O novo filme de Park Chan-wook começa como uma comédia de erros, mas logo revela ser uma reflexão sobre até onde estamos dispostos a ir em busca do sucesso
Gabriel Amora
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Fazer cinema assumidamente político não é fácil. A linha que separa comentário de crítica é tão tênue que qualquer tropeço pode tornar a experiência cansativa, mesmo para quem aprecia a temática. Filmes de Kleber Mendonça Filho, por exemplo, funcionam melhor quando o universo narrativo assume esse viés, especialmente quando os personagens com os quais nos conectamos são ambíguos, como em “Bacurau” ou “O Agente Secreto”. Já em “A Única Saída”, novo filme do sul-coreano Park Chan-wook, que chegou aos cinemas brasileiros nesta semana, o diretor leva essa tensão a um território mais direto, colocando o espectador diante de escolhas extremas ao acompanhar um homem pressionado pelo desemprego e pela frustração, despertando medo e, ao mesmo tempo, uma estranha cumplicidade com ações moralmente questionáveis.
O enredo começa com a demissão do protagonista de uma empresa de papel, onde trabalhou por 25 anos. Sem alternativas e após longo período à procura de emprego, ele encontra uma solução radical: eliminar a concorrência. Aos poucos, o filme revela o colapso de uma rotina cuidadosamente construída. Sem tomar partido, a obra mostra que cada detalhe é carregado de dor, seja a venda dos cachorros, o cancelamento da Netflix ou a mudança de hábitos e costumes. Tudo isso ilustra a passagem de uma vida confortável para um cotidiano marcado pela insatisfação, enquanto cada gesto prepara o público para a decisão extrema que surge como inevitável. Desse modo, a narrativa consegue equilibrar humor e tragédia, lembrando “The Office”, ao mesmo tempo em que mantém uma tensão constante, já que torcemos por alguém cuja conduta desafia qualquer parâmetro moral.
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Ao mesmo tempo, o longa combina política e humanidade. Valoriza a criatividade, as relações pessoais e evidencia o que se perde quando o individualismo predomina em meio ao capitalismo selvagem. A primeira vítima, antes que o protagonista se transforme em um slasher dos anos 1980, é ao mesmo tempo cômica e melancólica, trazendo profundidade ao momento. Essa atenção aos detalhes de montagem e mise en scène demonstra que cada aparente vitória carrega camadas de dor, ironia e ambiguidade, enquanto a mistura de comédia e reflexão confere densidade à narrativa e mantém o público atento a cada cena.
Como lembrava Éric Rohmer, todo filme é um documento de sua época. Ao lado de “O Agente Secreto”, “A Única Saída” detalha os dilemas mais sensíveis do seu país, que não perdem o peso mesmo após a produção não ser indicada ao Oscar de Melhor Filme Internacional – cujo anúncio ocorreu na última quinta-feira (22). Cada obra traz consigo os problemas e desafios nacionais, mostrando como política, economia e cultura moldam decisões e, por vezes, alteram comportamentos. O filme revela de forma contundente até onde somos capazes de ir quando chegamos à beira do abismo, provando que o cinema consegue refletir com inteligência e sensibilidade os tempos e os conflitos em que vivemos.



















