Depois de conquistar prêmios com o recente A Praia do Fim do Mundo, o cineasta cearense se prepara para lançar o filme no circuito internacional da crítica especializada. Em conversa com O Otimista, ele adianta os próximos passos da carreira, fala da relação com o pai, Rosemberg Cariry, com o padrinho, Patativa do Assaré

Danielber Noronha

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O avanço do mar nas regiões costeiras e as consequências para as populações litorâneas. O legado do poeta Patativa do Assaré para a cultura brasileira. A passagem do ator e diretor Orson Welles pelo Brasil. Estes assuntos poderiam não ter nada em comum, exceto pelo fato de que serviram de inspiração para o cineasta cearense Petrus Cariry se aventurar em longas e curtas-metragens. O primeiro deles originou A Praia do Fim do Mundo’, mais recente trabalho lançado por ele, que conquistou a crítica do Cine Ceará e nada menos que dez prêmios no Fest Aruanda, em João Pessoa (PB).

O filme em questão foi rodado na praia de Icaraí, Região Metropolitana de Fortaleza (RMF), que vive situação semelhante ao problema destrinchado no filme. “Foi o cenário perfeito para fazer uma analogia com a situação que o País vive hoje, de desalento e desesperança também”, justifica. 

Para este ano, Cariry pretende levar o longa para novas praças e contou ao O Otimista como deverá ser o processo, que inclui exibição em festivais internacionais no decorrer do primeiro semestre. Além disso, adiantou detalhes do próximo trabalho, em que dirigiu  Matheus Nachtergaele. Nesta entrevista, ele acessou memórias do passado, que vão desde a infância, como espectador assíduo da obra do pai, o também realizador audiovisual Rosemberg Cariry, e das lembranças que o fizeram construir o curta-metragem Foi um Tempo de Poesia, que homenageia seu padrinho, Patativa do Assaré. .

O Otimista – Como foi a recepção de A Praia do Fim do Mundo no Cine Ceará?

Petrus Cariry – Muito boa. Eu tinha acabado de chegar da filmagem do meu novo longa, que não está nem finalizado ainda, o Mais Pesado é o Céu, e uma semana depois a gente fez essa exibição aqui na competição do Cine Ceará. A recepção do público foi melhor do que eu esperava. O filme saiu com três prêmios, de Melhor Fotografia, Melhor Direção de Arte e o Prêmio da Crítica de Melhor Longa-metragem.

O Otimista – Além disso, o filme foi aclamado no Fest Aruanda (PB), com dez prêmios. Como é ver seu trabalho ganhando tanto reconhecimentos?

Petrus – O Fest Aruanda foi a segunda exibição pública do longa em festivais, logo após o Cine Ceará. O filme foi exibido numa super tela de IMAX e, como há um trabalho de fotografia e som bem elaborado, foi uma bela exibição. Senti naquele dia que as pessoas estavam animadas ao saírem das sessões, impressionadas. Já estava aqui em Fortaleza quando soube dos prêmios, foi a maravilhosa Marcelia Cartaxo, atriz do filme, que esteve lá representando e recebendo os prêmios. Foi fantástico! É sempre bacana ter o trabalho reconhecido.  

O Otimista – Em “A Praia”, você discute a erosão costeira. Como este tema chegou para você e como decidiu usá-lo como pano de fundo para contar uma nova história?

Petrus – Essa questão da erosão costeira foi um tema que sempre me interessou de alguma forma e já tinha vontade de fazer um filme usando esse pano de fundo, de uma praia que estava se desmanchando e o mar avançando, retomando seu lugar de volta. A praia do Icaraí surgiu por uma ideia do Sergio Silveira, diretor de arte, que mora lá. Na adolescência, andava muito no Icaraí, que já estava em processo avançado de erosão, mas nada perto do que é visto hoje, quase como uma praia fantasma, com muitas casas vazias e destruídas. Foi o cenário perfeito para fazer uma analogia com a situação que o País vive hoje, de desalento e desesperança também. 

O Otimista – Você está finalizando outro filme, correto? Pode nos adiantar detalhes da trama e se já há uma previsão de estreia?

