Com apoio da Adroaldo Tapetes, espetáculo “CAPIBA, pelas ruas eu vou” é encenado no Teatro RioMar Fortaleza 

De Recife para o mundo, o espetáculo “CAPIBA, pelas ruas” eu vou desembarca na capital cearense com dança, música e teatro para revelar as muitas faces do compositor que revolucionou a cultura nordestina – e que, até hoje, muitos brasileiros ainda não conhecem

Sâmya Mesquita

samyamesquita@ootimista.com.br

Se você acha que já viu de tudo em musicais, prepare-se para rever seus conceitos com um espetáculo tipicamente nordestino. Nesta quinta-feira (31), às 20h, o Teatro RioMar Fortaleza recebe “CAPIBA, pelas ruas eu vou”, que mistura frevo, samba, maracatu e até missa para contar a história de Lourenço da Fonseca Barbosa (1904-1997), o Capiba, um dos maiores compositores do País ainda desconhecido para muita gente. Produzido pelo projeto Aria Social, o musical reúne 45 bailarinos-cantores e 19 músicos em cena, transformando a vida do artista em um mosaico de cores, sons e movimentos.

Revolução nordestina

Nascido em Surubim (PE) em 1904, Capiba começou a tocar piano ainda criança, influenciado pela mãe, e logo mergulhou no universo dos frevos e marchinhas carnavalescas. Apesar de ter trabalhado durante décadas como bancário, sua produção musical foi vastíssima: mais de 200 composições, entre clássicos como “Quem Leva a Flor”. Sua obra atravessou gêneros – do frevo ao maracatu, da valsa à música sacra – e antecipou discussões sociais, como em “Cala a Boca Menino” (1951), que denunciava a violência contra a mulher.

Como compositor, fez parte do Movimento Armorial, expressão multiartística idealizada por Ariano Suassuna (1927-2014), que buscava criar uma arte erudita brasileira a partir da cultura popular do Nordeste. Inclusive compôs “Missa Armorial” (1974) para o movimento, sintetizando essa busca por uma identidade musical brasileira.

Apresentando um gênio ao grande público

Para a bailarina Cecília Brennand, diretora-geral do espetáculo, a força do projeto está justamente na pluralidade. “O Aria Social já une dança, música, teatro, cinema e fotografia naturalmente. Nossos alunos são preparados para serem bailarinos-cantores: de manhã estão em um naipe de voz, à tarde, na aula de dança. A dança moderna que trabalhamos tem um pé no teatral, o que permite traduzir a essência de Capiba sem fronteiras”, explica a diretora. E o resultado emociona: desde 2022, mais de 30 mil espectadores já viram o musical, que revela desde os frevos-canção que embalaram gerações no Carnaval de Pernambuco até composições eruditas pouco divulgadas.

A maestrina Rosemary Oliveira, responsável pela direção musical, destaca o desafio de traduzir a obra multifacetada de Capiba. “Quisemos fugir do óbvio: não é só frevo. Selecionamos maracatus como “É de Tororó”, que ele ousou chamar de maracatu mesmo sendo em tom menor, quase sombrio, e a Missa Armorial, que exigiu da nossa orquestra clássica sair da zona de conforto”, revela. O contraste entre a personalidade reservada do compositor e sua produção ousada guiou as escolhas artísticas: “Ele trabalhava no Banco do Brasil e compunha nas horas vagas, mas criou um universo musical tão rico quanto Heitor Villa-Lobos (1887-1959). Só não ficou famoso porque, para ele, ver o povo cantando suas músicas no Carnaval já era suficiente”, reflete Rosemary.

Nos bastidores, a coreografa Ana Emília Freire e a figurinista Beth Gaudêncio contam como extraíram a essência nordestina do espetáculo. “Cada gesto dos bailarinos nasceu de emoções reais: pedi que trouxessem suas próprias histórias para a dança”, diz Ana Emília. Já Beth se inspirou na música para criar os figurinos: “Quando escuto Maria Bethânia [gravada por Nara Leão], por exemplo, já vejo as cores e texturas. Capiba compunha com tantas camadas que as roupas precisavam refletir isso”. Para a figurinista, o projeto vai além do palco: “Muitos desses jovens nunca tinham ouvido frevo antes. Agora, alguns estão no Conservatório de Música ou viraram professores. É a arte transformando vidas”.

Capiba só ganhou reconhecimento nacional tardio: em 1984, aos 80 anos, quando foi tema de enredo da Mangueira, Yes, nós temos Capiba. O próprio Rei do Frevo dizia: “Minha escola foi o povo, meu livro foi a rua”. Mas isso não quer dizer que nós, apreciadores de cultura, precisamos nos privar da arte deste que foi um dos maiores compositores que o Nordeste já viu. Fortaleza poderá conhecer de perto toda a magia desse legado.

serviço

Musical “CAPIBA, pelas ruas eu vou”
Nesta quinta-feira (31), às 20h
No Teatro RioMar Fortaleza. Rua Desembargador Lauro Nogueira, 1500, Papicu
Ingressos por R$ 50 no Uhuu!

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