Estreia de fevereiro, “A História do Som” tem qualidade técnica, mas pouca ousadia narrativa

Quase um ano após impressionar o público em Cannes, “A História do Som” chega aos cinemas brasileiros em fevereiro, despertando interesse dos fãs da dupla de atores

Gabriel Amora 

amoragabriel@ootimista.com.br

No último Festival de Cannes, “A História do Som”, de Oliver Hermanus, dividiu opiniões. O mesmo diretor sul-africano por trás de “Living” (2022), sucesso no cinema independente, trouxe uma jornada que encantou alguns e deixou outros desconectados, considerando a narrativa fria diante da densidade que um romance assim exigia. Mesmo depois da exibição na 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, a discussão continuou, e agora os brasileiros finalmente podem conferir um filme que, embora ignorado em muitas premiações, vem chamando atenção entre os lançamentos de fevereiro.

A trama acompanha Lionel, vivido por Paul Mescal, um estudante de música talentoso, que conhece David, interpretado por Josh O’Connor, em um conservatório. A conexão entre eles surge do amor compartilhado pela música folk, e essa afinidade leva a uma viagem improvisada pelo interior do Maine, em busca de canções tradicionais. A experiência transforma profundamente Lionel, enquanto o vínculo inesperado, o romance contido e a própria música moldam a trajetória de forma sutil.

Paul Mescal confirma aqui toda a força de carreira, acumulando trabalhos expressivos como Aftersun e Hamnet, filme premiado que disputa o Oscar 2026. Ele interpreta um personagem sensível e inquieto, cuja agonia persiste mesmo nos momentos de alegria, fazendo o público torcer por ele apesar das dificuldades. Josh O’Connor, mais ativo e expansivo, conduz a narrativa quando Mescal permanece introspectivo. A presença do ator é essencial para que a história flua, evidenciando a força do vínculo que sustenta a dupla.

O grande desafio do longa, no entanto, está na contenção do romance. Apesar do talento dos atores, o roteiro evita explorar a intensidade do vínculo afetivo, dando à música o papel central da narrativa. Enquanto os personagens demonstram desejo e energia, a história se mantém contida, transformando o relacionamento em uma amizade profunda, mas que não pulsa como um romance pleno. Esse cuidado faz com que o espectador sinta curiosidade e empatia, mas também uma leve frustração por não se envolver totalmente com o sentimento que deveria ser o coração do filme.

Visualmente, a obra é impecável. Cada cena combina elegância e detalhamento, com camadas que revelam intimidade e sutileza nas interpretações. Ainda assim, falta calor emocional. A relação entre os protagonistas parece contida demais, criando uma tensão constante entre o esplendor estético e a ausência de entrega afetiva. No fim, “A História do Som” encanta pela sofisticação e sensibilidade técnica, mas deixa aquele gosto de que poderia ter pulsado mais no coração do romance que pretende contar. (Por Gabriel Amora)

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