Estreando na ficção científica, Gore Verbinski apresenta “Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra”, que chega hoje (23) aos cinemas. Na obra, o cineasta transforma o futuro em uma mistura de humor, crítica e desconforto
Gabriel Amora
amoragabriel@ootimista.com.br
Gore Verbinski é um diretor que merece atenção, ainda que sua carreira seja marcada por longos intervalos entre um projeto e outro. Responsável por títulos como “O Chamado” (2002), “Rango” (2011), “O Cavaleiro Solitário” (2013) e pela trilogia “Piratas do Caribe” (2003-2007), ele construiu uma filmografia guiada por riscos criativos e por uma mistura incomum de gêneros. Em “Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra”, uma das estreias da semana, a identidade do cineasta volta a aparecer em uma obra que poderia facilmente cair no didatismo de produções como “Black Mirror”, mas encontra um caminho mais inventivo ao discutir um futuro distópico sem perder o senso de humor.
A trama acompanha um homem vindo do futuro, que recruta um grupo de pessoas comuns para impedir a destruição do planeta por uma inteligência artificial poderosa. A premissa já carrega um tom quase absurdo, o que ajuda a sustentar o humor da narrativa. Esse viajante do tempo foge completamente da figura heroica tradicional da ficção científica, surgindo como alguém ansioso, inseguro e constantemente assustado com as próprias possibilidades de fracasso. Em vários momentos, essa postura lembra Jack Sparrow, vivido por Johnny Depp em “Piratas”, um personagem que simula controle, mas nunca deixa de agir por instinto de sobrevivência.
A partir daí, o filme encontra força na dinâmica entre esse protagonista e o grupo que o acompanha. O elenco reúne rostos conhecidos do cinema contemporâneo e alguns deles surgem em registros inesperados, como Juno Temple (“Venom: A Última Rodada”, 2024), que assume uma presença quase irreconhecível em cena e se destaca justamente pela forma como transita entre o riso e o desconforto. Em determinado momento, a narrativa interrompe seu fluxo para observar, pelo ponto de vista da personagem, a forma como os Estados Unidos lidam com tragédias recorrentes em escolas, o que adiciona uma camada mais amarga ao tom geral.
Essa conexão emocional com os personagens nasce de um roteiro que, em boa medida, respeita seus arcos individuais e os trata como pessoas comuns diante de um cenário extremo. Há medo, hesitação e contradições constantes, o que facilita a identificação e também provoca impaciência em alguns momentos, já que suas decisões nem sempre são acertadas. Ainda assim, essa construção sustenta a química do grupo e reforça a sensação de conjunto, algo que Verbinski já havia demonstrado dominar em “Piratas”, quando o equilíbrio entre personagens diferentes era essencial para o funcionamento da narrativa.
No conjunto, o filme se afirma como uma mistura de comentário pessimista sobre o futuro e sátira atravessada por violência e solidão, mas sempre filtrada por um humor estranho, por vezes desconfortável. Mesmo quando o texto escorrega em explicações excessivas, as imagens mantêm inventividade suficiente para sustentar o interesse. É uma obra que oscila entre o caos e o controle, entre o riso e a inquietação, e encontra justamente nessa instabilidade a sua principal força. No fim, permanece uma sensação contraditória, como se ainda restasse a esperança de alguma forma de revolução capaz de nos salvar do futuro. Afinal, amar o próximo é tão demodê, como já dizia Renato Russo em tempos não tão distantes dos nossos.
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Filme “Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra”
Estreia nesta quinta-feira (23) nos cinemas
Aventura, Comédia
Classificação indicativa
16 anos
Duração: 2h15


















