Instituto Sérvulo Esmeraldo está realizando projeto minucioso para garantir a preservação e difusão dos arquivos do artista, considerado um dos maiores nomes da arte contemporânea. Dodora Guimarães, esposa de Sérvulo, está à frente da iniciativa e deu detalhes sobre o trabalho

Danielber Noronha
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Poeta das linhas, Sérvulo Esmeraldo saiu do Crato, no Cariri cearense, para conquistar o mundo – lugar que foi também seu ateliê. Ele faleceu em 2017, aos 88 anos, mas deixou grande legado nas diversas linguagens por onde transitou. Tal feito vem acompanhado de inúmeros registros, documentos, recortes e projetos que, juntos, podem recontar a trajetória do artista. É com intuito de arrojar e catalogar esses passos que o Instituto Sérvulo Esmeraldo (ISE) se dedica, desde 2019, a uma operação que ganhou o nome de Projeto de Implantação do Acervo Documental de Sérvulo Esmeraldo, que busca organizar, preservar, divulgar e sistematizar as informações num banco de dados alocado no site do ISE, ampliando a acessibilidade dessas informações ao público em geral. A missão é capitaneada por Dodora Guimarães, presidente do Instituto e curadora do artista, com quem foi casada por 36 anos. A conclusão do projeto está prevista ainda para este mês, com a abertura ao púbico do Atelier Sérvulo Esmerado.

A etapa de trabalho atual, atualiza Dodora, se debruça sobre o período em que o artista residiu em solo cearense. “Trabalhamos com uma equipe de cinco profissionais, comandada por uma restauradora com formação em química, com dois profissionais da área da digitalização, um fotógrafo e um pesquisador”, detalha. “Este trabalho sou eu. Mergulhada toda […] Este acervo documental tem a minha colaboração desde muito tempo. Sou muito feliz e agradecida por ter energia e saúde para levar adiante este acervo fundamental para a história da arte cearense, brasileira e universal”, vibra Dodora. Ao O Otimista, ela falou sobre os achados e sobre como quer inspirar famílias a fazerem a mesma coisa pelo legado de outros artistas.

 O Otimista – Como nasceu a ideia de criar este acervo? Está sendo feito um catálogo das ideias de Sérvulo, que vão além das obras?

Dodora Guimarães – Este acervo nasceu com o artista Sérvulo Esmeraldo, quando a sua mãe, dona Zaíra Cordeiro Esmeraldo, guardou o “Livro de Recordações” de sua primeira exposição individual realizada, em 1951, em sua cidade natal, Crato, no Ceará. Com a preservação dos convites e catálogos de exposições que ele tomava parte ou realizava (a partir de 1949), dos recortes de imprensa noticiando seus feitos, com o cuidado no trato de estudos de obras, matrizes de gravura, fotografias, iniciativa também de dona Zaíra, levada a cabo por Sérvulo Esmeraldo ao longo de sua vida. Quando conheci o Sérvulo, já encontrei este acervo bem encaminhado. Daí a minha grande responsabilidade com a sua conservação e difusão. O projeto visa justamente isso, a preservação, a sistematização e a divulgação desse legado que, juntamente com as obras de arte realizadas por Esmeraldo contam a sua história, com todas as evidências.

 O Otimista – Em qual fase está o trabalho e quantos profissionais estão envolvidos diretamente nesta missão?

Dodora – Este acervo documental soma muitos arquivos, e sabe-se que arquivo é uma coisa viva, em constante ampliação. A etapa em que trabalhamos, que compreende sobretudo o período cearense do artista, está em fase de conservação preventiva e de digitalização. Trabalhamos com uma equipe de cinco profissionais, comandada por uma restauradora com formação em química, com dois profissionais da área da digitalização, um fotógrafo e um pesquisador. 

 O Otimista – Há previsão de quando deve ser finalizado o “inventário”?

Dodora – Acho que nunca. Sérvulo Esmeraldo foi um trabalhador que investigou múltiplas linguagens. Todos os dias encontro anotações, projetos, textos, indícios de novas obras — é impressionante. Ele tinha dificuldade de dormir, então trabalhava também à noite. E durante o dia cumpria uma rotina muito organizada. E, como ele era rápido e o seu raciocínio ágil, produziu muito. Esclarecendo, também, que ele era muito exigente. E mesmo no último ano, quando estava com a saúde muito comprometida, trabalhou até o final. Teremos ainda muito trabalho pela frente.

