O documentário “Pelé” estreia nesta terça-feira (23), na Netflix, mostrando ao público como a genialidade do Rei do Futebol contribuiu para a formação da identidade cultural do Brasil e a influência da ditadura nos anos áureos da carreira do astro

Naara Vale
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Um registro histórico de um ícone que, para além de se tornar o único jogador de futebol a ganhar três Copas do Mundo, foi também o principal responsável por promover uma imagem positiva do Brasil no exterior em plena década de 1960, quando o país foi tomado por um golpe militar. Assim pode ser resumido o documentário “Pelé”, que estreia nesta terça-feira (23), na Netflix.

Dirigido por David Tryhorn e Ben Nicholas, o longa-metragem se propõe a ir além da compilação de gols inesquecíveis do Atleta do Século. Segundo Tryhorn, a ideia de “Pelé” foi explorar o jogador em um contexto mais amplo, fugindo da ideia de compará-lo a outros craques ou tentar discutir quem é o melhor. “O Brasil antes de Pelé e o Brasil depois de Pelé são dois países totalmente diferentes em termos de identidade cultural e nacional”, pontua o diretor, que é fluente em português e conduziu as entrevistas inéditas com o craque.

Na perspectiva do filme, a história de Pelé se confunde com a do Brasil. O documentário mostra o craque desde as suas origens humildes até se tornar um herói nacional, ainda na adolescência, aos 17 anos, ao liderar a vitória do Brasil na Copa do Mundo de 1958, na Suécia. O país começava a se tornar ali uma potência mundial do futebol e Pelé – à época jogador do Santos – o seu maior representante. A força brasileira e a fama do craque se potencializaram com nova conquista do título mundial de 1962.               Já em 1966, com uma equipe montada sob intervenção política e Pelé machucado nos primeiros jogos, o Brasil é eliminado, levando o “rei do futebol” a falar que não jogaria outro mundial. Algo que não aconteceu. Depois de ter entrado para história, em 1969, como o único jorgador a marcar 1000 gols na carreira (foram 1.283 ao todo), ele novamente liderou o tri-campeonato brasileiro, em 1970, consagrando-se um ícone mundial.  

Perspectivas

Imagens dos jogos, dos gols memoráveis e entrevistas se complementam, explicando ao público todo o contexto em que os fatos aconteceram, inclusive o conturbado cenário político da época. A produção inclui ainda imagens de arquivo e conversas com ex-companheiros de equipe, incluindo Zagallo, Jairzinho e Rivellino. A parte mais pessoal e memórias da infância são contadas em falas da irmã de Pelé, Maria Lúcia, e de seu tio, Jorge Arantes.

Em entrevista aos diretores, Pelé reflete sobre sua vida, seu país e o esporte que o tornou uma estrela. Cenas de bastidores mostram as dificuldades de deslocamento do craque, que horas usa um andador, horas se desloca em cadeira de roda. Ciente de sua magnitude, ele destaca a importência do documentário para as novas gerações. “Os jovens que nunca viram Pelé jogar, agora começam a ver e ouvir algo sobre o que Pelé fez no futebol, o que fez pelo futebol no mundo. Isso é o mais importante para mim. Tenho a oportunidade de enviar algumas mensagens e conversar com gente que nunca viu – essa gente ainda não tinha nascido quando o Pelé começou, mas eles sabem do Pelé, eu agradeço a Deus por isso”, disse o craque.Serviço: Estreia de “Pelé” (2021), de David Tryhorn e Ben NicholasQuando: terça-feira (23)Onde: Netflix