Erasmo Carlos é uma das atrações do projeto “Férias na PI” neste sábado (11). Em entrevista exclusiva, ele fala sobre sua carreira, sobre a atual música brasileira e sobre suas grandes inspirações

Naara Vale
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Aos 78 anos, Erasmo Carlos é um daqueles ídolos que atravessa gerações, que se reinventa a cada trabalho e vê também seu público se renovar. Ícone da Jovem Guarda ao lado de Roberto Carlos e Wanderléa, o Tremendão, como ficou conhecido à época, tem sua trajetória atrelada sempre ao rock e ao iê-iê-iê dos anos 1970, mas a sua produção musical vai muito além.

Com mais de 600 composições no currículo, ao longo da carreira, Erasmo transitou pela bossa nova, MPB e, mesmo que mais timidamente, pelo samba. Prova disso é o projeto que lançou em dezembro passado, o EP “Quem Disse Que Eu Não Faço Samba?”, reunindo sete composições suas dentro do gênero. Seu último álbum, “Amor é Isso”, mostra, no entanto, a essência do eterno roqueiro romântico e suas baladas com letras que se eternizam no tempo.

É este repertório – além dos seus grandes sucessos – que Erasmo apresenta neste sábado (11), no palco do projeto “Férias na PI”, no Aterro da Praia de Iracema, promovido pela Prefeitura de Fortaleza. A noite conta ainda com show da cantora e compositora Marina Lima, além da Camerata de Cordas da UFC (16h), Mona Gadelha (17h30) e Thiago Pethit (19h). Toda a programação é gratuita.

O Otimista conversou com Erasmo, que falou sobre sua carreira, da nova geração da música brasileira e de suas inspirações. Confira!

O Otimista – Você vem da matriz do rock and roll, nos anos 60 passou pela Jovem Guarda, flertou de perto com a MPB e a Bossa Nova e, agora, no final de 2019, lançou um disco só de samba. Como foi essa experiência?

Erasmo Carlos –Eu sempre lanço disco de carreira, acho que todo mundo, né? Discos de carreira e disco de projetos. Disco de projetos são coisas que você bola para fazer, novidades. Esse, na verdade, não é disco, é audiovisual. Não vai sair disco físico, quem quiser ver, ou acessa Youtube, que tem a imagem, ou acessa só a parte musical em alguma plataforma digital. Entrei nesse projeto como uma curiosidade, cantando os meus sambas que eu sempre fiz. Sempre fiz samba e nunca ninguém reparou porque sempre me levaram para o lado do rock.

O Otimista – Já tinha essa intimidade com o samba, mas ficava meio escondido atrás do rock?

Erasmo – Desde o meu primeiro disco que eu gravo samba. Inclusive, a primeira música que eu fiz na minha vida foi um samba que o Roberto Carlos cantava quando era crooner da boate Plaza, no Rio de Janeiro. Essa música está nesse projeto que eu lancei agora, chama “Maria e o Samba”.

O Otimista – Você tem feito parcerias com músicos da nova geração, de diferentes vertentes, como Marcelo Camelo e Emicida. Como é a sua relação com essa nova geração? Eles influenciam a sua música de alguma forma?

Erasmo – Sempre. A gente se encontra pela vida, bate um papo, começa a encontrar ideias que convergem e daí vem a curiosidade mútua de dividir um trabalho. Então acaba acontecendo porque, geralmente, as admirações são mútuas. Na minha vida nunca aconteceu assim por oportunismo, sabe, por nada. Sempre quando acontece é porque eu tenho afinidade com a pessoa. Então, a gente acaba chegando à conclusão de fazer uma música juntos.

O Otimista – Como está a produção musical atual?

Erasmo – É um momento muito confuso por excesso de ritmos e de tendências e tudo mais. Tá todo mundo meio perdido, querendo saber como lança os seus produtos. Isso é no mundo inteiro. A internet levou a música para um caminho que ninguém esperava, então, ainda está todo mundo esperando para ver no que vai dar.

O Otimista – Mas tem encontrado coisas boas na cena musical?

Erasmo – Coisas boas sempre terão, mas, geralmente, o que é mostrado, eu não levo muito a sério não. Porque não me arrepia. Música tem que me arrepiar, tem que mexer com os meus sentimentos e eu não tenho encontrado muita música assim.

O Otimista – Você é apontado como um dos maiores e melhores compositores da música brasileira, com letras que marcaram gerações. Ainda temos bons compositores no Brasil?

Erasmo – Encontrar bons compositores, você encontra. Claro que tem muita gente boa por aí, mas não tem oportunidade, né? As televisões não dão oportunidades para quem tá fazendo música, só dão oportunidade para os sucessos populares. As rádios só tocam os sucessos populares, então, quem faz boa música, quem necessita de espaço para mostrar os seu trabalho, não tem esse espaço para mostrar.

O Otimista – Você segue compondo com o mesmo gás de antigamente?

Erasmo – Claro, é o que eu sei fazer. É a minha vida, eu tô fazendo o que eu gosto, então eu faço com o maior apego possível.

O Otimista – O que te ainda te inspira?

Erasmo – O amor sempre, mas continuo me inspirando no que sempre me inspirou: no dia a dia, nas coisas que eu vejo no jornal, que eu vejo na televisão, os filmes que eu vejo, os livros que eu leio. O que acontece com os meus amigos, comigo, tudo isso acaba virando música.

O Otimista – Com 78 anos e tanta coisa já alcançada, quais sonhos ainda te movem? O que você ainda deseja realizar?

Erasmo – Só manter o seu prestígio, manter sua produção em um nível razoável, já é uma coisa muito difícil, né? Eu tenho tudo o que eu imaginei, não penso mais nada não, só agradeço.

CURIOSIDADE:

Tremendão: Erasmo ganhou esse apelido na época do Jovem Guarda, a partir do lançamento de uma grife chamada Tremendão, que tinha a sua assinatura e da qual era garoto propaganda. O apelido, segundo Erasmo, quer dizer cara grande, zoador, na gíria paulista. Na época, foram criadas também as grifes Calhambeque, do Roberto Carlos, e a Ternurinha, da Wanderléa.

Serviço:
Férias na PI – Show com Erasmo Carlos e Marina Lima
Quando: sábado (11), a partir das 16h
Onde: Aterro da Praia de Iracema.
Atrações: Camerata de Cordas da UFC (16h), Mona Gadelha (17h30), Thiago Pethit (19h), Marina Lima (20h30), Erasmo Carlos (22h).
Acesso gratuito.