Setor fundamental para o escoamento da produção de diversos segmentos no Brasil, o transporte rodoviário tem sofrido reveses nos últimos anos, como a greve de caminhoneiros, e vem se articulando para dar novo fôlego à logística do País. Os 10 dias de paralisação em maio de 2018 resultaram em uma tabela única de frete “repleta de distorções”, como aponta o empresário Clóvis Nogueira Bezerra, que preside o Sindicato das Empresas de Transporte de Carga e Logística do Ceará (Setcarce) e a recém-fundada Fetranslog Nordeste, federação que reúne os sindicatos patronais do setor em cinco estados – Ceará, Piauí, Maranhão, Rio Grande do Norte e Paraíba.

Por aqui, são 1,3 mil empresas em funcionamento, sendo cerca de 300 regularizadas junto ao Sindcarce, informa Clóvis. Para se ter uma ideia da relevância do setor, estas empresas são responsáveis por aproximadamente 65% da carga movimentada por via terrestre no Estado.

O percentual é semelhante nos demais estados que compõem a Fetranslog. Criada a partir de uma cisão da antiga federação regional, que gerou um vácuo de representatividade para os estados que compõem a Fetranslog Nordeste, segundo seu presidente, a entidade busca se organizar para ser um centro de inteligência do setor de logística. Bem como negociar junto aos governos estaduais e federal novas normas que incentivem a competitividade sem sobrecarregar as empresas. “Temos agora um sindicato reconhecido nacionalmente pela sua credibilidade e confiabilidade e que tem dialogado com diferentes esferas para buscar melhorias para o setor”, afirma o presidente.

Qual é o tamanho do setor de transporte rodoviário no Ceará?

O volume de carga, como não estávamos com uma boa representação de federação, não temos dados precisos, mas hoje somos responsáveis por mais 65% de toda a carga que entra e sai do Ceará.

Apenas por via terrestre?

Tem uma situação que eu digo que o transporte rodoviário leva 100% das cargas movimentadas. 65% é a movimentação padrão, daqui de Fortaleza direto pra Recife, São Paulo, Porto Alegre e vice-versa, por exemplo. Mas, quando vai de avião, quem vai deixar e buscar no aeroporto é o caminhão. Quando vai de navio, a mesma coisa, e a mesma situação com o trem. Então, o transporte de carga rodoviário e logístico representa 100%, até pela cultura. O Brasil nunca teve uma cultura de ferrovia ou cabotagem, por exepmlo. Pode ter no futuro uma integração intermodal, que será muito mais produtiva, com rapidez e segurança, mas não é o que acontece hoje.

A Fetranslog foi fundada há pouco tempo. Quais são as ações mais urgentes que a federação deve desenvolver?

Estamos montando um departamento técnico, alinhado com a CNT e a ANTC, que estão nos ajudando para que a gente possa trabalhar com dados. É que vai nos permitir trabalhar com mais clareza, com pesquisa específica para os cinco estados. Nosso primeiro trabalho vai ser apresentar alguns números técnicos, que já estão sendo levantados, para a Secretaria da Fazenda.

Além da estruturação, quais são as pautas mais relevantes do setor para médio e longo prazos? 

Nós vamos discutir leis, estradas, tributação, até pavimentação de rodovias. Tarifas, por exemplo: o transporte de cargas é um livre mercado, como pode ter tabela de frete como existe atualmente. A gente vai ter que mostrar ao transportador o número correto que ele cobre e não tenha prejuízo. Vamos fazer também uma ligação com as leis trabalhistas, tentar padronizar as convenções trabalhistas. Não precisa ser 100% padronizado, mas precisa ter a mesma linha dorsal para todos os estados, contemplando só os detalhes de cada um.

Além da questão da estrutura deficiente das rodovias, qual é o maior gargalo do setor?

Atualmente é a tabela de frete. Ela nasceu errada, aliás, nem deveria ter nascido. Mas nasceu em uma situação de greve, onde o País estava pagando muito caro, e daí foi feita uma tabela e empurrada goela abaixo. Não dá tempo fazer uma tabela de frete tão cheia de opções que foi discutida, elaborada e colocada em vigor em uma semana. Mas foi feita pra solucionar a greve (de caminhoneiros, que em maio de 2018 provocou desabastecimento em vários pontos do Brasil).

O setor teme outra greve do tipo?

Eu acredito que essa tabela vai ser revisada em breve. E o setor de transporte rodoviário de carga, de transportadora, está preparado para suprir qualquer deficiência de caminhão para fazer esse transporte. Se o governo passar segurança para as transportadoras, tenho certeza que, com a atual situação econômica e o volume de cargas movimentado hoje, temos frota pra isso e não vamos passar pelo mesmo problema.

A seu ver, o principal prejudicado com a tabela única é o Nordeste?

Não é só o Nordeste, é o Brasil. Levar cargas por grandes distâncias é uma coisa complicada. Eu não posso ter minha carga na transportadora, por exemplo, de São Paulo para Fortaleza e pagar para o caminhão voltar vazio. Como é que o transportador vai chegar para a indústria e o comércio pra negociar preço se a carga não existe, a economia está desaquecida? O dono da carga é quem diz “eu só pago tanto”. Quem tem carga hoje é o agronegócio e a indústria, eles que ditam preços. Além da tabela única, outro problema sério é taxação, essa carga tributária que é muito perversa. Estamos esperando a ação do governo.