Cearense radicado em Brasília, o “rapentista” RAPdura leva a cultura nordestina ao mundo através de suas músicas, que misturam o rap com ritmos regionais. Com 22 anos de carreira, seu primeiro disco oficial concorre ao Grammy Latino 2020. Conheça a trajetória do artista

Naara Vale
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Do preconceito dos pais com o rap, que era proibido em casa, o cearense Francisco Igor Almeida dos Santos, mais conhecido como RAPdura Xique-Chico, transformou sua forma de fazer música. Para seguir ouvindo e fazendo suas rimas, ele acrescentou ao rap os ritmos nordestinos que a família gostava. A mistura entre sanfonas, triângulos, zabumbas e samplers deu tão certo que conquistou não só a simpatia dos pais, mas levou a música do “rapentista” – como gosta de se denominar – para o mundo.

Seu primeiro disco oficial, “Universo do Canto falado” (2019), está concorrendo ao Grammy Latino 2020 na categoria “Melhor Álbum de Rock ou de Música Alternativa em Língua Portuguesa”. RAPdura disputa o prêmio com Emicida, Ana Frango Elétrico, Suricato e Letrux. O vencedor de um dos principais prêmios da indústria musical será divulgado na cerimônia que acontece dia 19 de novembro.

Ciente da qualidade do seu trabalho, o rapper cearense diz que “Universo do Canto Falado” vem para coroar seus mais de 20 anos de carreira e 10 do lançamento do “Fita Embolada do Engenho – Rapadura na Boca do Povo”, uma espécie de EP lançado em 2010. Para ele, a indicação ao prêmio é a “recompensa de um trabalho original feito com muito amor e muita verdade”. “Esse é o ponto mais forte, por isso que eu acredito que a gente vai ganhar o Grammy. A gente mostra quem é o Brasil para o mundo e, ao mesmo tempo, dialoga com o mundo todo em todas as faixas”, aposta o rapper.

Trajetória

Aos 36 anos de idade, RAPadura já soma 22 de carreira. A maior parte de sua trajetória foi construída em Brasília, para onde se mudou com a família quando tinha 13 anos. A saída de Fortaleza, sua terra natal, o apresentou ao movimento hip-hop e, do break (dança característica do hip-hop) logo estava rimando nos raps e ganhando concursos.

De chapéu de palha e sandália de couro, RAPadura tem circulado pelos palcos do Brasil misturando o rap a ritmos como embolada, repente, coco, maracatu, capoeira, cantigas de roda, baião e forró, além ritmos urbanos como funk e soul. Sua trajetória conta com gravações com nomes como O Rappa, Mato Seco & Ponto de Equilíbrio, Rashid e BaianaSystem, com quem gravou a faixa “Olho de Boi”, presente no “Universo do Canto Falado”.

Além de letras com críticas sociais – algo característico do hip-hip -, muitas de suas composições fazem referência à cultura nordestina, exaltando a região para além dos estereótipos do sertanejo sofrido passando fome. Segundo ele, o que faz com suas letras é um trabalho de reeducação. “Essa coisa das pessoas não se reconhecerem é algo que vem lá de baixo, da infância, quando você coloca os heróis norte-americanos como referência, como Homem-Aranha, Super-Homem, Capitão América, e não mostra Zumbi, Maria Quitéria, não mostra nossos heróis, nossa cultura. A gente fica com isso de que o que a gente tem é feio”, explica.

O Otimista – O que te levou a Brasília ainda na adolescência e como começa a tua relação com a música?

RAPdura – A minha relação com a música começa na infância com os meus pais. Meu pai cantava e tocava e minha mãe sempre cantava cantigas antigas para mim, como coco, ciranda, essas coisas para me ninar na rede. Minha família se mudou para o Distrito Federal por conta de melhorias mesmo, a velha história nordestina do êxodo de tentar uma vida melhor, de tentar uma escola melhor, educação melhor, emprego melhor, uma melhoria de vida. No DF foi onde eu conheci o hip-hop através do break. Eu comecei dançando e depois fui pro rap e daí nunca mais parei.

O Otimista – Na adolescência você já começou a compor também?

RAPdura – Comecei a compor com 13 anos e já ganhei meu primeiro concurso de rap com 13 anos. Foi a minha segunda apresentação e eu era o único moleque que rimava na época.

O Otimista – Você também morou em Salvador?

RAPdura – Eu me apaixonei por uma preta baiana e fui morar em Salvador, morei de 2007 e 2012. Me apaixonei pela cultura, pelo povo e acabei ficando lá. Foi lá que nasceu “A Fita embolada do engenho”, de 2009 para 2010, meu primeiro trabalho. Mas aí tive que voltar para Brasília porque minha mãe descobriu um câncer e eu tive que voltar para ajudá-la.

O Otimista – Apesar de ser conhecido no hip-hop, uma característica muito forte da sua música é a mistura de ritmos. Como você construiu esse repertório musical que mescla tantas influências musicais?

RAPdura – Isso surgiu por conta do preconceito dos meus pais com o rap. Quando eu comecei, fazia aquele rap mais tradicional, mais duro, mais puro, e meus pais não aceitavam que eu ouvisse rap em casa, era proibido. Aí vi que meu pai tinha muitos discos do Luiz Gonzaga, do Jackson do Pandeiro, da Marinês, uns bregas, e ele gostava muito daquilo e minha mãe também. Qual foi a minha estratégia? Eu uni as duas coisas para agradar aos meus pais e ouvir rap em casa. Foi uma maneira de quebrar o preconceito dentro da minha própria casa. Eu juntei as duas coisas: o que era do Nordeste – que era a minha essência – com a minha nova paixão pelo hip hop e aí surgiu esse trabalho rico e original que só eu faço no mundo.