Petrus – Agora vou começar o processo de montagem do filme Mais Pesado é o Céu, que rodei em novembro, com Matheus Nachtergaele e Ana Luiza Rios. É um filme que fala de um casal que se encontra na estrada, enquanto está indo para a antiga cidade de Jaguaribara, submersa pelo açude Castanhão. Aí eles começam a se apoiar um no outro e passam por algumas dificuldades. Devo concluir até o final de 2022 e lançá-lo no comecinho de 2023, assim espero. É o que posso adiantar por enquanto. 

O Otimista – Além dos filmes, tem também o curta sobre o Patativa do Assaré. De onde surgiu o interesse para o material? Foi inspirado pelo trabalho do seu pai?

Petrus – O Foi um Tempo de Poesia é um documentário que surgiu a partir de uma espécie de dívida que tinha com o Patativa. Ele é meu padrinho e fez parte da minha vida, principalmente na infância. Ele é, talvez, o maior poeta que o Nordeste já teve e um dos maiores do País. Já era adulto quando ele morreu e não consegui ir para o velório, deu uma ‘travada’ e, de alguma forma, isso mexeu muito comigo. Fiz o filme para falar um pouco disso e também para fazer uma nova geração conhecer o Patativa, já que ele deve circular bastante neste ano, acho eu. O recorte que faço é totalmente pessoal, mas dou muita voz a ele. A feitura do filme surgiu a partir de um material Super-8 que o meu pai filmou na década de 1980, e a maioria não havia sido usado no longa que ele fez em 2007, Patativa do Assaré – Ave Poesia. Talvez seja um dos meus melhores curtas-metragens, bastante emotivo, no qual me emociono muito quando revejo. Ele também foi premiado no Fest Aruanda e no Festival Internacional de Curtas Metragens de São Paulo.

O Otimista – Aproveitando o ensejo, qual o peso de ter Rosemberg Cariry como pai? Quais foram os ônus e bônus disso na sua carreira até aqui?

Petrus – Ter o Rosemberg Cariry como pai é fantástico porque tive sorte de acompanhar a confecção dos filmes nos sets, principalmente na transição da adolescência para a fase adulta. Na infância, de forma indireta, acompanhei a montagem dos filmes pelo meu pai com uma moviola, como A Saga do Guerreiro Alumioso. Fora isso, viver em um ambiente cercado de filmes que as pessoas não tinham acesso, além de livros sobre cinema, literatura e uma boa música também. Meu pai me ajudou demais no começo da carreira, só tenho a agradecer e vejo tudo como bônus. Tenho muito orgulho da filmografia dele, principalmente agora, que estamos recuperando alguns filmes, como Corisco & Dadá, onde começamos um processo de remasterização e escaneamento dos negativos originais para fazer uma master do filme em 4K. Também é muito bom poder contribuir com ele de alguma forma, já que ele sempre assina roteiro junto conosco. Já fotografei três longa-metragens dele e montei alguns. A gente vive nessa simbiose criativa, se completando de alguma forma.

O Otimista – Hoje, temos um cinema local produzindo muito. Como avalia o audiovisual cearense atual?

Petrus – De alguma forma, vivemos um momento bem interessante do cinema cearense, com muitos filmes sendo feitos e alguns conseguindo público e bilheteria, como os do Halder Gomes, que vão para o mercado e se saem super bem. Também existe uma linha de filmes autorais que participam muito de festivais e ganham prêmios pra caramba. A filmografia do cinema cearense está aumentando não só em quantidade, mas também de forma qualitativa. Um exemplo é Cabeça de Nêgo, do Déo Cardoso, lançado no ano passado, que gerou uma discussão muito bacana. Cinema tem que ter investimento e espero que o Governo do Estado continue a investir, porque cinema se faz de filmografia, tanto para pessoas que precisam fazer seus primeiros longas quanto também para quem já está filmando.

O Otimista – Por fim, o que o público pode esperar do Petrus Cariry para 2022? 

Petrus – Em 2022, devo lançar o documentário que dirigi com o Firmino Holanda, A Jangada de Welles, que já faz dois anos e precisamos lançar nos cinemas, se a pandemia deixar. Vamos continuar o lançamento de A Praia do Fim do Mundo nos festivais nacionais e também partiremos para os internacionais. Vamos lançar também o Mais Pesado é o Céu em festivais e, até o fim do ano, o filme deve chegar aos cinemas e às plataformas de streaming. Vamos torcer para dar certo tudo que está previsto!