre do meu bairro, que é o Mucuripe, e fazer as minhas compras de frutas e verduras numa banca, onde sei a origem dos alimentos porque conheço o agricultor, o produto é limpo. Não sou vegano, não sou vegetariano, só quero um produto limpo. Não compro de intermediário, compro direto para ele. Há alguns supermercados em Fortaleza que já colocam em suas prateleiras alguns produtos com esse conceito de produção limpa. Você paga um pouco mais caro, mas sabe a origem da produção. Essa é a decisão. Quem vai regular o mercado não é mais quem produz, mas é quem consome, essa é a grande mudança que vai existir.

Qual o papel do poder público?

Regular, só regular. Sem questões ideológicas. Quanto mais orquestrador for o governo, melhor. O papel do poder público é de dar segurança jurídica, dar condições para que se operem essas relações da forma mais estável possível. Eu passei 2014 e 2015 nos Estados Unidos. Saí daqui quando era gestor público, presidente da fundação de pesquisa do Estado (Funcap), e me sentia muito desconfortável aplicando algumas políticas públicas sem que o Estado tivesse uma matriz de desenvolvimento econômico para que pudesse fazer os investimentos. Então fui para o Arizona, que é um deserto, você dorme em buracos, porque há uma convivência com o árido. Fui entender os clusters de inovação de lá. Comecei entender e fui para Berkley, na Califórnia, que fica ali do lado. Passei seis meses em Berkley, Stanford e compreendi o que era o Vale do Silício, convivendo com a garotada. Tem um ponto que é extremamente importante quando me perguntam qual é o papel dessa tríplice hélice da inovação: se tem uma coisa que o americano sabe é que ele tem que pagar imposto. Para isso vai ter que trabalhar e ninguém fala mais nisso. Mas o que motivava aquela moçada lá é que eles tinham a pressão de trabalhar, mas a produção deles tinha um grande significado: o produto final transformava a vida das pessoas. A gente precisa se resignificar, entender que não existe desenvolvimento se não tiver uma economia focada nas pessoas. Essa é a grande sacada do Ceará porque temos gente boa aqui. 

Um exemplo do potencial do Ceará é a Chamada Territórios de Futuro, em parceria com o Grupo Marquise. Explica melhor como funciona?

Um grande grupo percebeu que pode diversificar seu portfólio de incorporando esse novo conceito de negócios de impacto, com uma nova dinâmica com preocupação em resíduo, mobilidade, de fechar a conta que é atingir as metas dos ODS. Então a gente tem aí 185 negócios, representativos das cinco regiões do País, com uma concentração (maior) do Sudeste e Nordeste. No final, oito negócios do Sudeste dos 16 finalistas e que querem vir para o Estado do Ceará. Isso mostra que há uma indução, quando bem conduzida, para que empreendedores queiram fazer sentido dentro do Estado do Ceará. Um elemento super importante é que, dos 16, dois times com cearenses que hoje estão no ITA, então eles têm interesse em voltar. 

Como o empresário que entendeu a necessidade de mudança pode começar?

Quando arquitetei a In3Citi fui conversar com os empresários do estado do Ceará e pude perceber essa inquietação. Tive semana passada falando com o presidente da Federação (das Indústrias do Estado do Ceará), um grande amigo, gosto muito do Ricardo (Cavalcante) e ele me disse: Haroldo, tudo bem, mas ainda há muito caminho para que melhore a tradução de tudo o que você está fazendo. Mas isso é um exercício. Aprendi desde cedo na minha casa, meu pai me ensinava, que a gente só consegue fazer o que ver. Esse enxergar não é do ponto de vista tangível, é capacidade de abstração e você vai melhorando. Óbvio que da primeira fornada não vai sair um pão bem feito, mas você vai refinando, vai buscando os melhores ingredientes. É mais ou menos esse o desafio que eu coloco para todos esses atores que fazem negócio. O primeiro é olhar para os grandes números do planeta, que é algo exposto diariamente. Não precisa sair do Ceará para enxergar isso. Agora você não deve somente olhar a sua conta no final do dia, se seu balanço de entrada e saída fechou, você tem que se preocupar em longo prazo. Se você é um empresário que se preocupa com seu negócio em médio e longo prazo, você vai ter que parar um pouquinho e redefinir a sua posição dentro de um cenário global. Esse ingredientes estão postos. Como você vai fazer isso? Hoje ninguém faz mais nada sozinho. Um exemplo é essa chamada. Um grupo extremamente consolidado, extremamente bem resolvido, extremamente bem posicionado, de reconhecimento nacional, junto com uma startup de investimento de impacto, que é a In3Citi. Temos base tecnológica, ainda estamos fazendo o modelo de negócio, não tenho nada consolidado ainda, tenho um desafio muito grande. Eu larguei tudo para virar um empreendedor. Tinha uma super posição na Unifor, dirigindo parque tecnológico lá dentro. Tem vários atores, o Estado do ceará é muito criativo, Fortaleza tem várias mentes brilhantes. Vamos trabalhar em rede, conectado, integrado. Ninguém faz mais nada sozinho. Nós vamos trabalhar juntos, porque os problemas são do globo, são nossos.

Seu discurso é muito diferente da maioria dos empresários. Você se sente um professor sobre essa nova economia?

Eu me sinto alguém que gosta de estourar bolhas, alguém que sempre saiu da zona de conforto. Sempre busquei a excelência, sempre busquei fazer algo de diferente no Estado do Ceará. Sou filho de funcionário público, meu pai é juiz de direito, morei no Interior do Ceará. Vi a pobreza do Estado do Ceará e aquilo sempre me inquietou, sempre me causou uma provocação de que eu precisava dar respostas. Minha formação toda é odontologia, estudei matemática no mestrado e doutorado, estudei metodologia científica, hoje trabalho com bando de dados. Foi dentro da inquietação das ciências que eu busquei as respostas que eu queria para as inquietações que ainda tenho. Não me sinto professor, me sinto alguém que não se sente na zona de conforto. Se tem alguém que quer fazer alguma coisa de fato para o Estado do Ceará eu sou devoto para isso. Não sou político. Já fui presidente da Funcap, já fui conselheiro da Arce… Abri mão, tinha direito de passar oito anos, passei um ano e meio, saí. Eu queria fazer mais. Estava na Unifor, estava muito bem, mas eu quis fazer mais. Então costumo dizer que estouro bolhas. De 2017 para cá, tenho certeza que o desafio de construir um ecossistema de negócios de impacto é algo que me motiva muito. É óbvio que não tenho resposta para tudo. Não sou professor, ao contrário, eu sou um aprendiz agora. Estou buscando parceiros.