O Otimista – Como foi a aceitação deles depois que os ritmos nordestinos começaram a fazer parte do seu rap?

RAPdura – Eles adoraram, começaram a mostrar para todo mundo. Meu pai sempre me falava: “Isso aí é a nossa raiz, é da onde a gente veio”. Aí apoiou muito. Nisso eu comecei a comprar vinil, cordel e comecei a mergulhar mais fundo na minha cultura.

O Otimista – Você é de Fortaleza, saiu cedo do Ceará, mas suas músicas falam do seu estado e do sertão nordestino como poucas. Como o Nordeste, especialmente o sertão, se entranhou na sua identidade e na sua trajetória musical?

RAPdura – Sou nascido em Fortaleza, mas vivi uma parte entre o sertão e a capital. A família da minha mãe é toda do sertão e do meu pai da capital, então eu estudava na capital e, nas férias, eu sempre ia pro sertão de Timbaúba, em Carnaubal, próximo a Viçosa. A minha mãe fala que, da nossa família toda, eu sou o que mais trouxe essa veia nordestina, essa coisa do sertão, do campo. Eu trago isso em mim. Eu adoro me vestir, usar sandália de couro, chapéu de palha. Essa coisa das pessoas não se reconhecerem é algo que vem lá de baixo, da infância, quando você coloca os heróis norte-americanos como referência, como Homem-Aranha, Super-Homem, Capitão América, e não mostra Zumbi, Maria Quitéria, não mostra nossos heróis, nossa cultura. A gente fica com isso de que o que a gente tem é feio, que é vergonhoso ser nordestino por conta de todo o preconceito e xenofobia que nos é imposto desde a infância. Então, é um processo de reeducação e é isso que eu tento trazer nesse trabalho, essa valorização desse orgulho de ser nordestino, que é uma coisa maravilhosa. Pra mim, na minha humilde opinião e de muita gente também, a cultura nordestina é a mais rica do mundo, não tem igual. É infinita de possibilidades.

O Otimista – O fato de muitas das suas letras exaltarem a cultura e o imaginário nordestino mais impulsionou ou criou barreiras na aceitação do público?

RAPdura – A gente tem quebrado muitas barreiras. Desde “A Fita Embolada” – quando eu lancei “Norte-Nordeste me veste”- para cá, criou-se um movimento muito forte contra xenofobia. Tanto é que todos os movimentos hoje que têm em relação à xenofobia têm a música “Norte-Nordeste me veste” como um hino. Foi o primeiro rap da história a bater de frente com o monopólio do Sul e Sudeste, a falar que tem rap no Brasil todo e que cada região tem a sua cultura típica, seu linguajar e é para isso que eu tento acordar o Brasil todo. Cada lugar vai ter uma coisa diferente, por que não vai ter rap de cada lugar? Porque a gente ainda está quebrando essas barreiras.

O Otimista – Você ainda hoje volta ao Ceará para beber da fonte, alimentar sua veia nordestina?

RAPdura – Sempre. Há pouco tempo estive aí. Estou sempre em contato com a minha terra, é importante manter esse elo. Eu devo toda a minha carreira à minha terra, que foi o que me puxou pelo braço e falou, isso aqui é a sua raiz, é a sua essência. Eu agora estou fazendo um trabalho chamado Safra Ouro Ceará, em que eu vou reunir mais de 60 artistas da nova escola do rap e vou produzir um disco com eles para trazer esses artistas nordestinos e cearenses para o Brasil e para o mundo.

O Otimista – “Universo do canto falado” é considerado o seu disco de estreia e já recebeu indicação ao Grammy Latino. O que isso representa para você e quais são as suas expectativas de levar o prêmio?

RAPdura – “Fita Embolada” foi uma espécie de EP, foi meu primeiro trabalho autoral, feito com samplers, menos recursos. O “Universo do canto falado” vem para coroar esses mais de 20 anos de carreira com um disco oficial. Ele vem a ser a evolução da “Fita embolada do engenho” e a criação de um novo universo sonoro. Se você pegar e ouvir o disco todo, vai ver que nenhuma faixa parece com nada do que já foi feito na história da música. O que poderia ser a grande maldição e pedra no caminho virou a grande benção porque você fazer algo diferente, inovador, tem que ter muita ousadia nos dias de hoje com toda a opressão da indústria em cima da gente para seguir a tendência, para fazer música fútil, sem conteúdo. Então, a gente bota a cara para bater mesmo e diz: tem conteúdo, tem musicalidade, originalidade e personalidade. Sabemos que é um trabalho difícil de ser digerido, que é a longo prazo, mas a gente não veio para ser de momento, a gente veio para fazer história, para ficar na história. Taí a recompensa de um trabalho original feito com muito amor e muita verdade. Esse é o ponto mais forte, por isso que eu acredito que a gente vai ganhar o Grammy. A gente mostra quem é o Brasil para o mundo e, ao mesmo tempo, dialoga com o mundo todo em todas as faixas.