Um dos maiores fenômenos da cultura pop recente, “Stranger Things” chega ao fim como uma série que, apesar de tropeçar na repetição, consegue se redimir em seu arco de encerramento, com drama, emoção e humanidade. Todos os episódios já estão disponíveis na Netflix
Gabriel Amora
amoragabriel@ootimista.com.br
“Stranger Things” começou se apoiando fortemente na nostalgia e em tramas paralelas que se sobrepõem, repetindo, temporada após temporada, ideias já conhecidas. Nas primeiras fases, a narrativa nem sempre aprofunda os conflitos e, mesmo com personagens de personalidades distintas, as reações diante das situações seguem padrões previsíveis. Quem conhece algumas adaptações de Stephen King consegue antecipar certos desfechos, e os arcos dramáticos tendem a se repetir, criando uma sensação de déjà-vu.
Balanço
No entanto, a série demonstra cuidado crescente com o desenvolvimento da história e dos personagens à medida que avança. A terceira temporada, por exemplo, equilibra humor e tensão com a química entre Dustin, Steve e Robin, trazendo leveza em meio ao caos sobrenatural. Esse cuidado evolui na quarta temporada, quando Vecna, o primeiro vilão humanoide da série, introduz um perigo concreto. Os personagens passam a lidar com as consequências de escolhas passadas, mostrando crianças enfrentando erros e responsabilidades de forma convincente e dando mais densidade às tramas.
Temporada final
Essa progressão culmina na quinta e última temporada, que é, sem dúvida, o ponto alto da série. Mais complexa e sensível, mergulha profundamente no luto e nos conflitos dos personagens. O perdão se torna central, os arcos chegam a resoluções satisfatórias mesmo em episódios longos, e o amadurecimento aparece nos momentos mais inesperados. Efeitos visuais aprimorados e uma trilha sonora melancólica reforçam a carga emocional, tornando cada cena carregada de tensão e sentimento.
E mesmo com inúmeras falhas de roteiro – exagero em referências, explicações repetitivas e desfechos, às vezes, simplificados -, o carisma de grande parte do elenco mantém o engajamento. A temporada final consegue transformar essas limitações em pequenos detalhes diante do impacto geral, encerrando a história com coragem e profundidade. A despedida evita soluções previsíveis, privilegia o silêncio e o peso das perdas, mostrando que a força da série não está em sustos ou reviravoltas, mas na maneira como lida com a vida, a amizade e o crescimento dos heróis.
No fim, “Stranger Things” alcança um feito notável. Cada temporada preparou o terreno para o desfecho, e a season finale oferece um encerramento que emociona, combinando reflexão e dor sem apelos imediatos. O verdadeiro mérito está na construção narrativa ao longo dos anos, na coerência emocional que torna os personagens críveis e na atuação que, do choro ao sorriso, fecham a história com humanidade, deixando uma marca duradoura no espectador.
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Stranger Things
Série completa já disponível na Netflix



















