Idealizador do DFB Festival, Claudio Silveira projeta cenários animadores para a moda regional no contexto da retomada econômica e dá detalhes do DPM Digital, evento virtual que será realizado entre os dias 22 e 25 de novembro

Danielber Noronha
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Enquanto o mundo procura se reinventar para superar os prejuízos ocasionados pela atual crise sanitária, o Ceará pode ter boas chances de deslanchar no cenário nacional da moda, inclusive, se consolidando mais fortemente no Exterior. A projeção é de Claudio Silveira, idealizador e diretor do DFB Festival. “O Ceará tem a faca e o queijo nas mãos para retomar seu lugar entre os mais relevantes produtores de moda do Brasil”, vislumbra. Este caminho, segundo ele, pode ser iniciado já em 2022 e, para ser alcançado com maestria, é preciso injetar investimento nos municípios cearenses de vieses têxteis.

Além disso, ressalta, é preciso difundir conhecimento, trocar experiências e apresentar novos conceitos a quem faz a moda acontecer no Estado. Essas são algumas das premissas presentes no DPM Digital, evento de moda que irá discutir, entre os dias 22 e 25 de novembro, microempreendedorismo, sustentabilidade na moda e negócios digitais. “O mundo continua girando e quem não gira junto, será fatalmente atropelado por ele”. Em entrevista ao O Otimista, Silveira deu detalhes da programação, avaliou o cenário da moda local e adiantou o que está por vir na edição do DFB Festival para 2022. Confira!.

O Otimista – Como surgiu a ideia do DPM Digital e o que pretendem alcançar a partir dele?

Claudio Silveira – O DPM Digital não surgiu de uma ideia; podemos dizer que, assim como a necessidade é a mãe da inovação, foi essa mesma necessidade que fez surgir a versão virtual da jornada de conhecimento do DFB Festival. Em 2020, com o mundo todo atordoado pelas incertezas da pandemia, grandes apoiadores nos incentivaram a buscar novos formatos. Assim nasceu o DFB Digifest, reunindo virtualmente a mesma inquietação criativa do DFB Festival em uma programação híbrida, mas com foco no online. Chegamos em 2021 com uma evolução natural desse processo todo, que é o DPM Digital, agora, focado em promover reflexões sobre o momento de retomada do nosso setor.

O Otimista – Quais serão os principais destaques e desafios do evento?

Claudio – Sem dúvidas, o principal destaque do DPM é o próprio formato. Ao invés da maneira convencional de apresentar conteúdo formativo online, a gente quebra a quarta parede das lives e apresenta uma programação que reúne fórmulas dos talk shows e linguagens que são típicas do momento tik-toker. De 22 a 25 deste mês, faremos um hacking no Museu da Fotografia Fortaleza, instalando um estúdio de transmissão, por onde passarão convidados presenciais e virtuais. Do ponto de vista dos participantes, destaco uma das principais vozes da nova geração de pensadores e estrategistas da moda brasileira: o consultor, escritor, mentor de carreiras criativas em moda e comunicador Jorge Grimberg. Ele fará a masterclass da noite de abertura do DPM, com todo o estilo e a cara que a gente acha que deve ser dessa nova moda feita no Brasil.

O Otimista – Para quem é feito o DPM Digital, quem pode participar?

Claudio – Podemos definir o DPM Digital como a versão virtual da jornada de conhecimento do DFB Festival, que foi criada, há 16 anos, para promover a troca de vivências e saberes entre mercado e estudantes de design, moda e comunicação. Mas o DPM Digital é aberto a todos, já que seus quatro dias de programação online podem ser acessados tanto em nosso canal no YouTube, quanto no nosso site, onde o conteúdo gerado ficará disponível posteriormente.

O Otimista – Quais os ganhos de se discutir aspectos como empreendedorismo e sustentabilidade para quem trabalha com moda?

Claudio – Em momentos de desafio, a informação e a troca de conhecimento são algumas das principais ferramentas para crescer e se consolidar. O tema da sustentabilidade se vê cada vez mais urgente, com questões envolvendo o uso responsável dos recursos naturais e as novas formas de consumo. As histórias de empreendedorismo de profissionais que se mantém relevantes, por outro lado, são combustível para reativar todos os níveis da cadeia produtiva da moda no Estado.

O Otimista – A pandemia tem afetado as atividades de diversos setores, inclusive na moda. No seu entender, quais foram as maiores perdas neste sentido?

Claudio – De todas as perdas, as maiores foram as milhares de vidas de brasileiros, isso não há o que comentar. 18 meses de pandemia atingiram a moda mundial de forma brutal, forçando o setor a voltar muitos passos. Ao mesmo tempo, essa mesma pandemia obrigou nosso segmento inteiro a se reinventar. Grandes players e marcas consagradas que se recusaram a acompanhar esse movimento, simplesmente sumiram do mapa. Acredito que, nesse momento, é nisso que devemos focar. Porque o mundo continua girando e quem não gira junto, será fatalmente atropelado por ele.

O Otimista – Quais aspectos devem ser trabalhados para alavancar o processo de retomada no setor da moda?

Claudio – A capacitação do setor, que é o foco maior do DPM Digital, e a união de forças de toda a cadeia produtiva, objetivo do programa 100% CE, um projeto que criamos para promover o Ceará como polo de criação, produção e consumo, da geração de insumos ao potencial de seu próprio mercado interno, bem como do internacional. O 100% CE reunirá os maiores eventos do trade em um só vórtice, tendo como protagonistas os municípios que desejam desenvolver vocações têxteis. O mundo venera nosso handmade [feito à mão] e precisa descobrir a potência que é a moda autoral e a força produtiva do Interior do Estado.

O Otimista – Como posiciona o Ceará no contexto atual da moda nacional?

Claudio – O Ceará tem a faca e o queijo nas mãos para retomar seu lugar entre os mais relevantes produtores de moda do Brasil. Há mais de 30 anos, éramos respeitados por nossa força produtiva e pela riqueza do nosso ‘feito a mão’. Desde o início do DFB Festival, 23 anos atrás, o mundo passou a conhecer uma face ainda mais atrevida do Ceará: um lado inovador, criativo, sem medo de romper com fórmulas. É exatamente assim que chegamos hoje, vivos e fortes, após 18 meses de uma pandemia devastadora. Presenciamos, nesse período, uma mudança profunda no jogo da moda em nosso Estado, com a saída de players tradicionais e com a entrada em campo de novas marcas, online e off-line, bem como de novas formas de se relacionar com um mercado que, ao que parece, também se transformou profundamente. Essa nova geração de marcas e designers, conectada naturalmente desde o berço, tem apontado novos rumos para o trade e é nela que nos inspiramos. Por tudo isso, 2022 se mostra auspicioso para a moda cearense. Depois dessa longa tempestade, o sol volta a brilhar ainda mais forte no Ceará.

O Otimista – Quando deve haver uma edição do DFB nos moldes anteriores à pandemia?

Claudio – É com muita alegria que definimos o mês de maio de 2022 como o retorno presencial do DFB Festival. Mas sabemos que o DFB exerce esse papel quase mítico de ser um lugar de confluência e diversidade para a criatividade do nosso Estado. Voltaremos ainda maiores, às areias da Praia de Iracema, retomando as atividades interrompidas em 2020. Nos próximos meses, revelaremos, em nossas redes sociais, novidades, inovações e surpresas que estamos preparando. Sabemos que o desafio de representar o talento da moda cearense para o mundo é grande, mas temos a moral inequívoca de sermos o maior encontro da moda autoral da América Latina.