Depois de conquistar plateias pelo País, Letícia Sabatella e Daniel Dantas retornam a Fortaleza com “Ilíada”, montagem que tem renovado o interesse pelo épico de Homero. A dupla fala com exclusividade ao Tapis Rouge sobre o espetáculo que chega unindo tradição, pesquisa e potência cênica num encontro para celebrar a força da palavra e da memória cultural
Sâmya Mesquita
samyamesquita@ootimista.com.br
Numa época em que as telas parecem atropelar qualquer pausa para contemplação, é curioso — e até emocionante — ver plateias brasileiras lotando teatros para mergulhar em versos que nasceram milhares de anos atrás. É essa experiência que Letícia Sabatella e Daniel Dantas têm levado a diversas capitais com a montagem dos Cantos 1 e 20 da “Ilíada”, de Homero, que chega a Fortaleza neste sábado (13) e domingo (14), como parte do projeto CUCO – Culturas Conectadas. Para o público cearense, a dupla retorna não apenas com um espetáculo, mas com uma celebração da força da palavra e da tradição que moldou a base do pensamento ocidental.
A montagem atual nasceu em 2022, quando os atores apresentaram os cantos na abertura do 32º Festival de Inverno da Universidade Federal do Paraná (UFPR). O espetáculo faz parte do repertório da Cia. Ilíadahomero de Teatro, fundada em 1999 pelo diretor Octavio Camargo e dedicada exclusivamente às encenações da “Ilíada” e da “Odisseia” na tradução clássica do maranhense Manoel Odorico Mendes. Para Letícia Sabatella, carregar essa história pelo País é um prazer raro. “Somos embaixadores deste projeto lindo que começou com a pesquisa de uma vida. E temos lotado teatros de todo o Brasil, levando cultura, diversão, poesia, reflexão, conversas incríveis com a plateia que sempre nos ensina muito”, diz a atriz, lembrando que a montagem já veio a Fortaleza, em agosto do ano passado.
Além do clássico
Em cena, Dantas e Sabatella conduzem o público por dois momentos centrais da obra: o início das tensões internas entre os gregos, quando Aquiles abandona o campo de batalha, e o retorno furioso do herói após a morte de Pátroclo, seu amigo mais querido. A escolha desses cantos cria um arco emocional que revela tanto a dimensão épica quanto a profundidade humana do poema. Daniel Dantas conta que essa complementaridade surgiu de forma quase instintiva. “A gente brinca que algumas escolhas foram feitas pelos deuses do teatro, não por nós. Trabalhamos o tempo todo separadamente e foi puro acaso o fato dos dois Cantos serem ‘complementares’. O acaso juntou tudo, não nós”, comenta o ator.
O impacto da linguagem é também uma das grandes marcas do trabalho. A tradução de Odorico Mendes, com ritmos próprios e epítetos vigorosos, conquistou Dantas logo no início, e transformar esse universo verbal em experiência viva foi um desafio artístico que ele abraçou com entusiasmo. “A tarefa de tornar a tradução do Odorico mais acessível era o maior desafio e o maior prazer. A imagem que eu sempre uso é que todas aquelas palavras, imagens, os epítetos todos, eram uma onda imensa, onde era possível afogar, sumir. Ao mesmo tempo, se eu conseguisse surfar aquela onda… era uma baita onda”, reflete.
Para Letícia Sabatella, a obra também cumpre uma função formadora, aproximando arte e educação. A atriz ressalta que o espetáculo dialoga tanto com quem já conhece Homero quanto com quem nunca teve contato com o poema. “Estamos falando de uma obra fundamental da cultura ocidental, que carrega uma linguagem poética e rítmica bela, com medos, dores, alegrias e desejos que nos pertencem e nos revelam. Daniel e eu conversamos com a plateia, situamos e traduzimos o enigma que a plateia termina sempre por decifrar e se surpreende com sua inteligência, se deliciando com a beleza, criatividade do texto e da encenação”, explica. Para ela, revisitar clássicos é uma das formas de compreender o presente com mais profundidade. “Esta comunicação é matéria que nos alimenta de coragem, de perseverança, de lucidez”, completa.
Arte que toca a alma
“Ilíada”, com temas de honra, fúria, luto e amizade, atravessa também as experiências pessoais dos artistas. Sabatella reconhece que todos esses elementos dialogam com a própria trajetória. “Sou uma artista de 54 anos, com muitas experiências e lutas na bagagem. Tive apoio, desafios, empecilhos e empurrões, negativas, boicotes e oportunidades! Enfim, vivemos esta batalha pela sobrevivência. A construção é incansável e vejo muita consistência nas minhas escolhas pelo que consegui alcançar enquanto a artista que sou hoje”, confessa.
Daniel Dantas destaca o modo como a peça tem sido recebida ao longo da turnê. Para ele, o Brasil revela, no contato com a obra, uma unidade surpreendente. “Cada cidade nos recebe a seu modo. Fortaleza, que eu me lembre, foi das mais acolhedoras. Todas as cidades são únicas, e nós, Letícia e eu, quase sem perceber, é que nos adaptamos a elas. Mas o que me impressiona são as semelhanças! A surpreendente e diversa unidade entre partes de um país tão rico e vigoroso e criativo que são vários e, ao mesmo tempo, felizmente, é só um. A recepção calorosa que a gente tem tido é muito brasileira”, afirma.
Ele também vê na montagem uma resposta à necessidade de ampliar o repertório cultural num momento de discursos acelerados e simplificados. “Precisamos aumentar nosso repertório e, ao mesmo tempo, nossa intimidade com a língua. Quanto menor nosso trato com a língua, mais indefesos ficamos. Nesse sentido, conversar com o público como fazemos, no início, no meio e no final da apresentação é fundamental. Precisamos de comédia, drama, farsa, tragédia, epopeia, de tudo que eduque e reeduque o público e nós mesmos, atores e diretores e autores e etc”, completa.
serviço
Espetáculo “Ilíada”
Neste sábado (13), às 20h, e domingo (14), às 18h
No Teatro Brasil Tropical. Av. da Abolição, 2323 – Meireles
Ingressos entre R$ 25 e R$ 150, mais taxas no Sympla
Mais: @teatrobrasiltropical no Instagram



















