Por Gabriel Amora
amoragabriel@ootimista.com.br
Nascemos para sofrer, mas é no percurso da vida que aprendemos a negociar com a dor. Entre a paz primordial do colo materno e o silêncio da morte, transitamos por um terreno morno, onde pequenas felicidades ecoam lembranças da infância enquanto carregamos o risco constante da decepção. É exatamente nesse intervalo frágil que “Sorry, Baby”, primeiro longa dirigido por Eva Victor, situa Agnes, uma jovem que tenta reorganizar sua existência após atravessar um acontecimento devastador. Sua vida só volta a se mover quando uma amiga do passado reaparece, despertando nela a percepção de que seguir adiante é inevitável, mesmo quando isso parece exigir mais do que ela tem para dar.
O impulso de seguir em frente, tão essencial na trajetória de Agnes, reflete diretamente a origem da narrativa. Durante o isolamento provocado pela pandemia, Eva assistiu a muitos filmes em casa como forma de companhia e de enfrentamento da solidão. Nesse período, começou a escrever sobre uma mulher lidando com um trauma, transformando a escrita em uma maneira de processar sua própria dor, derivada de um abuso sexual que nunca havia compartilhado. A partir desse roteiro, Victor transformou a história em “Sorry, Baby”, que, depois de passar por Cannes e pela Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, chega aos cinemas brasileiros carregando toda essa força confessional.
É e com esse impulso profundamente humano que a cineasta constrói uma narrativa de feridas expostas, organizada em uma cronologia fragmentada que reflete a própria desordem emocional de Agnes. A diretora convida o espectador a acompanhar, passo a passo, o esforço da personagem para não sucumbir, revelando como o trauma, longe de ser suavizado, é reelaborado por meio da comédia – não como fuga irresponsável, mas como o único ângulo possível para enxergar o mundo sem ser esmagada por ele. Por isso, sofremos com sua hesitação inicial, ao mesmo tempo em que sorrimos diante das soluções improváveis que ela encontra para continuar existindo. A sequência em que atua como jurada é exemplar desse movimento: começa com humor escancarado e, quase imperceptivelmente, volta ao drama que ela tenta contornar, sintetizando a própria lógica emocional do filme.
Essa alternância constante entre riso e sofrimento revela o domínio de Eva Victor sobre o material que criou. Dirigindo, escrevendo e protagonizando o longa, ela organiza cada movimento emocional como parte de um mesmo organismo, em que mise-en-scène, montagem e atuação conversam de maneira orgânica. Alguns elementos de horror surgem para intensificar o incômodo da personagem, enquanto a montagem (clara em suas divisões temporais) sustenta o ritmo fragmentado de uma mente em reconstrução. E o texto, vibrante mesmo quando trata de amargura, transforma “Sorry, Baby” em uma obra que espelha os contrastes que buscamos na arte quando tentamos, nós mesmos, sobreviver àquilo que nos rasga.
Ao final, o filme não oferece fórmulas nem atalhos para a felicidade, porque sabe que nenhum processo de cura funciona assim. Em vez disso, afirma o cinema como um lugar de reconhecimento, onde nossas feridas podem ser vistas com outra luz. “Sorry, Baby” funciona como um lembrete de que o sofrimento não nos define por inteiro; ele apenas marca o caminho até que o próximo dia, inevitavelmente, tente ser mais gentil que o que acabou de passar.



















