Geane Albuquerque leva o Ceará ao Oscar com “O Agente Secreto”; confira entrevista exclusiva

Com quatro indicações d'”O Agente Secreto” ao Oscar 2026, o cinema nacional projetou o trabalho de artistas cearenses no cenário mundial. Entre eles, está Geane Albuquerque. Em entrevista exclusiva, ela reflete sobre a indicação, a força do coletivo e o caminho que a levou dos palcos do Ceará à maior premiação do cinema

Sâmya Mesquita
samyamesquita@ootimista.com.br

Quando o anúncio das indicações d’O Agente Secreto ao Oscar 2026 começou a sair, a atriz Geane Albuquerque não imaginava que aquele instante marcaria uma virada tão simbólica em sua trajetória. Cearense forjada no teatro de grupo, viu o cinema nordestino cruzar fronteiras e chegar à lista da Academia: um reconhecimento que carrega o peso de talentos cada vez mais presentes no cenário internacional.

“A sensação foi de um tempo se abrindo. Não só pela indicação em si, mas por tudo o que ela carrega. O Agente Secreto é um filme muito enraizado de memória, político, e ver isso atravessar fronteiras e chegar a um lugar como o Oscar é muito emocionante, mas também dá muito orgulho da responsabilidade simbólica que esse momento representa para o Brasil”, explica Geane em entrevista exclusiva ao Tapis Rouge.

Elisângela, quase cearense

Em O Agente Secreto, Geane interpreta Elisângela, funcionária de uma repartição pública que acabou se tornando uma das personagens mais comentadas do filme, especialmente pelos momentos de humor. A atriz atribui esse efeito direto à vivência no teatro especialmente fazendo parte do Inquieta Cia., coletivo teatral com 15 anos de história. “O humor da Elisângela nasce muito da observação. No teatro a gente aprende cedo que o riso não vem apenas da piada explícita, mas da escuta, do tempo certo, do detalhe”, explica. Para ela, o maior desafio foi evitar o estereótipo. “Personagens como ela existem em muitos lugares, e o desafio foi não transformá-la em tipo, mas mantê-la viva, contraditória, humana. O humor aparece quase como consequência da situação, nunca como objetivo”, observa.

A construção da personagem também foi atravessada pela forma de direção de Kleber Mendonça Filho, marcada pela abertura ao improviso e pela atenção às ações em cena. Essa foi a primeira experiência de Geane em um longa-metragem, e o que mais a surpreendeu foi a precisão do set. “Grandes sets poderiam ser caóticos, mas o que a gente vê ali é um rigor muito grande, uma clareza de visão impressionante. O Kleber dirige com uma escuta muito afiada, sabe exatamente o que quer, mas também cria espaço para o ator existir dentro da cena”, conta. Para uma atriz vinda do teatro, essa dinâmica foi especialmente estimulante. “Você sente que está participando de uma construção autoral, e não apenas executando uma função”, afirma.

O impacto do filme já ultrapassou as salas de cinema e ganhou as ruas, com memes e fantasias de Carnaval inspirados em Elisângela – especialmente por sua caracterização, acentuada por um cabelo típico da época. Geane vê esse movimento como um dos maiores elogios que uma personagem pode receber. “Deixa de ser só ficção e passa a circular nas ruas, no cotidiano e nos corpos. O cabelo, a roupa e a postura carregam memória, contexto histórico, tempo. Ver essa apropriação popular é perceber que Elisângela foi reconhecida como alguém possível, familiar”, reflete.

Trabalho coletivo

Conforme a atriz, a indicação de Melhor Direção de Elenco desloca o olhar do individual para o coletivo e dialoga profundamente com sua própria formação. “Existe algo muito bonito nessa categoria, que é esse deslocamento do foco individual para o coletivo. Eu sou uma atriz cearense, formada em instituições públicas, atravessada por grupos, processos e encontros. Estar ali, representando um elenco tão diverso e tão preciso, reforça a ideia de que o cinema é um organismo vivo, feito de muitas presenças que se sustentam mutuamente”, ressalta. Ela também destaca o trabalho do diretor de elenco Gabriel Domingues como fundamental para o resultado final.

A trajetória que levou Geane até esse momento começou de forma decisiva no Instituto Federal do Ceará (IFCE), onde cursou Licenciatura em Teatro. Foi ali que ela fez a escolha consciente de transformar o palco em profissão. “No IFCE eu decidi que o teatro seria minha profissão, e isso foi importante: escolher. A graduação me deu o compromisso com o fazer artístico. Foi um espaço para pesquisar, experimentar, observar e construir pensamento crítico, além de uma bagagem de vida muito forte com as trocas humanas que nasceram ali”, relata.

A artista vive um momento que sintetiza passado e futuro. O reconhecimento internacional de O Agente Secreto não apaga o percurso construído nos palcos cearenses; ao contrário, o reafirma. E, ao ocupar esse novo espaço de visibilidade, a atriz leva consigo não apenas uma personagem marcante, mas toda uma história de formação pública, trabalho coletivo e afirmação cultural que ecoa muito além do Ceará.

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Indicações

O longa-metragem foi indicado ao Oscar 2026 nas seguintes categorias: Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator para Wagner Moura e Melhor Direção de Elenco.

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