 O Otimista – Não só como curadora e esposa, mas, também como grande engajada no universo artístico e cultural, qual a importância de realizar este trabalho de resgate?

Dodora – Não se trata de resgate, mas de preservação, de continuidade. Sempre trabalhamos com os olhos na história. Então, para mim, esta é uma missão que escolhemos com amor e respeito. Tudo o que fazemos no Instituto Sérvulo Esmeraldo é com alegria e paixão. Esta é a nossa marca.

 O Otimista – Agora pela visão da Dodora companheira de vida de Sérvulo: como é para a sra. participar deste trabalho? Quais sensações lhe traz?

Dodora – Este trabalho sou eu. Mergulhada toda. Quando juntamos nossas vidas, iniciamos de fato uma vida em comum. Desde então, acompanhei a sua vida profissional, mesmo quando exerci outras atividades, envolvida com compromissos da minha carreira profissional, acompanhei o trabalho do Sérvulo. Este acervo documental tem a minha colaboração desde muito tempo. Sou muito feliz e agradecida por ter energia e saúde para levar adiante este acervo fundamental para a história da arte cearense, brasileira e universal. Estamos falando de um artista cidadão do mundo. Bravo, corajoso, provocador.  

O Otimista – No entender da sra., quais portas podem se abrir a partir deste catálogo no âmbito das artes?

Dodora – As portas do conhecimento, da pesquisa, do engajamento de outras instituições em torno do nosso trabalho, ou o surgimento de outras iniciativas similares. A ideia da criação do Instituto partiu do próprio Sérvulo, quando nos mudamos para esta casa que hoje é a nossa sede. Que eu acatei de imediato. E o propósito era justo a preservação do seu acervo.  E devo dizer que para concretizar este propósito nos inspiramos no Instituto de Arte Contemporânea [IAC], que agora completa 25 anos preservando acervos de artistas e arquitetos brasileiros. Quem sabe nós também inspiramos outros artistas ou seus familiares a fazerem o mesmo? Quem conta um conto, acrescenta um ponto.

O Otimista – Ao fim do processo, o material poderá ser acessado pelo público por meio de exposição ou através do próprio Instituto Sérvulo Esmeraldo?

Dodora – Este trabalho oferece material para exposições, publicações, documentários, estudos, pesquisas, seminários, para um conjunto de ações de várias ordens. Ao final desta etapa, o acervo poderá ser apreciado e estudado por pesquisadores na Reserva Técnica, ou ser acessado também no site do Instituto Sérvulo Esmeraldo.

O Otimista – Além disso, eles poderão também conhecer mais de perto a trajetória dele e até mesmo outras obras e linguagens trabalhadas por ele?

Dodora – Sim. O Instituto Sérvulo Esmeraldo existe para isso. Mantemos exposições permanentes de sua obra no ISE em Fortaleza, e trabalhamos na organização de publicações, edições e exposições da obra dele com as galerias que o representam, museus e outras instituições culturais. A nossa dinâmica é manter viva a sua obra, a sua memória.

O Otimista – Existem planos para que algum dos esboços encontrados no acervo saia do papel e seja colocado em prática, até como homenagem ao Sérvulo ou algo nesta perspectiva?

Dodora – Não esboço, mas projetos mesmo. Ele deixou muitos desenvolvidos, inclusive com maquetes. Temos negociações em andamento de alguns destes projetos. O SESC Guarulhos, em São Paulo, tem no jardim de sua fachada uma linda escultura do Esmeraldo, por ele denominada de “Árvore do Conhecimento”, com mais de 10 metros de altura, realizada após sua morte. Tínhamos o projeto com as especificações, incluindo a maquete, então foi fácil a sua realização.

O Otimista – Por fim, conversei com o coordenador de Patrimônio Histórico-Cultural da Secultfor, que comentou que o “Monumento ao Interceptor Oceânico” e o “Monumento ao Jangadeiro” estão em processo de restauro. A sra. está acompanhando os trabalhos de perto? Como está a expectativa para que elas estejam prontas?

Dodora – Fomos participados de que seria feita uma licitação para o restauro dos dois monumentos. Solicitamos à Secultfor para acompanhar este trabalho que consideramos de alta responsabilidade. Lamentavelmente, até hoje ignorada. Soubemos por terceiros que o “Monumento ao Jangadeiro” foi deslocada daquele local onde a colocaram. Infelizmente, até o momento estamos sem informações sobre o assunto. Você quer saber: eu morro de medo do que pode acontecer com estas duas esculturas tão importantes na obra do nosso Esmeraldo.